Capítulo 24

1189 Words
A noite caiu sobre a costa como um véu silencioso, e o mar parecia respirar mais profundamente do que o habitual. As ondas rolavam lentamente contra as pedras, quebrando-se com um som que lembrava suspiros antigos — como se o próprio oceano estivesse atento ao que estava prestes a acontecer. Noah estava ali novamente. Sentado na areia úmida, próximo ao ponto onde costumava encontrá-la, ele mantinha os olhos fixos na água escura. A lua refletia no oceano como um caminho prateado, e aquela luz suave fazia a superfície do mar parecer quase viva. Mas naquela noite havia algo diferente. Algo no ar. Algo dentro dele. Nos últimos dias, Noah sentia que as coisas estavam mudando. Não sabia explicar exatamente como ou por quê, mas cada vez que vinha à praia sentia o peso de uma expectativa silenciosa. Como se o oceano estivesse preparando algo. Como se Íris estivesse mais próxima… ou mais distante do que nunca. Ele passou a mão pelos cabelos e suspirou. — Você disse que tentaria… — murmurou para si mesmo. — Disse que viria. O vento frio soprou vindo do mar, fazendo a superfície da água tremer levemente. Por alguns instantes, nada aconteceu. Apenas o som das ondas. Então… Uma ondulação diferente surgiu um pouco mais longe da margem. Noah levantou-se imediatamente. O coração acelerou. A água moveu-se outra vez, dessa vez com mais clareza. E então ela apareceu. Primeiro o brilho suave dos cabelos na água escura. Depois os olhos. Íris. Ela não emergiu completamente como das outras vezes. Apenas metade do corpo saiu da água, os braços apoiados em uma pedra submersa enquanto a cauda permanecia oculta sob a superfície. Os olhos dela encontraram os de Noah. E naquele instante tudo ao redor pareceu desaparecer. Noah deu alguns passos na direção da água. — Íris… O nome saiu quase como um suspiro. Ela não respondeu imediatamente. Por um momento apenas o observou. Havia algo diferente no olhar dela. Algo mais pesado, mais profundo. Como se carregasse um pensamento difícil. Ou uma decisão. — Você veio — disse Noah finalmente, aproximando-se mais um pouco. Íris inclinou levemente a cabeça. — Eu disse que viria. A voz dela era baixa, quase misturada com o som das ondas. Mas havia tensão ali. Noah percebeu. — Aconteceu alguma coisa? Ela hesitou. Os dedos deslizaram pela superfície da água enquanto ela parecia organizar os próprios pensamentos. — O Conselho… — começou ela lentamente. — Eles continuam atentos. Noah franziu a testa. — Ainda por causa de mim? Íris soltou um pequeno suspiro. — Não apenas por sua causa. Ela levantou os olhos novamente. — Por causa do que nós representamos. Noah não respondeu de imediato. Ele já começava a entender melhor o peso daquele mundo invisível sob o mar. As regras. As tradições. O medo. Mesmo assim, havia algo dentro dele que se recusava a aceitar que aquilo fosse errado. — Eu não sou um perigo para você — disse ele. Íris o observou. — Eu sei. — Então por que eles continuam tentando impedir? Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu: — Porque já aconteceu antes. Noah ficou imóvel. — O quê? Íris desviou o olhar para o mar. A lua refletia nos olhos dela como se escondesse memórias muito antigas. — Karla contou algo sobre minha mãe. O coração de Noah apertou. — Sua mãe? Íris assentiu. — Ela também se apaixonou por um humano. O silêncio entre eles tornou-se mais pesado. Noah sentiu a areia fria sob os pés enquanto tentava imaginar aquela história. — E o que aconteceu? Íris demorou a responder. — Ninguém fala muito sobre isso. Ela passou a mão pela água novamente. — Apenas dizem que terminou em dor. Noah respirou fundo. — Íris… Ela voltou a olhar para ele. — Isso não significa que vai acontecer o mesmo com a gente. Mas os olhos dela estavam cheios de conflito. — Você não pode saber disso. — E você também não. O silêncio voltou. Mas dessa vez não era apenas pesado. Era cheio de emoção. Noah deu mais um passo para frente, agora com a água fria tocando seus pés. Íris observou o movimento. — Noah… — Eu só quero ficar um pouco mais perto. Ela não se afastou. O coração dele bateu mais rápido. A distância entre eles agora era pequena. Muito pequena. A água subia até os tornozelos de Noah. Íris estava logo ali. Tão perto que ele conseguia ver cada detalhe do rosto dela iluminado pela lua. — Você tem medo? — perguntou ele suavemente. Íris demorou a responder. Mas quando falou, a voz era sincera. — Tenho. — De mim? Ela balançou a cabeça. — Do que pode acontecer. Noah estendeu lentamente a mão. Não rápido. Não de forma impulsiva. Apenas um gesto simples. — Confie em mim. Íris olhou para aquela mão estendida. E por um momento o mundo pareceu parar. O oceano ao redor deles moveu-se lentamente. Como se estivesse observando. Como se estivesse esperando. Ela aproximou-se um pouco mais da pedra. A água agitou-se ao redor da cauda dela. Noah manteve a mão parada. Sem pressionar. Sem exigir. Apenas oferecendo. Os dedos de Íris subiram lentamente acima da superfície. Primeiro as pontas. Depois a mão inteira. Molhada. Brilhando sob a lua. Ela parou a poucos centímetros da mão dele. Os olhos dela estavam cheios de emoção. — Se alguém nos visse agora… — murmurou ela. — Só tem o mar. E o mar parecia guardar aquele momento em silêncio. Íris respirou fundo. E então… Os dedos dela tocaram os dele. Foi um toque leve. Quase inexistente. Mas para Noah foi como se uma corrente elétrica atravessasse todo o corpo. Os olhos deles se encontraram novamente. Nenhum dos dois falou. Nenhum dos dois precisava. O toque durou apenas alguns segundos. Mas foi suficiente para mudar tudo. Quando Íris retirou a mão lentamente, Noah ainda sentia o calor daquele contato. — Agora não podemos fingir que isso não existe — disse ele. Íris sabia. Ela olhou para o horizonte escuro do oceano. — Não. O vento soprou mais forte. — Noah… — Sim? Ela voltou a encará-lo. E havia algo novo na expressão dela. Algo que misturava medo… e decisão. — Talvez esteja chegando a hora de escolhermos. O coração dele acelerou. — Escolher o quê? Íris ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu: — Entre o mundo onde eu nasci… Ela olhou para ele. — E o mundo onde você vive. Noah ficou imóvel. O som das ondas parecia mais alto agora. Mais intenso. Como se o próprio oceano estivesse reagindo àquelas palavras. — Íris… Ela deslizou lentamente de volta para a água mais profunda. Mas os olhos continuaram presos aos dele. — Eu preciso de tempo para pensar. — Quanto tempo? Íris sorriu levemente. Um sorriso triste. — No oceano… o tempo nunca é simples. Ela mergulhou. A água fechou-se sobre ela. E Noah ficou sozinho novamente na praia. Mas dessa vez… Ele sabia que algo havia mudado para sempre. Porque agora eles tinham se tocado. E algumas marés… Depois de começarem a subir… Nunca mais voltam a ser as mesmas.
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