Antes mesmo de terminar a faculdade eu já trabalhava com o meu pai, ele sempre disse que teoria é importante, mas a prática é o que te coloca entre os melhores. O primeiro edifício onde ajudei o meu pai é o meu maior orgulho, a maior parte dele foi projetada por mim e o Ocean ficou pronto poucos meses antes da minha formatura. Uma das maiores e melhores surpresas que tive em minha vida foi quando o meu pai me chamou para ir até o edifício, situado em Moema, alegando um erro de cálculo na cobertura e chegando lá descobri que este era o meu presente de formatura.
O lugar estava extremamente cru e vazio, alegando que eu poderia decorar como quisesse que seria tudo por conta dele, um extra por ter me formado com honras. A cobertura foi a parte que eu mais gostei de planejar, um apartamento luxuoso: três quartos todos com suítes sendo a principal com hidromassagem e closed, sala e cozinha amplas e um terraço de tirar o fôlego, tanto pela vista quanto pelo espaço gourmet e piscina de borda infinita. Foi aí que eu conheci o Bento, ele foi meu arquiteto. O lugar favorito do meu lar acabou sendo o escritório todo em blindex adaptado no canto do terraço.
Com todo esse espaço é claro que minha melhor amiga tinha seu próprio quarto, ela ficou muito tempo por aqui quando tudo aconteceu, mas agora ela é apenas uma visitante. Chegamos do trabalho e fomos cada uma para o seu quarto, tomamos um banho relaxante e enquanto ela se encarregava de pedir a pizza eu separava os vinhos e ajeitava tudo pra gente na área gourmet.
Ligamos a tv, deixamos em um canal de música no volume baixo e Jú abriu a primeira garrafa, tomei um longo gole em silêncio, mas logo decidi quebrá-lo.
- Será que vai demorar muito para chegar o e-mail?
- No momento estou mais preocupada se vai demorar para chegar a pizza, estou varada de fome.
- Credo Júlia é magra de r**m, só pensa e vive de comer.
- Amiga eu preciso tá ainda mais quando estou ansiosa e a senhorita sabe disso. Quero que chegue logo essa merda de e-mail com as informações do peão bonitão para eu poder parar de me preocupar com você, ou não!
- Eu sei que se preocupa comigo assim como me preocupo com você Jú, pode ter certeza que eu sou muito feliz por ter você por todos esses anos na minha vida, nos bons e piores momentos.
- Mari, pega leve, tá só na primeira taça, não me venha com declarações melosas de amor.
Éramos sempre assim, alfinetamos uma à outra e nos divertimos com isso, na verdade Jú sempre foi melhor do que eu neste quesito. Desde a morte da minha mãe eu sempre fui mais na minha, mais reservada e caseira. Ela era minha melhor amiga e mesmo sofrendo no ápice de sua doença ela era gentil e se preocupava comigo. Nós não tivemos muito tempo depois do seu diagnóstico, mas o fato de saber que ela não sofreu por anos as atrocidades que um câncer no estômago causa, faz com que eu fique mais conformada e confortada.
- Tenho certeza que estava pensando na sua mãe, eu ainda sinto muito que não tenha mais sua mãe fisicamente por perto por tantos anos, mas sabe que pode contar comigo e com a minha mãe também, não sabe?
- Quanto tempo fiquei fora do ar desta vez? - Sempre me perco em meus pensamentos profundos e complexos, acontece também quando fico muito concentrada no meu trabalho.
- Tempo suficiente para chegar a pizza e eu ir na recepção buscar - disse apontando para as duas caixas de pizza na mesa em minha frente - agora vamos comer.
Assim foi feito, comemos e bebemos e conversamos trivialidades enquanto o tal e-mail do Elias com as informações do Carlos. E ele chegou, com um pedido de desculpas furreco pelos quarenta minutos de atraso, logo após secarmos a segunda garrafa. Claro que ele fez de s*******m, sabia que eu e Júlia estaríamos ansiosas e ele só fez para prolongar nosso sofrimento.
- Toma Jú - disse esticando o ipad para ela - melhor você ler.
Ela concordou, pegou o ipad da minha mão, coçou a garganta e então começou:
- Carlos Silas de Farias, nascido em treze de janeiro de mil novecentos e oitenta e seis, nascido e criado na Cidade Tiradentes SP, quando tinha quinze anos foi abandonado pelo pai (sem muitas informações), sendo desde então criado por sua mãe Maria do Socorro Silas, nascida no dia primeiro de agosto de mil novecentos e cinquenta e cinco. Após o abandono Maria acabou se prostituindo e posteriormente se viciando em drogas e jogos, o que fez com que Carlos deixasse a faculdade de matemática, para conseguir fazer mais b***s, para assim negociar as dívidas da sua mãe. Foi admitido como ajudante no império Borges no ano de dois mil e dezesseis, em dois mil e dezoito passou a exercer a função de pedreiro de acabamentos e em dois mil e vinte e um passou para a função de encarregado dos pedreiros de acabamento. Solteiro e sem informações sobre relacionamentos sérios nos últimos anos, se desdobra entre seu curso técnico em segurança do trabalho e cuidar de sua mãe que ainda nos dias de hoje dá bastante trabalho, vive humildemente na mesma casa onde nasceu, sem antecedentes criminais e sem indícios de envolvimento com qualquer coisa de natureza ilícita. Cinco mil reais é o valor que consegui levantar de dívidas ativas de sua mãe, único tipo de dívida que ele acumula, pois todas as contas referente a casa estão em dia. As últimas pesquisas que ele realizou na internet foram: roupas masculinas elegantes e clínicas de reabilitação.
- Caramba….
- É amiga eu sei, e acredito um pouco mais que podemos confiar nesse cara. Claro que nada do que li agora nos dá certeza de nada e que mesmo com essa vida ele pode ser sim um grandíssimo m*l caráter.
- Sabe acho que ele não tem a mínima vontade de me extorquir, amiga ele me pediu exatamente o valor das dívidas de sua mãe.
- O que? ele tem a chance de ganhar uma bolada ajudando uma milionária em uma farsa e pediu cinco mil?
- Exatamente isso amiga, eu disse a ele que as roupas para as ocasiões, que ele disse que não tinha, eu daria a parte desse dinheiro.
- Quer saber o que eu acho? Acho que deve pegar o seu celular e mandar uma mensagem para ele, diga que este final de semana ele arrume um tempo para vocês providenciarem as roupas e aproveita para tentar saber o máximo sobre ele. Elias disse que não encontrou nada ilícito e eu tenho certeza que ele não cometeria uma falha, mas pode ser que Carlos não tenha cometido nada ilícito ainda. Ele tem uma mina de ouro nas mãos agora, não temos garantias de que não subirá a cabeça dele.
- Você está certa, quanto mais eu souber de Carlos melhor.
- Mari, quanto mais amiga dele você conseguirmos ficar, acredito que estejamos mais seguras, porque eu também estou nessa e não vou te deixar sozinha.
- Eu sei disso minha amiga, acho que já deu de vinho por hoje, vou dormir pois amanhã tenho reunião com sócios do meu pai, vou apresentar o projeto daquele condomínio de classe média no ABC Paulista, tomara que aprovem, pois o projeto está bom e eu não estou com o mínimo de paciência em refazer.
- Sim Mari, eu me lembro disso. Pode ir se deitar, vou juntar as coisas aqui e também já vou me deitar. Até amanhã amiga.
Me despedi dela e fui para o meu quarto, escovei os dentes e passei uma água no rosto. Eu sempre soube que vivo em uma situação privilegiada e que existem pessoas nessas condições de vida, mas eu nunca acreditei que iria conhecer um caso pessoalmente e inevitavelmente sinto pena por tudo o que ele passa e tudo o que ele já perdeu por conta da mãe. Preciso me concentrar e não posso deixar que ele perceba que eu sei algo tão íntimo porque eu mandei pesquisar, eu não iria gostar se fosse ao contrário.