capítulo 12

1028 Words
## CAPÍTULO 12: Máscaras de Orgulho e Vidro (Ponto de Vista de Lucas) Eu limpei o canto do lábio com as costas da mão, sentindo a pele sensível e quente onde o soco de Bernardo quase havia pegado de cheio. No espelho retrovisor do meu carro, vi que o estrago não tinha sido grande, mas o verdadeiro estrago estava no olhar de Raissa quando fomos embora daquela biblioteca. Ela parecia carregar o peso do mundo nas costas, cansada de ser o alvo de uma fúria que ela claramente não merecia. Para mim, Raissa era uma lufada de ar fresco naquele mar de futilidade do Saint-Valéry. Eu a via como uma amiga incrível, uma garota inteligente e batalhadora que merecia todo o respeito do mundo. Ela não era um troféu de exibição e, definitivamente, não merecia ser tratada como um brinquedo por herdeiros entediados. Mas eu não era cego. O jeito que Bernardo Castiglione avançou contra mim... aquela fúria nos olhos cinzentos dele não era apenas o desprezo de um cara rico por uma bolsista. Era algo muito mais sombrio, intenso e perigoso. Era o desespero de um homem que estava perdendo o controle de sua própria obsessão. Bernardo a desejava. Ele estava consumido por ela, mas seu orgulho i****a e o preconceito de classe o impediam de admitir. Ele preferia queimar o mundo ao seu redor a aceitar que estava completamente rendido a uma garota que não tinha o sobrenome dele. E eu não ia deixar aquilo passar. Se eu quisesse proteger minha amiga daquele ambiente tóxico, eu precisava arrancar a máscara de Bernardo de uma vez por todas. ### O Confronto de Gigantes No dia seguinte, passei pelos portões do Saint-Valéry determinado. Ignorei os sussurros dos corredores e fui direto para a ala esportiva, onde sabia que Bernardo costumava passar o tempo livre após os treinos de futebol, isolado de todos na arquibancada do campo de futebol society. Lá estava ele. Sentado no topo da arquibancada de cimento, com os cotovelos apoiados nos joelhos, girando uma bola de couro entre as mãos. O uniforme de treino estava ligeiramente sujo, e o olhar dele, quando me viu subir os degraus, congelou instantaneamente. — Você não aprendeu a lição ontem, Dumont? — a voz de Bernardo ecoou pela quadra vazia, gélida, arrastada e cheia de deboche. — Quer que eu quebre mais algumas cadeiras com a sua cara? Parei a dois degraus de distância dele, cruzando os braços. Mantive a calma. Eu sabia que a violência era a única linguagem que ele usava para se defender quando estava acuado. — Eu não vim aqui para brigar, Bernardo. Vim para conversar. Como um homem, se é que você é capaz disso sem precisar de capangas ou do sobrenome do seu pai para te segurar — respondi, o tom firme e nivelado. Bernardo soltou uma risada nasalada, sem humor, e jogou a bola no chão, deixando-a quicar antes de segurá-la novamente. — Nós não temos nada para conversar. Suma da minha frente antes que eu perca a paciência. — Temos sim. Sobre a Raissa — o nome dela fez Bernardo travar o movimento com a bola por uma fração de segundo, os olhos cinzentos estreitando-se perigosamente. — Você pode continuar com esse teatrinho de bullying pesado, pode tentar humilhá-la nos corredores e mandar a Victória fazer o trabalho sujo dela. Mas todo mundo que tem um neurônio funcionando já percebeu o que está acontecendo aqui. Dei um passo à frente, olhando-o diretamente nos olhos. — Você está louco por ela, Castiglione. Você a deseja tanto que o seu peito chega a doer toda vez que vê outro cara respirando o mesmo ar que ela. Eu vejo como você me olha. Vejo como olhou para o Gabriel. Você está morrendo de ciúmes, mas é orgulhoso demais para aceitar que se apaixonou pela bolsista do colégio. ### A Muralha de Gelo O silêncio que se instalou foi mortal. Por um segundo, vi uma rachadura na armadura dele. As pupilas de Bernardo dilataram, e o maxilar dele travou de tal forma que achei que ele fosse quebrar os próprios dentes. A verdade havia batido de frente com ele, e o impacto foi violento. Mas, em questão de milissegundos, o gelo voltou a cobrir suas feições. Ele se levantou lentamente, usando sua altura para tentar me intimidar, o rosto assumindo uma expressão de puro tédio e arrogância calculada. — Você tem uma imaginação fértil, Dumont. Deve ser o tempo que passou na Suíça — Bernardo disse, a voz caindo para aquele barítono arrastado e c***l, sem qualquer vestígio de emoção. Ele deu um passo à frente, jogando a bola de lado. — Eu ter sentimentos por aquela garota? Por uma bolsista que limpa o chão da biblioteca para poder estudar aqui? Não me faça rir. Ele limpou uma poeira invisível de seu casaco de treino, o tom esbanjando desdém. — Ela é apenas um brinquedo irritante que entrou no meu colégio achando que pertencia ao nosso mundo. Eu não sinto nada por ela além de um profundo nojo pela audácia dela. Se eu a persigo, é para lembrá-la de qual é o lugar dela: lá embaixo, na lama, bem longe de nós. — Você é um mentiroso — rebati, sem recuar um milímetro. — E o pior tipo de mentiroso: aquele que acredita na própria mentira. Continue tratando ela assim, Bernardo. Continue afastando as únicas pessoas que poderiam trazer alguma humanidade para essa sua vida vazia de ouro e aparências. Um dia ela vai perceber o que vale, e quando você finalmente resolver engolir esse seu orgulho i****a, vai ser tarde demais. Ela já vai estar muito longe do seu alcance. Dei as costas e comecei a descer as arquibancadas de cimento. — Dumont — a voz de Bernardo me fez parar no meio do caminho. Eu não me virei, apenas esperei. — Fique longe dela. Se eu vir você de gracinha com ela de novo, o aviso de ontem vai parecer brincadeira de criança. Balancei a cabeça, sentindo apenas pena dele. Bernardo Castiglione tinha o mundo inteiro nas mãos, mas estava caminhando a passos largos para a sua própria ruína, acorrentado pelo próprio orgulho.
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