capítulo 14

905 Words
## CAPÍTULO 14: A Dança no Labirinto de Vidro (Ponto de Vista de Bernardo) O mundo ao meu redor parecia ter perdido o foco. As luzes de cobre e dourado do salão de Saint-Valéry eram apenas borrões sem importância. A música lenta que ecoava pelas paredes góticas do ginásio era um ruído distante que eu m*l conseguia processar. No centro do meu universo, na única frequência que meu cérebro conseguia sintonizar, estava ela. > *Raissa.* > Ela estava deslumbrante. O vestido de cetim verde-esmeralda moldava suas curvas com uma perfeição escultural, contrastando de forma quase dolorosa com a brancura impecável de sua pele e o dourado de seus cabelos presos. E seus olhos... aquele azul-safira profundo brilhava sob a luz dos lustres de cristal. E ela estava nos braços de Lucas Dumont. A cada segundo que eu assistia àquela cena, a cada vez que a mão de Lucas tocava a cintura dela para guiá-la na valsa, eu sentia como se garras de ferro estivessem apertando meu pulmão, me roubando o ar. Um ciúme doentio, animalesco e completamente desprovido de lógica subiu pela minha espinha. A fúria borbulhava no meu peito, um incêndio incontrolável que reduzia a cinzas qualquer resquício da minha pose de herdeiro frio e intocável. Eu não me importava com Victória me chamando atrás de mim. Não me importava com os olhares dos diretores do colégio ou das famílias bilionárias presentes. Naquele instante, eu só conseguia pensar em uma coisa: *tire as mãos dela.* ### O Gelo Quebrado Caminhei em direção ao centro da pista com passos firmes. Senti o espaço se abrir ao meu redor conforme as pessoas percebiam a tempestade que eu carregava nos olhos. Parei diante deles, e o som da minha própria voz soou estranho aos meus ouvidos — rouco, tenso, no limite do controle. — Minha vez. Quando Lucas tentou me enfrentar, segurando o corpo de Raissa mais perto do seu, eu quase perdi o restante de sanidade que me restava. Minhas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo, prontas para desfigurar o rosto de Dumont ali mesmo, na frente de toda a alta sociedade. — Eu não perguntei a você, Dumont. Dança comigo, Raissa. Ou eu juro que acabo com essa festa agora mesmo. Fixei meus olhos nos dela. Eu estava ofegando sutilmente, exposto, desarmado. Pela primeira vez na vida, meu orgulho não conseguiu camuflar a minha vulnerabilidade. Eu estava implorando com o olhar, mesmo que minhas palavras soassem como uma ameaça. Eu precisava tocá-la. Precisava sentir que ela ainda respondia à minha presença, que a eletricidade entre nós não havia sido apagada pelo sorriso fácil de Lucas. Raissa me encarou. Vi o conflito em suas pupilas azuis, a hesitação que durou uma eternidade. Então, com um suspiro que pareceu uma rendição mútua, ela soltou a mão de Lucas e deu um passo na minha direção. ### A Posse e o Tormento No instante em que minha mão direita envolveu a cintura fina de Raissa e meus dedos esquerdos se entrelaçaram aos dela, uma onda de eletricidade estática percorreu meu corpo inteiro. Eu a puxei para perto. Mais perto do que as regras de etiqueta do Saint-Valéry permitiriam. Nossos corpos se alinharam de forma quase simétrica, e eu finalmente consegui respirar de verdade. Começamos a nos mover no ritmo da música lenta. Ela estava rígida em meus braços, os olhos fixos nos meus, mas eu sentia a aceleração do coração dela batendo contra o meu peito. — Você perdeu o juízo, Bernardo? — ela sussurrou, a voz carregada de raiva, mas também de uma respiração curta que denunciava o quanto meu toque a afetava. — O que você acha que está fazendo? Todos estão olhando. — Que olhem — respondi, inclinando meu rosto ligeiramente para baixo, deixando minha boca a centímetros do ouvido dela. O aroma delicado de jasmim e baunilha que emanava de sua pele me deixou ainda mais tonto de desejo. — Que olhem o quanto quiserem. Eu não me importo com mais nada, Raissa. — Você me humilha nos corredores, me chama de lixo, apoia o bullying da Victória... e agora me arrasta para o meio da pista como se eu fosse sua propriedade? — as palavras dela eram lâminas quentes. — Você é um monstro confuso e egoísta. Eu te odeio. — Então me odeie — sussurrei de volta, apertando sutilmente minha mão em sua cintura, trazendo-a ainda mais para o meu calor. Senti o corpo dela estremecer com a proximidade física. — Odeie-me com todas as suas forças, Raissa. Mas não ouse sorrir para o Dumont daquele jeito de novo. Não ouse olhar para o Gabriel ou para qualquer outro como se eles pudessem te salvar de mim. Fiz uma pausa, as palavras saindo rasgadas da minha garganta, expondo o segredo mais sombrio e possessivo que eu guardava a sete chaves: — Você pode me odiar o quanto quiser, mas você é minha. Nem que eu tenha que queimar este colégio inteiro e cada sobrenome rico que existe aqui para garantir que você não pertença a mais ninguém. Ela prendeu a respiração, os lábios entreabertos a milímetros dos meus. Por um segundo eterno no meio daquela dança, o ódio e o desejo colidiram de forma tão violenta que o salão ao redor simplesmente desapareceu. Eu estava completamente rendido, preso no labirinto de vidro que eu mesmo havia construído ao redor dela. E eu não tinha nenhuma intenção de sair dali.
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