capítulo 5

1019 Words
### CAPÍTULO 5 BERNARDO A segunda-feira amanheceu cinzenta. Combinava perfeitamente com meu humor. No pátio do Saint-Valéry, ninguém falava de outra coisa além do desastre que tinha sido o final da festa na minha mansão. Mas Victória, como sempre, havia tratado de espalhar sua própria versão da história. Agora, todos comentavam que a bolsista intrusa tinha arruinado o próprio vestido e tentado dar um golpe no herdeiro dos Fontes. Raissa atravessava os corredores de cabeça erguida, como se os comentários não fossem capazes de atingi-la. Eu sabia que Gabriel havia emprestado seu blazer cinza-claro para ela naquela noite. E só de lembrar daquela cena, meu humor piorava. Às três da tarde, o sinal do fim das aulas ecoou pelo colégio. Eu estava no segundo andar do prédio principal, diante da vidraça da biblioteca vazia, quando a vi atravessar os portões de ferro. Uma buzina discreta chamou sua atenção. Meu olhar foi imediatamente para o sedã esportivo prata estacionado bem em frente à entrada, chamando a atenção dos alunos que saíam. Encostado na porta do motorista, usando óculos escuros e exibindo aquele sorriso descontraído, estava Gabriel Fontes. Aquele desgraçado. Assim que viu Raissa, acenou para ela. — Prometi que devolveria o favor do táxi com um almoço decente — disse ele, retirando os óculos e revelando os olhos verdes. — E vim buscar meu blazer. Raissa corou levemente. E então sorriu. Um sorriso verdadeiro. Senti meu maxilar travar. — Acho justo. E obrigada por sexta-feira, Gabriel. De verdade. Ela caminhou até o carro. Gabriel abriu a porta do passageiro, e Raissa aceitou a gentileza. Minhas mãos apertaram o parapeito de madeira da janela com tanta força que as pontas dos meus dedos ficaram brancas. O estômago se revirava. Ódio. Inveja. Ciúme. Uma mistura corrosiva que eu me recusava a admitir. Como ela ousava sorrir para ele daquele jeito? Ela nunca tinha sorrido assim para mim. Raissa me olhava como se eu fosse um monstro, mas bastava o primeiro herdeiro aparecer com um casaco para ela aceitar sua companhia. E ainda sorria para ele. Apertei mais o parapeito. — Você vai quebrar o vidro se continuar apertando assim. A voz de Enzo veio de trás. Ele acabara de entrar na biblioteca e me observava com uma sobrancelha erguida. — Cara, é só a bolsista. Deixa o Fontes levar o lixo embora. Virei o rosto lentamente. — Cale a boca, Enzo. Minha voz saiu baixa. Gelada. Ele deu um passo para trás, claramente surpreso com a minha reação. Não disse mais nada. Afastei-me da janela e saí da biblioteca a passos firmes. Eu não permitiria aquilo. Se não podia tê-la de forma limpa, manteria Raissa sob meu controle através do caos. No dia seguinte, coloquei minha retaliação em prática. Não precisei fazer escândalo. O sobrenome Castiglione tinha influência suficiente sobre a direção do Saint-Valéry para resolver aquilo de maneira silenciosa e burocrática. No final da última aula, o inspetor-chefe entrou na sala de Raissa. — Senhorita Raissa? A diretoria solicita sua presença na sala de arquivos históricos. Houve uma inconsistência no registro de suas horas de serviço social obrigatórias para a manutenção da bolsa. Você precisará organizar o inventário de documentos de 1990 hoje após o horário. Raissa suspirou. O cansaço era visível em seus ombros. Suas horas estavam corretas, mas, como bolsista, ela não tinha a mesma liberdade dos outros alunos para contestar uma ordem da administração. A sala de arquivos históricos ficava no subsolo do colégio. Era um lugar isolado, cercado por paredes grossas de pedra e prateleiras de ferro carregadas de caixas pesadas e documentos antigos. O ar úmido tinha cheiro de papel velho e poeira. Raissa entrou e se sentou diante de uma mesa de metal, onde havia uma pilha de caixas para catalogar. Começou a trabalhar em silêncio. Cerca de trinta minutos depois, meus passos ecoaram pelo corredor de pedra. Abri a pesada porta de madeira. Raissa ergueu o rosto. A surpresa em seus olhos foi imediata. Eu estava sem mochila, com o blazer jogado de qualquer jeito sobre um dos ombros. Entrei e empurrei a porta com o pé, devagar. O trinco de ferro se fechou com um estalo seco. — O que você está fazendo aqui? Raissa se levantou imediatamente. Seus olhos azuis, da cor de safira, ficaram fixos nos meus. Aquela postura defensiva voltou no mesmo instante. — O mesmo que você — respondi, aproximando-me lentamente. — Parece que a diretoria achou que eu precisava de algumas horas de "disciplina" por quebrar aquele copo na sexta-feira. E resolveram nos colocar para trabalhar juntos. — Eu não vou ficar na mesma sala que você. Ela caminhou decidida em direção à porta. Antes que alcançasse a maçaneta, dei um passo rápido e bloqueei sua passagem. Apoiei a mão na madeira, acima da cabeça dela, deixando-a encurralada entre meu corpo e a porta fria. Estávamos perto demais. Eu sentia o calor de seu corpo e percebia sua respiração acelerada. Meus olhos desceram até seus lábios. Depois voltaram aos seus olhos, onde as pupilas estavam dilatadas. — Você parece ter ficado muito confortável no carro do Fontes ontem — sussurrei. Tentei esconder o ciúme por trás do deboche. Não consegui afastar a raiva que aquela lembrança provocava. — Já achou o seu próximo patrocinador, Raissa? É assim que você planeja pagar suas contas? Usando esse rostinho bonito para enganar caras otários? Vi a raiva tomar conta do rosto dela. Raissa ergueu a mão para me dar um tapa. Fui mais rápido. Segurei seu pulso no ar e o pressionei com firmeza contra a porta de madeira. Por um instante, nós dois prendemos a respiração. O contato foi intenso. A tensão entre nós parecia ter vida própria. Era uma disputa entre o ódio que sentíamos um pelo outro e aquela atração absurda que ameaçava acabar com qualquer bom senso. — Me solta, Bernardo! Ela tentou puxar o braço. Não cedi. — Não. Minha voz saiu rouca. Mantive os olhos presos aos dela. — Você não vai a lugar nenhum até entender que, neste colégio, você não dita as regras. E o Fontes não vai estar aqui para te salvar.
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