CAPÍTULO 5: O Rugido do Silêncio
A segunda-feira amanheceu cinzenta, condizente com o humor de Bernardo. No pátio do Saint-Valéry, o assunto do fim de semana não era outro senão o desastroso desfecho da festa na mansão dos Castiglione. No entanto, a fofoca havia ganhado contornos diferentes sob a influência de Victória: todos comentavam como a "bolsista intrusa" havia tentado dar um golpe no herdeiro dos Fontes após arruinar a própria roupa.
Raissa caminhava pelos corredores com a cabeça erguida, mas o blazer cinza-claro de Gabriel, limpo e impecavelmente dobrado dentro de sua mochila, era um lembrete constante de que nem todos naquele mundo eram feitos de gelo.
Às três da tarde, o sinal que anunciava o fim das aulas ecoou. Quando Raissa cruzou os portões de ferro do colégio, o som de uma buzina discreta chamou sua atenção.
Estacionado bem em frente à entrada, chamando a atenção de todos os alunos que saíam, estava um sedã esportivo prata. Encostado na porta do motorista, com óculos escuros e um sorriso descontraído, estava Gabriel Fontes.
Ao ver Raissa, ele acenou.
— Prometi que devolveria o favor do táxi com um almoço decente — disse Gabriel, retirando os óculos e exibindo seus expressivos olhos verdes. — E vim buscar meu blazer.
Raissa sentiu um leve rubor subir pelas suas bochechas. Pela primeira vez em dias, ela sorriu genuinamente.
— Acho justo. E obrigada por sexta-feira, Gabriel. De verdade.
Ela caminhou até o carro e aceitou a gentileza de Gabriel, que abriu a porta do passageiro para ela.
### O Olhar na Sombra
Do segundo andar do prédio principal, observando tudo através da vidraça da biblioteca vazia, Bernardo assistia à cena.
Seu maxilar estava tão tensionado que os músculos de seu rosto pareciam esculpidos em pedra. Suas mãos apoiavam-se no parapeito de madeira com tanta força que as pontas de seus dedos estavam brancas. O estômago de Bernardo revirava em uma mistura corrosiva de ódio, inveja e um ciúme doentio que ele se recusava a nomear.
> *Como ela ousa sorrir para ele daquele jeito?*, pensava Bernardo, a mente obscurecida por uma névoa de fúria possessiva. *Ela nunca sorriu para mim. Ela me olha como se eu fosse um monstro, mas se entrega ao primeiro herdeiro que lhe estende um casaco.*
>
— Você vai quebrar o vidro se continuar apertando assim — disse Enzo, que acabara de entrar na biblioteca, observando o amigo com uma sobrancelha erguida. — Cara, é só a bolsista. Deixa o Fontes levar o lixo embora.
— Cale a boca, Enzo — Bernardo respondeu, a voz tão baixa e gélida que fez o amigo dar um passo atrás, surpreso com a intensidade da reação.
Sem dizer mais nenhuma palavra, Bernardo deu as costas à janela e saiu da biblioteca a passos firmes. Ele não iria permitir. Se ele não podia tê-la de forma limpa, ele a manteria sob seu controle através do caos.
### A Armadilha do Castigo
No dia seguinte, a retaliação de Bernardo veio de forma silenciosa e burocrática, usando o poder que o sobrenome Castiglione exercia sobre a direção do colégio.
No final da última aula, o inspetor-chefe do colégio entrou na sala de Raissa.
— Senhorita Raissa? A diretoria solicita sua presença na sala de arquivos históricos. Houve uma inconsistência no registro de suas horas de serviço social obrigatórias para a manutenção da bolsa. Você precisará organizar o inventário de documentos de 1990 hoje após o horário.
Raissa suspirou, sentindo o cansaço acumular em seus ombros. Ela sabia que suas horas estavam corretas, mas como bolsista, não podia contestar as ordens da administração.
A sala de arquivos históricos ficava no subsolo do colégio, uma área isolada, cercada por paredes grossas de pedra e prateleiras de ferro repletas de caixas pesadas e documentos antigos. O cheiro de papel velho e poeira pairava no ar úmido.
Raissa entrou, sentando-se diante de uma mesa de metal com uma pilha de caixas para catalogar. Ela começou o trabalho em silêncio.
Cerca de trinta minutos depois, o som de passos pesados ecoou no corredor de pedra. A porta pesada de madeira do arquivo se abriu e, para o choque de Raissa, Bernardo entrou.
Ele não usava mochila, e seu blazer estava jogado displicentemente sobre um dos ombros. Ele entrou e, com um movimento lento do pé, empurrou a porta de madeira atrás de si. O trinco de ferro bateu com um estalo seco e definitivo.
— O que você está fazendo aqui? — Raissa perguntou instantaneamente, levantando-se da cadeira. A postura de defesa voltou no mesmo segundo, seus olhos safira fixos nos dele.
— O mesmo que você — Bernardo respondeu, a voz arrastada, aproximando-se com a lentidão de um predador encurralando sua presa. — Parece que a diretoria achou que eu precisava de algumas horas de "disciplina" por quebrar aquele copo na sexta-feira. E resolveram nos colocar para trabalhar juntos.
— Eu não vou ficar na mesma sala que você — Raissa disse, caminhando decidida em direção à porta.
Antes que ela pudesse tocar na maçaneta, Bernardo deu um passo rápido, bloqueando o caminho com seu corpo robusto. Ele apoiou a mão na porta, acima da cabeça de Raissa, encurralando-a contra a madeira fria.
A proximidade física era sufocante. Raissa podia sentir o calor emanando do corpo dele, o aroma marcante de seu perfume e a rapidez de sua respiração. Os olhos cinzentos de Bernardo desceram para os lábios dela antes de subirem novamente para encarar suas pupilas dilatadas.
— Você parece ter ficado muito confortável no carro do Fontes ontem — Bernardo sussurrou, o tom de voz carregado de um ciúme que ele tentava, sem sucesso, disfarçar sob uma máscara de deboche. — Já achou o seu próximo patrocinador, Raissa? É assim que você planeja pagar suas contas? Usando esse rostinho bonito para enganar caras otários?
O insulto estalou no ar. Raissa sentiu a raiva ferver em seu peito. Sem pensar, ela ergueu a mão para desferir um tapa no rosto dele, mas Bernardo foi mais rápido. Ele segurou o pulso dela no ar com firmeza, prensando-o contra a porta de madeira.
O toque elétrico fez ambos prenderem a respiração. A tensão entre eles era quase física, um cabo de guerra entre o ódio mútuo e uma atração devastadora que ameaçava consumir o bom senso de ambos.
— Me solta, Bernardo! — ela sibilou, tentando puxar o braço, mas ele não cedeu um milímetro.
— Não — ele respondeu, a voz rouca, os olhos cinzentos brilhando com uma intensidade perigosa. — Você não vai a lugar nenhum até entender que, neste colégio, você não dita as regras. E o Fontes não vai estar aqui para te salvar.