capítulo 6

1095 Words
### CAPÍTULO 6: O Limiar do Desejo O silêncio que se seguiu à ameaça de Bernardo era tão intenso que Raissa conseguia ouvir o próprio sangue pulsando nos ouvidos. A sala de arquivos parecia ter encolhido. A luz fraca e amarelada da única lâmpada pendurada no teto projetava sombras nas paredes de pedra, isolando os dois do restante do mundo. O pulso de Raissa continuava preso contra a porta de madeira pela mão grande e quente de Bernardo. Ela tentou puxar o braço mais uma vez, mas o movimento apenas aproximou ainda mais seus corpos. Seu peito subia e descia rapidamente, roçando de leve o blazer dele. — Você é um covarde, Bernardo — ela sibilou, com a voz trêmula, não de medo, mas de uma raiva intensa. Seus olhos azuis faiscaram. — Você precisa me prender em uma sala e usar a força física para sentir que tem algum poder sobre mim? É isso que o grande herdeiro dos Castiglione precisa fazer para inflar o próprio ego? Os olhos cinzentos de Bernardo desceram até a boca dela, observando seus lábios entreabertos pela respiração acelerada. A provocação de Raissa alimentou ainda mais o fogo que já ardia dentro dele. Ele não queria apenas dominá-la. Queria consumi-la. Queria apagar da memória a imagem dela sorrindo para Gabriel Fontes. Queria que Raissa olhasse apenas para ele, mesmo que fosse com ódio. — Você não sabe nada sobre o meu poder, Raissa — Bernardo sussurrou, com a voz perigosamente baixa e rouca. Ele deu mais um passo, eliminando o pouco espaço que ainda existia entre os dois. O calor do corpo dele era quase insuportável. Raissa sentiu um arrepio intenso percorrer sua espinha quando Bernardo posicionou o joelho entre as pernas dela, prendendo-a completamente contra a porta. A mão livre dele subiu lentamente pelo braço de Raissa. Seus dedos percorreram a pele exposta do pescoço dela até alcançar sua mandíbula. O toque era firme, mas estranhamente hesitante, como se Bernardo lutasse contra o próprio impulso de machucá-la, embora fosse incapaz de se afastar. — Você entra no meu colégio... age como se não se importasse com nada disso, como se fosse superior a todos nós... — Bernardo continuou, com os olhos fixos na boca dela e a respiração misturando-se à sua. — Mas você me olha assim. Com essa pose de realeza. Você me odeia, não odeia? — Eu te desprezo — Raissa respondeu, mas sua voz saiu mais fraca do que pretendia. A proximidade estava confundindo seus sentidos. O perfume dele, uma mistura marcante de sândalo e couro, parecia anestesiar sua capacidade de raciocinar. A tensão entre os dois era tão intensa que até o ar parecia pesado demais para respirar. Raissa queria empurrá-lo com todas as forças, mas, ao mesmo tempo, uma curiosidade sombria e um desejo involuntário a paralisavam. — Minta de novo — Bernardo desafiou, com os olhos cinzentos escurecendo como duas tempestades. Ele inclinou o rosto. Seus lábios roçaram a bochecha de Raissa e subiram lentamente até o lóbulo de sua orelha. Ali, ele soltou um sopro quente que a fez fechar os olhos e deixar escapar um suspiro baixo, quase imperceptível. Aquela reação foi a confirmação de que Bernardo precisava. Ele voltou o rosto para o dela, deixando apenas alguns milímetros entre suas bocas. Podia sentir o calor dos lábios de Raissa. O desejo possessivo que vinha reprimindo desde o primeiro encontro no pátio finalmente rompeu todas as suas barreiras. Ele precisava beijá-la. Precisava daquele beijo como se sua vida dependesse disso. Clac. O som metálico da chave girando na fechadura, do lado de fora, cortou o silêncio da sala de arquivos como um tiro. Bernardo congelou. Os passos pesados do inspetor, aproximando-se pelo corredor do subsolo, foram como um balde de água fria em sua mente dominada pelo desejo. Ele piscou. A névoa que confundia seus pensamentos desapareceu, dando lugar a uma percepção brutal. Ele quase havia cedido. Quase havia se entregado à garota que considerava uma ameaça à sua autoridade. Uma bolsista insignificante, que não tinha um centavo no bolso. Ele, Bernardo Castiglione, quase implorara pelo beijo de uma garota que deveria desprezar. O pânico de ter demonstrado vulnerabilidade se transformou em fúria em uma fração de segundo. Bernardo soltou o pulso de Raissa bruscamente e deu dois passos rápidos para trás, afastando-se como se o contato com ela o tivesse queimado. Seus olhos cinzentos voltaram a parecer duas pedras de gelo. A humilhação que sentia foi imediatamente escondida atrás de uma expressão de profundo nojo. Raissa permaneceu encostada na porta, respirando fundo e tentando recuperar a postura, enquanto o coração batia descompassado em seu peito. — O que foi? — Bernardo zombou, com a voz novamente fria e cortante, sem nenhum vestígio da rouquidão de segundos antes. Um sorriso cínico e c***l surgiu em seus lábios. — Achou mesmo que eu ia te beijar? Raissa o encarou, chocada com a rapidez daquela mudança. — Você realmente achou que eu me rebaixaria a esse ponto? — Bernardo continuou, limpando o canto da boca com as costas da mão, em um gesto calculado de desprezo. — Olha para você, Raissa. Uma garota que usa restos de tecido para tentar parecer alguém em uma festa. Eu só queria ver até onde vai a sua hipocrisia de "garota certinha". Você se vende por muito pouco. Bastou eu chegar um pouco mais perto para você amolecer. Você não passa de uma oportunista barata, exatamente igual a todas as outras. Só que sem o dinheiro para disfarçar. As palavras dele atingiram Raissa como chicotadas. A humilhação queimou seu peito de maneira ainda mais dolorosa do que o ponche derramado sobre seu vestido. Seus olhos arderam com lágrimas de pura raiva e decepção. Não por Bernardo. Mas por si mesma, por ter permitido que ele se aproximasse tanto. Antes que pudesse responder, a porta de madeira se abriu completamente. O inspetor do colégio entrou, segurando uma prancheta. — Terminaram o inventário? — perguntou, sem perceber a tensão que dominava o ambiente. — Já terminamos — Bernardo respondeu, sem olhar para trás. Ele pegou o blazer do chão, jogou-o sobre o ombro e caminhou em direção à saída. Ao passar por Raissa, esbarrou de propósito em seu ombro, obrigando-a a dar um passo para o lado. — Essa sala está com cheiro de mofo. Não aguento mais um segundo aqui dentro. Bernardo saiu. Raissa ficou ali, com o eco das palavras cruéis dele ainda preso em sua mente. E fez uma promessa silenciosa a si mesma. Nunca mais permitiria que Bernardo Castiglione a visse fraquejar diante dele.
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