## CAPÍTULO 7: O Veneno nos Corredores e a Mão Estendida
A noite após o episódio na sala de arquivos foi a mais longa da vida de Raissa. Ela passou horas sob o chuveiro morno, esfregando a pele do pescoço e dos pulsos na tentativa inútil de apagar a sensação do toque de Bernardo. As palavras dele
— *“Uma oportunista barata... exatamente igual a todas as outras”* — ecoavam em sua mente como um mantra c***l. Ela sentia raiva dele, mas sentia ainda mais raiva de si mesma por ter vacilado sob o magnetismo sombrio daquele garoto.
No dia seguinte, a atmosfera no colégio Saint-Valéry estava estranhamente elétrica.
Assim que cruzou o portão de ferro, Raissa percebeu que os sussurros haviam subido de tom.
Alunos se cutucavam, apontavam para as telas de seus celulares de última geração e riam abertamente enquanto ela passava.
Ao chegar perto de seu armário, ela entendeu o motivo.
Colada na porta de metal do seu armário, e replicada em dezenas de impressões espalhadas pelo corredor, estava uma montagem fotográfica maldosa.
De um lado, uma foto de Raissa com seu vestido manchado de ponche na festa dos Castiglione; do outro, uma imagem editada dela segurando uma placa de papelão que dizia: *"Procura-se padrinho rico. Aceito doações e restos de tecido"*. Além disso, prints de conversas falsas criadas por Victória circulavam nos grupos de mensagens da escola, sugerindo que Raissa estava cobrando para sair com rapazes ricos da região.
No centro do corredor, cercada por sua corte de seguidoras, Victória Albuquerque exibia um sorriso vitorioso de orelha a orelha.
— Olha só, meninas, a nossa Cinderela do lixo chegou!
— exclamou Victória em voz alta, atraindo a atenção de todos.
— Veio ver se consegue mais alguma doação hoje, Raissa? Ou vai tentar seduzir o diretor para não perder a bolsa?
Raissa sentiu o sangue fugir do rosto. A humilhação era pública, massiva e implacável
Ela olhou ao redor, procurando uma saída, e seus olhos colidiram com os de Bernardo, que observava a cena de longe, encostado na parede oposta do corredor.
A expressão dele era uma máscara impenetrável, mas seus punhos estavam cerrados dentro dos bolsos da calça.
Ao ver a fofoca barata de Victória, um gosto amargo de desprezo subiu pela garganta de Bernardo
— desprezo por Victória, por aquela elite fútil e, acima de tudo, por si mesmo. Mas ele permaneceu em silêncio, escolhendo manter sua postura c***l e indiferente.
Ele não moveria um dedo para defendê-la.
O peito de Raissa subia e descia rapidamente.
Suas lágrimas ameaçavam transbordar, mas o orgulho e a força que herdara de sua criação a impediram de chorar ali, na frente de seus carrascos.
Ela estendeu a mão para arrancar o papel colado em seu armário, mas seus dedos tremiam.
Antes que as unhas de Raissa tocassem o papel, outra mão, firme e decidida, arrancou o cartaz com violência, rasgando-o ao meio.
— Vocês não têm nada melhor para fazer da vida do que agir como crianças mimadas e sem cérebro? — a voz que ecoou pelo corredor era firme, destemida e carregada de sarcasmo.
Raissa piscou, surpresa, e olhou para o lado. Parada ali, com os braços cruzados e uma postura desafiadora, estava **Alice Veronese**.
Alice era uma garota peculiar no ecossistema do Saint-Valéry.
Filha de uma renomada artista plástica e de um juiz federal, sua família tinha tanto ou mais dinheiro do que os Castiglione, mas ela desprezava as futilidades daquela elite.
Usava o uniforme customizado com coturnos de couro desgastados, meias calças rasgadas e tinha algumas mechas roxas escondidas sob o cabelo castanho escuro.
Ela era conhecida por ser extremamente inteligente, direta e por não se curvar a nenhuma das regras sociais de Victória.
Victória desfez o sorriso instantaneamente, os olhos verdes semicerrados de descontentamento.
— Não se meta, Alice. Isso não é problema seu.
Vai pintar seus quadros esquisitos e nos deixe em paz.
— O problema passa a ser meu quando o corredor da minha escola começa a cheirar a lixo por causa da sua insegurança, Victória
— rebateu Alice com um sorriso cínico, dando um passo à frente.
— Todo mundo aqui sabe que você só está fazendo esse showzinho patético porque tem medo de que a Raissa, mesmo sem um tostão no bolso, seja dez vezes mais bonita, inteligente e interessante do que você jamais vai ser.
Agora, se vocês não saírem da frente, eu mesma vou levar essa montagem ridícula para a coordenação e aposto que o seu pai, que financia a nova ala do colégio, não vai gostar de ver o sobrenome Albuquerque envolvido em um processo judicial por cyberbullying.
Um silêncio tenso se instalou. Victória bufou, ultrajada, mas a menção ao pai e a um possível processo legal a fez recuar.
Ela lançou um último olhar venenoso para Raissa e deu as costas, marchando pelo corredor com suas seguidoras logo atrás.
A multidão de alunos começou a se dispersar aos poucos, frustrada pelo fim do espetáculo.
Alice virou-se para Raissa, o semblante durão suavizando-se em uma expressão de empatia sincera. Ela estendeu a metade rasgada do papel com um dar de ombros.
— Não liga para elas.
A Victória tem o QI de uma ostra e a personalidade de uma cobra de jardim.
Eu sou a Alice.
Raissa respirou fundo, sentindo um peso enorme sair de seus ombros.
Ela aceitou o papel rasgado e ofereceu um sorriso fraco, mas profundamente agradecido.
— Obrigada, Alice.
Eu sou a Raissa. Eu... não sabia que existia alguém decente neste lugar.
— Somos raras, mas existimos
— Alice deu uma risada leve, ajeitando a mochila nas costas.
— Eu ando de olho em você desde que você enfrentou o Bernardo no primeiro dia.
Ninguém nunca teve coragem de fazer o herdeiro mimado engolir as próprias palavras daquele jeito.
Você ganhou meu respeito ali.
Alice gesticulou para o final do corredor, apontando para a saída que dava para o pátio arborizado.
— O que acha de matar a primeira aula para tomar um café horrível na cantina? Você me conta como sobreviveu à fera dos Castiglione e eu te dou um guia de sobrevivência para não ser assassinada socialmente no Saint-Valéry.
Raissa olhou para trás uma última vez.
Bernardo ainda estava lá, observando a interação das duas com um olhar sombrio e os dentes trincados.
Ao ver que Raissa agora tinha uma aliada poderosa como Alice, Bernardo percebeu que quebrá-la seria muito mais difícil do que imaginava.
E, por um segundo, uma ponta de alívio
— que ele sufocou imediatamente
— cruzou seu peito ao ver que ela não estava mais sozinha.
Sorrindo de verdade pela primeira vez naquele dia, Raissa voltou-se para sua nova amiga.
— Eu adoraria um café, Alice
. Vamos.
As duas caminharam lado a lado, deixando para trás o veneno dos corredores e iniciando uma aliança que mudaria o destino de Raissa naquele colégio de elite.