capítulo 2

833 Words
CAPÍTULO 2: O Primeiro Dia no Inferno O sinal do Saint-Valéry não era um sinal comum; era um carrilhão suave que ecoava pelas paredes de pedra como o sino de uma catedral antiga. Para Raissa, no entanto, aquele som soou como o gongo de uma arena de gladiadores. Após passar na secretaria para retirar seus horários e a chave de seu armário, ela seguiu pelo corredor principal. O chão de mármore refletia a luz dos lustres de cristal. Ao seu redor, grupos de alunos conversavam ruidosamente, todos exibindo celulares de última geração, bolsas de grife e joias discretas, mas ridiculamente caras. Os olhares tortos e os risinhos abafados a acompanhavam a cada passo. O boato de que havia uma "bolsista insolente" no colégio já tinha se espalhado como pólvora. A primeira aula do dia era Literatura Avançada. O laboratório de humanidades era uma sala imponente, com arquibancadas de madeira nobre dispostas em semicírculo e uma parede inteira de vidro que dava para o jardim de inverno da escola. Quando Raissa entrou, a conversa na sala diminuiu de tom. Ela procurou um lugar vago e encontrou uma mesa livre na terceira fileira. Sentou-se, organizando seu caderno simples e sua caneta azul sobre a mesa de madeira polida. Pouco depois, a porta se abriu novamente. O silêncio que se instalou foi imediato e reverencial. Bernardo entrou. Ele caminhava com uma preguiça calculada, a mochila de couro legítimo jogada sobre um único ombro. Atrás dele, como uma corte real, vinham seus amigos mais próximos: **Enzo**, o braço direito de Bernardo, um rapaz de sorriso cínico e cabelos castanhos, e **Victória**, que mantinha os olhos fixos em Bernardo como se ele fosse seu troféu particular. Os olhos cinzentos de Bernardo varreram a sala e pararam diretamente em Raissa. Um brilho frio e perigoso cruzou seu olhar. Ele não hesitou. Caminhou a passos lentos até a fileira dela e parou exatamente ao lado de sua mesa. — Você está no meu lugar — disse Bernardo. A voz dele era baixa, mas carregava uma autoridade inquestionável. Raissa ergueu os olhos azuis, sustentando a pressão. — Não há nomes nas carteiras. E a sala está cheia de mesas vazias. — Eu não perguntei se há nomes nas carteiras — Bernardo rebateu, apoiando as duas mãos na mesa dela e inclinando-se para frente. O perfume importado dele invadiu o espaço pessoal de Raissa, uma presença física tão forte que fez o coração dela dar um sobressalto involuntário. — Estou dizendo que essa mesa é minha. Saia. A tensão na sala era palpável. Todos os alunos assistiam à cena, segurando o fôlego. Victória, de braços cruzados perto da porta, exibia um sorriso vitorioso e c***l. — Não vou sair — Raissa respondeu, mantendo a voz firme e o tom de voz controlado, embora suas mãos estivessem fechadas em punho sob a mesa para conter o leve tremor de indignação. — Cheguei primeiro. Aprenda a lidar com as regras do mundo real, Castiglione. Um murmúrio de choque percorreu a sala. Ninguém nunca dizia "não" para Bernardo. Os olhos de Bernardo estreitaram-se, brilhando com uma fúria sombria. Ele se inclinou ainda mais, o rosto a poucos centímetros do dela. Raissa pôde ver as nuances de cinza em suas pupilas e a rigidez de seu maxilar. Por um segundo, a raiva dele pareceu misturar-se com algo muito mais sombrio e primitivo — uma atração magnética que ambos tentaram ignorar desesperadamente. — Você acha que é forte, não é? — ele sussurrou, a voz quase carinhosa, o que a tornava ainda mais assustadora. — Vamos ver quanto tempo você aguenta antes de quebrar. Antes que Raissa pudesse responder, o professor de literatura, um homem de meia-idade vestindo um terno de tweed, entrou na sala, quebrando o transe. — Senhores, por favor, ocupem seus lugares. Temos muito conteúdo para cobrir hoje. Bernardo deu um passo para trás, sem desviar os olhos de Raissa. Com um sorriso de canto de boca frio e desdenhoso, ele caminhou até a mesa logo atrás dela e se sentou. Durante toda a aula, Raissa pôde sentir as costas queimarem sob o olhar fixo e obsessivo de Bernardo. Ela sabia que aquele era apenas o primeiro dia, e que o verdadeiro inferno estava prestes a começar. No final da tarde, ao abrir seu armário para guardar os livros pesados, um envelope preto com letras douradas caiu de dentro dele. Raissa o recolheu, confusa. No papel de alta gramatura, estava escrito: *"Festa de Boas-Vindas do Saint-Valéry. Mansão dos Castiglione. Sexta-feira, às 21h. Traje: Esporte Fino."* No rodapé, um bilhete manuscrito dizia: *"Espero que não falte por não ter o que vestir. Seria uma pena perder a sua recepção oficial." — B.* Raissa apertou o papel entre os dedos, os nós de suas mãos ficando brancos. Era uma armadilha. Bernardo estava convidando-a para o seu próprio território, onde as regras eram dele e a humilhação seria pública. Mas ela não era de fugir de um desafio. Se ele queria guerra, era guerra que ele teria.
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