CAFÉ DA MANHÃ OU DESTINO TERRÍVEL

1795 Words
Lia Caminhei pelas ruas escuras, cautelosa e apressada. Eu estava além de assustada e em alerta máximo. Eu temia que Dana, Tom ou Finn pudessem vir atrás de mim, eu não estava realmente vendo para onde eu estava indo, estava só me esgueirando pelas ruas e o mais longe possível daquela casa. Eu chorava silenciosamente enquanto caminhava pelas ruas, agarrada à minha mochila, os poucos pertences e as peças de roupa era tudo o que eu tinha. Eu já não me importava mais com o que eu estava deixando para trás. Eu estava arrasada, meu coração partido por ter acreditado em pessoas que obviamente estavam apenas me usando, e eu nem entendo por quê. Eu sou apenas uma órfã, pobre e desamparada que além do mais, está à beira de sair do orfanato, em breve, o sistema não pagará mais nada para eles, poderiam ter levado alguém mais novo, mas por algum motivo, eles me escolheram. Antes, isso foi motivo de alegria para mim, agora é apenas motivo de tristeza. Eles não me deviam nada, mas eu me sinto traída. As ruas eram perigosas a essa hora. Eu caminhava com cuidado e me assustava ao menor sinal de barulho que eu ouvisse. Eu evitei becos escuros, eu não gostava do escuro e do que ele poderia esconder. Escondi minhas lágrimas quando percebi pessoas ao meu redor, eu não podia parecer abalada, isso levantaria suspeitas e faria alguém se aproximar usando esse pretexto. Escondi meu rosto com o capuz do moletom largo e segui apressada ao menor sinal de atenção de qualquer indivíduo. Em algum momento, as ruas foram ficando mais vazias, mas nem isso me fez relaxar, eu sabia que já era muito tarde agora e que as piores pessoas poderiam estar escondidas por aí, a espreita de uma vítima indefesa e eu me encaixava nesse requisito. Era melhor não arriscar e continuar caminhando. Quando a madrugada fria se transformou nos primeiros raios de sol, eu finalmente parei de caminhar. Eu estava física e mentalmente exausta. Eu me senti completamente esgotada, com o alívio de ter conseguido sobreviver durante a noite, veio também o cansaço e a fraqueza, o estado de alerta em que meu corpo estava, o que o mantinha em movimento constante, se transformou em um grande cansaço. Era demais até para dar mais um passo. Sem pensar duas vezes, sentei do lado de dentro do pequeno muro de uma casa qualquer e adormeci em questão de segundos. Acordei desnorteada com alguém chutando cautelosamente a minha perna. Não era um movimento doloroso, mas eu estava tão cansada que não queria acordar, era difícil abrir os olhos. A fadiga extrema que eu sentia retardava meus movimentos. No entanto, lembrei de que eu não estava mais em uma casa segura, dentro de um quarto, eu estava encostada na cerca da casa de alguém, e o movimento insistente na minha perna só podia ser o proprietário vindo me expulsar daqui. Gemi e com muito esforço, abri meus olhos, que sentia tão secos e inchados, como se estivessem cheios de areia. Tentei processar em minha mente cansada a imagem que meus olhos viam. Diante de mim, estava uma senhora que me olhava com preocupação, ela não estava me chutando, estava me cutucando com sua bengala. – O que faz aqui, minha jovem? – pergunta. – Me desculpe, eu parei um momento para descansar e acabei dormindo. Eu já vou embora. – tentei me levantar, mas uma tontura me abateu e eu tive que me segurar para não cair de volta na minha b***a. Respirei fundo e tentei novamente, dessa vez mais devagar. Consegui me colocar de pé, apesar do cansaço que impermeava até os ossos. Eu só queria continuar sentada naquele lugar, nem as dores que eu sentia eram suficientes para me impedir de observar aquele cantinho que eu desejava voltar. Sim, meu corpo doía do esforço e da posição desconfortável em que adormeci, mas eu estava tão cansada que na minha mente, esse ainda era o melhor lugar. A mulher me observava cuidadosamente. – Para onde vai? – pergunta. Sigo meu instinto e digo a primeira coisa que vem à minha mente, obviamente não é a verdade. – Oh, eu estou indo para a casa de uma amiga, mas eu acabei me perdendo e meu celular ficou sem bateria. – menti. A mulher me olha percebo que sua mão treme com o esforço de segurar a bengala, e mesmo assim, ela está parada do lado de fora me encarando. Ela só poderia ter me mandado ir embora e voltado para dentro da casa, mas por algum motivo, ela está me encarando, como se quisesse saber todos os meus segredos. – Onde a sua amiga mora? – pergunta. Novamente, sem pensar direito no que estou fazendo, digo: – Brooklyn. Ela não precisa saber que foi de lá que eu vim. – Você quer ligar para ela? – pergunta. – Não. Não é necessário. Acho que ela não está acordada a essa hora, aliás, que bairro é esse? – pergunto rapidamente tentando mudar de assunto. – Estamos no Bronx, criança. Deve ser longe o suficiente por enquanto. Respiro aliviada ao perceber que eu estou longe daquelas pessoas terríveis, mas, ao mesmo tempo, eu quero chorar. Mesmo morando lá a pouco tempo, eu gostava de lá, precisava ser um pouco cuidadosa durante a noite, mas eu gostava. Era melhor que o orfanato. Só de pensar que eu deixei tudo isso para trás, que eu nunca mais poderei ir para o colégio, nem trabalhar, porque eles podem me encontrar lá, enche meu coração de dor. Eles tiraram tudo de mim e o único pensamento de ver Finn novamente, me faz preferir a morte. Ele não vai me perdoar pelo que eu fiz com ele e tenho certeza que se for encontrada, ele vai se vingar de mim de maneira dolorosa. Engulo em seco para tentar segurar a minha dor. Não posso desmoronar na frente de uma estranha. – Bem, eu vou indo. – dou um sorriso amarelo para a senhora que continua a me observar em silêncio e começo a me encaminhar para o pequeno portão, eu não queria ir, mas eu não pertencia àquele lugar, na verdade, eu não pertenço a lugar nenhum. Uma sem teto, é isso que eu sou agora. – Você não tem para onde ir, não é? – a senhora fala e eu fico paralisada. – O que está dizendo? Como eu disse antes, eu estou indo para a casa de uma amiga e me perdi. – respondo sem me virar e tentando disfarçar o sofrimento na minha voz. – Criança, eu já vivi muito e sei bem quando alguém está mentindo. Não há amiga nenhuma e eu vejo isso perfeitamente. Se houvesse, você não estaria dormindo na minha porta, estaria no quarto dela ou tomando café da manhã. – responde. A verdade dói mais do que eu esperava e ouvir de outra pessoa só torna tudo isso pior. Agora as lágrimas lavam meu rosto abatido, mas o que eu posso fazer além de chorar? Eu sou só mais uma órfã miserável e agora estou fugindo de uma família de repleta de pessoas más mentirosas. – Eu vou indo. – digo com voz trêmula. Abri o portão e dei um passo para fora. Eu não queria mais prolongar essa situação. – O que acha de tomar café comigo? – pergunta repentinamente. Me vire surpresa com a pergunta. Fiquei imediatamente desconfiada, o que aquela senhora poderia querer comigo? Eu não tinha nada para oferecer e embora eu não tivesse admitido, ela sabia muito bem que o que eu contei não passava de uma grande mentira. Quais as intenções dela com essa pergunta? Eu deveria aceitar? E se ela for uma pessoa com intenções terríveis e planeja me vender ou coisa do tipo? Não, melhor não. – Não, obrigado. Não quero incomodar. – declino educadamente. – Não é incomodo nenhum. Vai ser bom ter uma companhia no café da manhã. – responde tranquilamente. Franzi o cenho com suspeita. – Porque? – pergunto. – Porque o que? – devolve. – Porque você está me chamando para comer com você, em vez de me chutar para fora da sua propriedade? – pergunto com suspeita. – Isso é porque eu fiz comida demais e eu realmente odeio desperdício. – dá de ombros. Não faz sentido a forma como ela está me tratando. Porque ela está sendo tão cortês comigo? Eu sou uma sem-teto estranha e ela me chama para entrar na sua casa, ela não sabe como isso é perigoso? – Você não sabe como isso é perigoso? Eu posso ser uma assassina fugitiva, uma psicopata, uma pessoa perigosa que você está convidando para a sua casa. – respondi. A mulher ainda me observa com toda a calma do mundo, como se o que eu disse fosse a coisa mais normal do mundo. – Criança, você não é perigosa. Fugitivos não dormem do lado de fora das casas, eles a invadem. Psicopatas não choram de forma tão genuína e não seriam tão resistentes ante o meu convite, se esse fosse o caso, você já estaria dentro da minha casa e eu estaria amarrada ou morta. Você tem resistido porque pensa que minha atitude é suspeita e que eu posso ser a pessoa perigosa e isso faz todo o sentido, mas eu asseguro que sou apenas uma idosa inofensiva que vive sozinha e quer um pouco de companhia no café da manhã. – explica. O que ela disse faz todo sentido, mas eu ainda tenho receios. Eu não devia confiar em estranhos, baseado na minha experiência recente, eu não devo confiar em ninguém. – Você tem um ponto, mas veja. Eu não estou com fome. – respondo. Infelizmente, meu estômago acordou nesse exato momento e discordou em alto e bom som de forma bastante embaraçosa. Corei envergonhada e contemplei meus tênis gastos. Eu não sabia mais o que dizer e realmente estava cansada de resistir. Eu estava com fome e esgotada da caminhada e dos acontecimentos anteriores. Se ela tinha intenções de me prender no porão ou me vender, isso já não me importava mais. Ninguém viria por mim de qualquer forma, eu estava jogada a minha própria sorte, ou devo dizer, ao meu azar? – Venha, eu vou fazer panquecas. – promete com humor em sua voz. Ainda com a cabeça baixa e envergonhada, balancei a cabeça afirmativamente e a acompanhei para dentro, desejando que seja realmente uma refeição e não algo terrível que acabe com a minha vida. – A propósito, meu nome é Abigail. – ela diz e abre a porta e desaparece lá dentro. Engoli em seco e depois de tomar coragem também entrei. Café da manhã ou destino terrível, seja o que for, aí vou eu.
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