Lia
Eu estava feliz. Muito feliz.
Finalmente, depois de tanto tempo, eu estava saindo do orfanato para uma casa, uma família me queria.
Finalmente.
Eu já tinha dezessete anos, estava trabalhando em um emprego de meio período e logo completaria dezoito anos. Eu sabia que o momento de deixar o lugar onde eu cresci estava chegando, mas para onde eu iria? Eu não tinha família, amigos ou qualquer pessoa próxima o suficiente que cuidasse de mim ou mesmo me ajudasse de forma mínima. Eu não tinha ninguém e isso me assustava, eu sabia que o mundo lá fora era tão inclemente quanto dentro dessas paredes frias onde eu residia. Eu estava temerosa pelo dia em que eu seria obrigada a sair. O orfanato não era nenhum paraíso, mas eu tinha um teto e comida na mesa, lá fora eu não tinha absolutamente nada e isso era assustador. No entanto, isso mudou quando um casal mais velho apareceu procurando uma garota crescida, eu não nutria nenhuma esperança que eu fosse escolhida, como todos zombavam, eu era velha demais, ninguém ia me querer. Eu realmente acreditava nessas palavras. Porém para minha total surpresa, eu fui escolhida. Isso me deixou exultante de alegria, eu seria finalmente adotada, eu ia fazer parte de uma família. Era uma sensação maravilhosa.
– Lia, eu me chamo Dana e esse é o meu marido, Tom. Você será a nossa filha, a partir de agora. – eles se aproximam e me avisam. Eu sorri brilhantemente e assenti com entusiasmo.
Era um dia maravilhosamente ensolarado quando eles vieram me buscar, eu arrumei meus poucos pertences e fui sorridente com eles, era uma casa pequena e humilde, mas eu não me importava, tudo o que importava era que eu fazia parte da família agora.
– Lia, essa será a sua casa agora. – Tom, o meu novo pai aponta.
Sorri timidamente. Eu não falava muito, sempre fui quieta, mas balancei a cabeça.
– Entre, Lia. Eu vou mostrar a casa para você e como as coisas funcionam aqui. – Dana me conduz para dentro e me mostra tudo.
Nos primeiros dias, descobri que a minha nova família tinha um filho mais velho que estava na faculdade e que viria visitar nas férias, eu teria a oportunidade de conhecê-lo logo. Eu estava ansiosa por isso. Todos os dias, eu fazia muitas tarefas na casa, eu cozinhava e passava, arrumava e limpava tudo. Dana sempre pedia ajuda alegando que não podia fazer muitas coisas, e que sua doença a deixava cansada rapidamente. Eu sempre lhe sorria e fazia tudo o que ela pedia com um sorriso no rosto, eu não me importava com a quantidade de coisas que havia para fazer, eu era grata de estar ali, não importava quanto eu tivesse que trabalhar. Eu estudava e do colégio ia direto para o trabalho, eu era garçonete em uma lanchonete perto da escola e quando chegava em casa, limpava preparava o que era preciso, comia e dormia. Dessa forma, o tempo correu relativamente rápido. A vida não era fácil, mas eu nunc encontrei facilidade desde o momento em que nasci. Mesmo não tendo uma família, crescendo em um lar adotivo e nunca sendo adotada, fiz tudo o que pude para me preparar para o momento em que eu fosse finalmente jogada no mundo, eu estudei bastante, visando boas notas e a chance de conseguir uma bolsa de estudos e conquistar um diploma, ter uma chance de uma vida melhor. Mesmo agora tendo sido adotada, eu ainda seguia em frente com isso em mente. Dana e Tom são um casal que está chegando em uma idade avançada e o melhor é que eu possa cuidar deles no futuro, da mesma forma que eles estão cuidando de mim agora. Eu devo retribuir a sua gentileza.
Os dias se passaram rápido e eu me acostumei com a rotina que eu levava. Eu nunca reclamei nenhuma vez da quantidade de trabalho que eu tinha que fazer, eu estava acostumada a trabalhar duro, eu fazia isso no colégio para ter boas notas, fazia no orfanato e também fora dele para ganhar algum dinheiro. As férias do filho biológico de Tom e Dana finalmente chegaram. Ele ligou e avisou que estava vindo para casa por um tempo, eu fiquei feliz em saber que ia conhecê-lo finalmente. Espero me dar bem com ele e que sejamos bons amigos.
Eu não sabia muito dele, apenas que ele se chamava Finn e que estava cursando literatura. Ele devia ser uma pessoa muito inteligente e sensível.
No dia de sua chegada, preparei uma grande refeição, preparei tudo o que o meu novo irmão gostava segundo as instruções de Dana, eu estava ansiosa por esse momento, preparei tudo com muito esforço e tinha a intenção de causar a melhor impressão. Quero que ele saiba que eu vou cuidar muito bem dos seus pais e que eu quero a melhor convivência possível. Infelizmente, Finn ligou avisando que não chegaria tão cedo quanto pensava e que só estaria conosco na hora do jantar ou um pouco mais tarde. Compreendi que poderia estar acontecendo algumas coisas, e que imprevisto acontecem o tempo todo. Com energia renovada, me preparei mais uma vez para a sua chegada e quando eu estava servindo o jantar, ele apareceu. Era um rapaz bonito, não muito alto e um pouco robusto, mas eu não devia tirar conclusões das pessoas baseado na aparência. Ao cumprimentar os pais, ele parou na minha frente, me apresentei timidamente e com um sorriso ele me abraçou. Eu não gostava muito de contato humano excessivo ou tão perto assim, mas resolvi retribuir o abraço, mesmo que eu estivesse julgando esse abraço apertado demais.
Talvez fosse coisa da minha cabeça. Só podia ser isso.
Eu ia dormir na sala enquanto ele estivesse em casa. A casa só tinha dois quartos e um pertencia a ele, não era justo que eu ficasse com o quarto dele, e não tinha problema dormir na sala por alguns dias, não ia ser muito tempo e eu já dormi em lugares piores. Meus pertences ainda estariam no quarto dele e por isso, precisaria passar lá de vez em quando para pegar algo, mas vou tentar evitar entrar lá nos momentos em que ele estiver fazendo algo. Não sei se foi impressão minha, mas eu senti um leve cheiro de álcool em Finn, talvez seja apenas impressão minha, mas isso me deixo cautelosa ao redor dele. Eu não gosto de pessoas bêbadas, elas me assustam.
O jantar foi perfeito, recebi elogios sobre a comida e apesar de não interagir muito com os demais, acompanhei as conversas a mesa, Finn era falante e contou um pouco de como foi o semestre, de algumas experiências agradáveis que teve e como tem sido aprender sobre literatura. Foi fascinante de assistir e eu senti uma leve vontade de conhecer tudo isso que ele está vivenciando.
Talvez eu faça literatura também, parece ser maravilhoso.
Levantei assim que o jantar acabou, retirei a mesa e fui limpar tudo. Já estava um pouco tarde, mas eu já estava acostumada com a rotina puxada e não me importei muito com isso. Lavei a louça e limpei tudo enquanto os outros conversavam. Em algum momento, ouvi alguém subindo as escadas, continuei a minha tarefa e depois, senti uma presença atrás de mim, de súbito, um corpo roçou o meu e eu fiquei tensa. Um braço aparece ao meu lado, colocando um copo na pia.
– Obrigado, por cuidar dos meus pais. – Finn sussurra no meu ouvido.
Senti novamente o cheiro de álcool e fiquei cautelosa no mesmo instante. Esperei que ele saísse de perto de mim depois de depositar o copo na pia, mas isso não aconteceu e eu comecei a ficar nervosa. Engoli seco e respondi o mais calma que pude.
– Não precisa m agradecer. É o mínimo que eu posso fazer por eles. – digo tentando manter a minha voz normal.
Eu não estava gostando daquilo, mas estava tentando manter a calma.
Finalmente, Finn se afastou de mim e eu respirei aliviada.
– Onde eu vou dormir? – pergunta.
– No seu antigo quarto. Eu vou dormir na sala enquanto você estiver aqui. Só vou aparecer de vez em quando para pegar uma muda de roupa ou limpar o quarto. – respondo rapidamente querendo que ele vá embora logo.
– Você não precisa dormir na sala, pode dormir no quarto comigo, na cama. – não tenho certeza, mas detecto um certo tom sugestivo em sua voz e isso me deixa mais nervosa ainda. Torço as mãos juntas dentro da pia, tentando disfarçar meus verdadeiros sentimentos. Respirei tentando manter a normalidade da situação, podia ser apenas coisa da minha cabeça, e ele não está sugerindo nada.
– Não é necessário. Acredito que Dana e Tom não verão isso com bons olhos. – respondo apelando para o fato de que os pais dele vão saber e podem não gostar.
– Isso não é um problema, afinal, somos irmãos. – responde calmamente.
Então porque eu não sinto nenhum sentimento fraterno vindo dele?
– Eu agradeço, mas não é necessário. Eu vou ficar bem no sofá e você deve estar muito cansado da viagem, é melhor subir e descansar. – sugeri inocentemente.
Finn me avalia por alguns segundos, e quando eu o encaro ele sorri e se aproxima novamente, levanta o meu rosto com o dedo e beija a minha bochecha, próximo demais da boca. Engoli em seco novamente.
– Boa noite, Lia. – diz meu nome um tom mais baixo e se retira, poucos segundos depois, ouço seus passos subindo as escadas e sinto que posso respirar novamente.
Que diabos aconteceu aqui?
Eu pensei que eu estava imaginando coisas com os olhares constantes de Finn durante o jantar, pensei que ele poderia estar apenas curioso sobre mim, mas agora, estou começando a achar que se trata de outra coisa e isso não é bom.
Nos dias que se seguiram, foi mais do mesmo. E eu estava mais do que desconfiada dessa situação. Em mais de uma vez Finn invadiu meu espaço pessoal, sempre me tocando de formas que eu não gostava, sempre próximo demais, interessado demais. Todas as noites ele sugeria que eu dormisse no quarto com ele, mas eu sempre negava e em todas as noites eu dormia de jeans, não queria nem subir para pegar um pijama, eu não confiava nele. No fim de semana, ele saiu com os amigos e quando chegou estava cheirando a álcool, mas não estava totalmente bêbado. Já era tarde e eu estava assistindo a um filme, ele sentou ao meu lado sem dizer uma palavra e ficou lá, fitando a TV, não parecia realmente estar vendo o que passava, mas eu não disse nada. Repentinamente, Finn olhou para mim, as pupilas estavam dilatadas e ele estava ofegante sem motivo aparente. Seus olhos estavam fixados no meu modesto decote e quando eu percebi, disfarcei jogando o lençol em cima de mim. Eu não queria que ele me olhasse daquele jeito, estava me assustando. Mas quando eu fiz isso, sem dizer uma palavra, ele puxou o lençol e o jogou do outro lado do sofá, eu estava pronta para dizer algo, quando ele se jogou em cima de mim e me imobilizou e tampou a minha boca.
– Lia, você não sabe como eu te desejo? Você é tão bonita, eu quero você desde o momento em que eu te vi, você não percebe? Mas a espera acabou. Você me provocou por todos esses dias, eu vou te possuir agora, eu prometo que você vai gostar. – sua mão solta a minha boca e quando eu tento gritar, sou calada por sua boca. Me remexo desesperada embaixo dele, sua língua rodopia na minha boca, meus olhos enchem de lágrimas e eu tento me soltar, e sem ver mais nenhuma opção, mordo a língua dele com força e no momento em que ele me solta furioso e segurando a língua sangrando, não penso duas vezes, pego um vaso pesado que estava atrás de mim e com uma força que eu não sabia que tinha, acerto em sua cabeça, ao lado de seu rosto. O vaso se despedaça e ele cai desmaiado em cima de mim. Saí de baixo dele em tempo recorde e sem parar para pensar, corri escada acima para contar o que havia acontecido e porque eu havia acertado o meu “irmão”. Parei na frente do quarto, a porta estava entreaberta e Dana e Tom conversavam lá dentro. Me preparei para contar o que havia acontecido e no momento em que eu ia abrir a porta, ouvi algo que me quebrou.
– Finn mencionou que vai comer a pequena v***a hoje. Espero que ele use camisinha, eu não quero o nosso sangue se misturando com o de uma rata de rua. Aquela garota só serve para trazer dinheiro para essa casa e trabalhar, quando ela completar dezoito anos em alguns meses, eu vou jogá-la para fora daqui, sem o dinheiro do governo ela não vale nada. – Dana diz e Tom concorda.
Meu deus, não.
Eles sabiam de tudo.
Então era tudo fingimento?
Engoli o choro e tomei uma decisão. Corri para o quarto, arrumei os meus poucos pertences rapidamente e peguei um dinheiro que eu estava guardando, tomei coragem e saindo pela porta da frente, deixei a única família que eu conheci, sabendo que os meses que eu vivi aqui, não passaram de uma grande mentira.