© 2,0K ? ??????? — ( ?. ) welcome to your sollaria death.
O homem dirigia um carro preto impecável por uma estrada plana de Indiana e diminuiu a velocidade ao se aproximar da cerca metálica com um aviso de área restrita. O guarda na cabine apareceu na janela por não mais que um segundo, verificou o número da placa e acenou para que ele entrasse.
O laboratório obviamente estava à espera dele. Talvez já tivessem até seguido as diretrizes e especificações que ele enviara com antecedência para preparar o novo setor.
Quando ele parou ao lado da guarita, baixou a janela para apresentar o documento de identificação ao soldado que trabalhava no posto de segurança. O funcionário examinou sua carteira de habilitação e evitou olhá-lo nos olhos. Era comum que fizessem isso.
Ele dedicava toda a sua atenção a novas pessoas, pelo menos num primeiro momento ─ uma avaliação rápida, catalogando-as por gênero, altura, peso, etnia, e então pela possível inteligência e, mais importante, pelo potencial. Quase sempre, as pessoas se tornavam menos interessantes após esse último critério. Mas ele nunca se dava por vencido. Observava e examinava por força do hábito, elemento crucial de seu trabalho. A maioria das pessoas não tinha nada que lhe interessasse, mas quando tinham... E era por causa delas que estava ali.
O soldado foi fácil de medir: homem, 1,73 metro, 82 quilos, branco, inteligência mediana, potencial... alcançado na banqueta da guarita, verificando documentos de identidade, e o outro braço, que provavelmente nunca usava, estava apoiado no quadril.
─ Seja bem-vindo, sr. Martin Brenner ─ disse o soldado, por fim, estreitando os olhos para comparar o homem na sua frente com a foto no documento.
Ironicamente, o documento apresentava informações que o próprio Brenner gostaria de saber se estivesse avaliando a si mesmo: homem, 1,85 metro, 88 quilos, branco. O resto: genialidade, QI, potencial... infinitos.
─ Fomos informados sobre sua visita ─ acrescentou o soldado.
─ Dr. Martin Brenner ─ corrigiu ele, com calma.
O guarda espiou o interior do carro, direcionando seu olhar não a Brenner, exatamente, mas ao banco de trás, onde a paciente Twelve, de cinco anos de idade, dormia toda encolhida, espremida junto à porta, com as mãos fechadas sob o queixo. O cientista preferiu supervisionar o transporte dela para o novo prédio por conta própria.
─ Claro, dr. Brenner ─ disse o guarda. ─ Quem é a garota? Sua filha?
Um clima de desconfiança pairava no ar. Twelve tinha um tom de pele claro, contrastando com o tom pálido e leitoso da dele, detalhe que Brenner poderia alegar que não significava nada. Mas o guarda não tinha nada a ver com isso, e, além do mais, ele não estava errado. Brenner não era pai de ninguém. Figura paterna, sim.
Para todos os efeitos, sim.
─ Acredito que estejam me esperando lá dentro.
Brenner analisou o homem mais uma vez. Um soldado que regressara de alguma guerra passada, uma guerra que tinham vencido. Ao contrário do Vietnã. Ao contrário da escalada silenciosa contra os soviéticos. Já estavam engajados em uma guerra pelo futuro, mas aquele homem não sabia disso. Brenner manteve o tom amigável.
─ Recomendo não fazer perguntas após a chegada dos demais pacientes. É confidencial.
O guarda pareceu não gostar do conselho, mas relevou. Seus olhos se voltaram para o complexo de diversos andares que se estendia diante deles.
─ Sim, estão à sua espera lá dentro. Pode estacionar em qualquer vaga.
Outra coisa que nem precisava ser dita. Ele seguiu com o carro.
Uma repartição federal burocrática e tediosa havia pagado pela construção e manutenção geral das instalações, e outros braços do governo, braços secretos, tinham arcado com as despesas para equipá-lo segundo as especificações de Brenner. Por ser ultrassecreta, a pesquisa não podia ser divulgada. A Agência compreendia que grandes feitos nem sempre podiam seguir procedimentos-padrão. O governo russo podia até saber tudo que acontecia em seus laboratórios, mas era o primeiro a calar as vozes que se levantavam contra seus projetos. Em algum lugar, naquele exato momento, os cientistas comunistas estavam fazendo o mesmo tipo de experimento para os quais o complexo marrom de cinco andares e sabe-se lá quantos subsolos havia sido erguido. Os funcionários de Brenner eram lembrados disso sempre que se esqueciam ou faziam perguntas demais. O trabalho do dr. Brenner era prioridade máxima.
Twelve ainda estava dormindo quando ele saiu do veículo e foi até a porta de trás. Ele a abriu devagar, escorando as costas da menina para que ela não saísse rolando pelo estacionamento. Havia sido sedada por questões de segurança. Era um recurso importante demais para ficar nas mãos de qualquer outra pessoa. Até então, as habilidades dos pacientes tinham sido... decepcionantes.
─ Twelve?
Brenner se inclinou para o banco de trás e sacudiu de leve o ombro da menina.
Ela balançou a cabeça, ainda de olhos fechados.
─ Sollaria ─ murmurou.
O nome verdadeiro. Ela insistia em ser chamada assim. O cientista não costumava fazer as vontades dela, mas era um dia especial.
─ Sollaria, acorda. Você está em casa.
Ela piscou, faíscas emanando de seus olhos. Mas entendera errado.
─ Na sua nova casa ─ acrescentou.
As faíscas sumiram.
─ Você vai gostar daqui.
Ele a ajudou a se levantar, deu um empurrãozinho para que se mexesse e estendeu a mão.
─ Agora o papai precisa que você ande um pouquinho, que nem uma mocinha. Depois pode voltar a dormir.
Por fim, a mão pequenina dela se encaixou na dele.
À medida que se aproximavam da entrada, o dr. Brenner abriu o sorriso mais doce contido no arsenal de seus lábios. Pensou que seria recebido pelo diretor do laboratório, mas em vez disso se deparou com uma mulher e uma fileira de homens, todos de jaleco. Sua equipe de pesquisa, deduziu, todos à beira de um ataque de nervos.
Um homem bronzeado de rosto enrugado ─ muito tempo ao sol ─ deu um passo à frente e estendeu a mão. Olhou para Twelve e então para o dr. Brenner, os óculos de armação grossa com as lentes engorduradas.
─ Dr. Brenner, sou o dr. John Miller, o pesquisador principal. Estamos muito felizes por ter alguém do seu calibre aqui. Queríamos que você conhecesse a equipe assim que chegasse. E essa deve ser...
─ Sollaria ─ respondeu a garota, com esforço, ainda meio grogue.
─ Uma menininha sonolenta que está louca para conhecer seu novo quarto ─ completou o dr. Brenner, ignorando a mão estendida do pesquisador. ─ Eu pedi um só para ela, se não me engano. Depois que nos acomodarmos, gostaria de conhecer os pacientes que vocês reuniram.
Brenner observou as portas do saguão, avaliando qual seria a mais segura, e se dirigiu até lá com Twelve, deixando pelo caminho um rastro de silêncio que parecia interminável. Seu sorriso era quase genuíno antes de desaparecer por completo.
Meio sem saber o que fazer, o dr. Miller, o dos óculos engordurados, logo foi atrás dele, seguido pelo restante do bando, todo mundo afoito e murmurando entre si. Miller acelerou o passo e foi até o interfone se identificar.
Dava para ouvir o burburinho do falatório hesitante e inseguro entre os demais médicos e funcionários do laboratório que os seguiam.
─ Os pacientes não foram preparados ─ comunicou o dr. Miller, enquanto a porta dupla se abria.
Ele não tirava os olhos de Sollaria, que parecia cada vez mais alerta, de olho nos arredores. Não podiam perder tempo, era preciso acomodá-la.
Dois soldados armados estavam empertigados feito estátuas do outro lado da porta, um sinal de que pelo menos o esquema de segurança do lugar não deixava a desejar. Os homens verificaram o crachá do dr. Miller, e ele acenou para que poupassem o dr. Brenner do escrutínio.
─ Ele ainda não tem o cartão de identificação.
Os homens não gostaram nem um pouco da situação, mas a aprovação da entrada do dr. Brenner rendeu mais alguns pontos ao laboratório.
─ Da próxima vez já vou estar com o cartão ─ disse ele. ─ E vamos tirar cópias da papelada dos pacientes para deixar com vocês.
Ele meneou a cabeça discretamente na direção de Twelve.
O soldado assentiu, e o grupo todo passou.
─ Eu deixei bem claro que queria conhecer os novos pacientes assim que chegasse. Não deveria ser uma surpresa.
─ Achamos que você só queria dar uma olhada ─ respondeu o dr. Miller. ─ Não seria melhor estabelecermos parâmetros? Para prepará-los para a sua visita? Pode acabar causando distúrbios e atrapalhando as pesquisas. Os psicodélicos deixam alguns deles paranóicos.
O dr. Brenner levantou a mão.
─ Não, eu não quero dar só uma olhada, ou teria dito isso a vocês. Para onde estamos indo, afinal?
Luminárias pendiam do teto do longo corredor, emitindo o brilho sinistro que quase sempre ilumina as descobertas científicas desse mundo sombrio. Pela primeira vez naquela manhã, o dr. Brenner sentiu que poderia fazer daquele laboratório seu novo lar.
─ Por aqui ─ indicou o dr. Miller. Ele vasculhou a horda em busca da única mulher presente e falou: ─ Dra. Parks, pode pedir para trazerem comida para a menina?
Ela mordeu o lábio, descontente por ter que fazer algo que claramente era visto como “trabalho de mulher”, mas assentiu.
Para o alívio do dr. Brenner, Twelve ficou quietinha, e logo chegaram a um quarto modesto, com um beliche pequeno e uma escrivaninha. Ele solicitara um beliche para garantir à menina que estava mesmo em busca de companhias apropriadas para ela.
Twelve logo notou.
─ Para um amigo?
─ Uma hora vai ser ─ disse ele. ─ Alguém vai trazer comida daqui a pouco. Tudo bem você esperar aqui sozinha?
Ela fez que sim. A animação que sentira pela chegada ao laboratório já estava se esvaindo ─ a dose de sedativo tinha sido pesada ─, e ela afundou na beira da cama.
Quando o dr. Brenner se virou para ir embora, trombou com um faxineiro e a mulher da equipe.
─ Ela vai ficar bem sozinha? ─ perguntou o dr. Miller, com as sobrancelhas arqueadas.
─ Por ora, sim. ─ O homem se virou para o servente. ─ Sei que parece só uma criança, mas trate de seguir os protocolos de segurança. Ela pode surpreendê-lo.
O funcionário ficou confuso, mas não disse nada.
─ Vamos até o primeiro quarto ─ ordenou o dr. Brenner. ─ Todos os demais podem aguardar com seus pacientes, mas não há necessidade de preparar qualquer um deles.
O restante da equipe esperou pela anuência do dr. Miller, mas ele só deu de ombros, aflito.
─ Façam o que o dr. Brenner diz.
Eles se dispersaram. Estavam aprendendo como as coisas iam funcionar dali em diante.
O primeiro quarto abrigava um paciente inelegível para recrutamento por conta do pé torto. Ele tinha o olhar permanentemente vidrado de alguém cuja ferramenta predileta de distanciamento da realidade era a maconha. Mediano em todos os aspectos.
─ Quer que mediquemos o próximo paciente? ─ perguntou o dr. Miller.
Era evidente que não estava familiarizado com os métodos do dr. Brenner.
─ Eu aviso se precisar de alguma coisa, pode deixar.
Ninguém se opôs. Sim, estavam aprendendo como as coisas iam funcionar dali em diante.