Retorna ao caos ?

1215 Words
GRANADA No Juramento, meu nome pesava mais que chumbo. Não precisava levantar a voz, mostrar arma ou mandar recado. Bastava olhar. Todo mundo sabia quem era o Granada. Explosivo, mas calculado. Frio, mas respeitado. Eu não era o dono do morro. Ainda , mas mandava quase tanto quanto. Meu setor funcionava na régua. Quem peidava torto, eu apagava. Naquela manhã, o sol já rachava o chão quando a Rafaela saiu do quarto vestindo minha camisa do Flamengo. A camisa tava larga nela, mostrando uma parte da coxa e o contorno do peito. Ela fazia de propósito. Sempre fazia. Rafaela — Vai sair cedo hoje, amor? — perguntou, jogando o cabelo de lado. A Rafaela era bonita, claro. Cabelo loiro escorrido, corpo feito a dedo, boca de mel e veneno. Mas não passava disso. Ela queria algo que eu não oferecia. Ela queria exclusividade. E eu era guerra. — Tem entrega hoje — respondi, sem tirar os olhos do celular. O telefone vibrava com mensagens do fornecedor, dos vapores, dos olheiros. Tudo sob controle. Como sempre. Rafaela se aproximou, sentou na beira da cama e me passou a mão nas costas. Rafaela — Fica mais um pouco. Tá cedo ainda… — Já tô na rua. — levantei, pegando a Glock da mesa de cabeceira. O sorriso dela murchou, como sempre murchava. Mas ela já sabia que ali não tinha amor. Só desejo. Rotina. Cama quente. E mesmo assim, ela voltava. Sempre voltava. Desci a escadaria da laje com o rádio no ouvido e o boné abaixado. A quebrada tava tranquila, mas eu sentia cheiro de movimento no ar. Quando cheguei no ponto do alto, um dos moleques me estendeu o celular. Vapor — Granada, teu pai na linha. Isaías. O dono da Maré. O chefe. Não era comum ele ligar. A gente se falava pouco, e quando se falava… era só sobre coisa séria. LIGAÇÃO ON — Fala. — atendi, seco. Isaías — Tá pronto pra ser homem, ou vai continuar brincando de patrãozinho no Juramento? Sorri de canto. O velho nunca perdia a chance de cutucar. — Se tem proposta, fala logo. Isaías — Quero tu aqui na Maré. Preciso de alguém do meu sangue pra segurar o bonde. Os caras tão se mordendo, achando que eu tô velho. E tão mesmo. Mas o império é meu. E vai continuar na família. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Juramento era meu território. Mas a Maré… a Maré era outro patamar. — Isso tem a ver com o sumiço do Negrete? — Isaías riu do outro lado. Isaías — Negrete foi burro. Acreditou que podia me derrubar. Agora tá enterrado no cimento da fundação nova da creche — Frio. Do jeito dele — Tem mais uma coisa — ele disse, com a voz mais baixa. — Tô com uma mulher. Cê vai conhecer quando vier. Mas já adianto: não mexe. — Que p***a é essa, Isaías? — falei com a sobrancelha arqueada. — Tá achando que eu sou moleque? Isaías — Não. Tô achando que tu é homem. E homem sente cheiro de racha nova de longe. E a Antonela… ela chama atenção. O nome ficou martelando na minha cabeça. Antonela. — Ela é tua esposa? Isaías — Oficial não. Mas todo mundo sabe que é minha. — E cê acha mesmo que precisa me avisar? Silêncio do outro lado. E então: Isaías — Ela é mais nova que tu — Aquilo me fez parar de andar. Encostei no corrimão da laje e fechei os olhos. Mais nova que eu? O velho tava com uma novinha em casa… e ainda queria me pedir contenção? — Me manda uma foto — falei, seco. Isaías bufou. Isaías — Para com essa p***a, Mateu. Tô falando sério. — Também tô. A ligação caiu. LIGAÇÃO OFF Fiquei com aquele nome na cabeça. Antonela. E com ele, veio o julgamento. Rápido, direto. Já imaginei o tipo: novinha, dessas que m*l saíram da adolescência e já querem viver no luxo. Deve ter visto no Isaías o passaporte dela pra sair do aluguel, da faculdade, ou sei lá de onde veio. Isaías sempre teve queda por esse tipo de mulher. Mais nova, mais fina, mais fácil de moldar. Pra mim, não passava de mais uma. Mais uma que se vendeu pela vida boa. Mais uma que aceitou se deitar com o velho em troca de cordão de ouro, unha feita e apartamento com vista. Pensar nisso só me deixava mais cínico. Mas, ainda assim… eu queria ver quem era. De volta pro quarto, larguei o rádio e me joguei na cadeira giratória, peguei o celular e comecei a fuçar. Não ia pedir nada pro Isaías. Se ele achava que eu ia respeitar por respeito, ia descobrir rápido que meu respeito tem limite. Curiosidade, não. Abri o i********:. Nome completo eu não tinha, mas bastaram três toques e dois sobrenomes m*l jogados num perfil que ele seguia, pra eu encontrar. Antonela Alencar. Perfil parado. Última publicação: oito meses atrás. Fotos escassas. Imagem de mulher vaidosa, de unha feita, olhar orgulhoso, sombra clara nos olhos e roupa de marca. Uma selfie num carro de luxo. Outra na frente do espelho de um banheiro que não era da Maré, nem do Juramento, padrão asfalto. Zona Sul com força. Uma patricinha fudida .. Desci até o fim do feed. Stories salvos: nada. Nenhuma postagem recente. Nenhuma marcação nova. Era como se alguém tivesse apagado a identidade dela. Ou como se ela mesma tivesse se apagado. Fechei o aplicativo e fiquei ali parado, olhando pro teto. Tinha alguma coisa errada. Ela não era do nosso mundo. E ainda assim, estava nele. Com ele. (…) Me levantei, peguei minha corrente, coloquei o boné e desci os becos até o ponto alto da laje onde sempre se reuniam os caras da linha de frente. O Pelé tava lá, sentado no banquinho, camiseta regata, sandália no pé e a arma no colo como se fosse extensão do corpo. Pelé era cria do Juramento. Tinha crescido ali, conhecido meu pai no tempo em que Isaías ainda batia de frente com os miliciano da Pavuna. Agora era o cabeça do morro. Eu era o sub dele, mas todo mundo sabia que o respeito que eu carregava era de outro nível. Pelé me viu chegando, levantou a sobrancelha e perguntou, direto: Pelé — Teu pai te chamou? — Assenti, puxando o banco de madeira e sentando do lado dele. — Chamou. Pra subir a Maré — Ele deu uma risadinha curta, mas não de deboche. Era de quem já esperava por isso. Pelé — Tu vai aceitar? — Já aceitei — Ficou em silêncio por uns segundos, depois deu um trago no cigarro e soltou devagar. Pelé — Vai fazer falta aqui. — Juramento é tua quebrada, Pelé. Eu sempre fui ponte. Agora é hora de levantar castelo em outro lugar — Ele assentiu. Pelé — E quando é que tu desce? — Hoje. Ainda antes do sol morrer — Pelé se levantou e estendeu a mão. Eu levantei também e apertei firme. Pelé — Que Deus te proteja lá , se precisar voltar não tenha receio . Aquilo ali é pesado. — E eu também sou — Ele sorriu. Pelé — Tu é, Granada. OBS: AMORES COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA.. DEIXEM BILHETES
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