Herdeiro

1005 Words
ISAÍAS NARRANDO Quando eu vi a Antonela pela primeira vez, o baile tava lotado. O som batia pesado, o calor era sufocante, e os corpos suavam na pista como se dançassem pra sobreviver. Ela não pertencia àquele lugar. Dava pra ver de longe. Blusa de linho clara, cabelo preso num coque bagunçado, salto alto demais pra favela. Era do asfalto, nitidamente. Mas tinha um olhar… Um olhar de quem queria sentir o gosto do perigo. De quem já tinha se cansado de boy certinho com perfume francês e queria saber como era o cheiro da pólvora misturada com gelo de uísque. Ela passou por mim e nem olhou. Foi isso que me pegou. Eu era Isaías, o dono da Maré. E ela… ela não me olhou. Cinco minutos depois, descobri o nome. Antonela. Veio com uma amiga que morava ali perto, tava visitando, “conhecendo de curioso”. Na mesma semana, mandei chamar. Na outra, já era minha. No mês seguinte, já morava comigo. E desde então… eu nunca consegui largar. Com a Antonela era diferente. Ela tinha um jeito que me desarmava e me deixava puto ao mesmo tempo. Orgulhosa. Calada. Fria, às vezes. Não era marmita. Não era maria-paleta. Não era nem mulher de morro. E talvez por isso, mesmo sem ser minha oficialmente, eu tratei como se fosse. Roupa, jóia, unha, estética, carro, casa… tudo do bom e do mais caro. Mas ela nunca me deu o que eu mais queria. Um filho. — Tu parou de tomar remédio? — perguntei uma vez, no meio de um café da manhã, sem nem levantar o olhar do prato. Ela congelou. Antonella — Que remédio? — Tu sabe qual — Ela ficou em silêncio. O suficiente pra eu entender que sim. Que ela tomava escondido. E aquilo me corroía. Eu dava o mundo e ela não queria me dar um filho. Às vezes, eu ficava olhando pra ela dormindo e me perguntava: Será que ela me ama? Ou ama o que eu dou pra ela? E se amasse, o que ia fazer com esse amor quando eu morresse? Ia continuar rica, sozinha, com herança? Ou ia carregar meu sangue, meu nome? Foi aí que comecei a olhar pro Mateu com outros olhos. Meu erro. Meu único filho. O Mateu foi criado longe. A mãe dele era uma das minhas putas . Da época do Juramento. Bonita, mas vazia. Daquelas que falavam mais com o corpo do que com a boca. Quando ela apareceu grávida, deixei claro: — Não quero filho. Ela disse que criava sozinha, desde que eu ajudasse. E ajudei. Dinheiro, plano de saúde, aluguel, escola. Mas não dei amor. Nunca dei presença. Ele cresceu me odiando. E, no fundo, talvez com razão. Mas agora… Agora ele era o que me restava. Antonela não engravidava. O tempo tava passando. E eu não podia morrer sem deixar alguém preparado. Por isso chamei ele de volta. Não por carinho. Mas por necessidade. Enquanto isso, minha vida seguia no que eu sempre soube fazer: Dominar e esconder. Paulinha, por exemplo. Marmita antiga. Peito empinado, b***a grande, língua maior ainda. Do tipo que sentava sem medo e depois ainda queria escolher cor de carro. Ciumenta, barraqueira, encrenca. Mas eu sabia domar. — Não é pra falar com a Antonela. — eu dizia. Paulinha — Eu falo com quem eu quiser! — ela retrucava. — Tu fala com quem eu deixar. Ela ficava quieta. Sabia onde pisava. Sabia que eu podia dar muito… mas também podia tirar tudo. Com ela, eu nunca usei camisinha. Exigia exame, ela fazia. Ela se gabava de ser “limpa” e “exclusiva”. Eu gostava da sensação. Do controle. Da pele. E tinha também a Larissa. Essa era de outro mundo. Do asfalto. Esposa de empresário fudido, viciado, cheio de dívida. Ela, fina. Alta. Quarenta e seis com corpo de trinta e olhar de mulher de guerra. Com ela, era mais discreto. Apartamento pago em Copacabana. Uísque, banheira, sexo lento e silencioso. Cada uma me servia de um jeito. Mas nenhuma me completava. Nem mesmo a Antonella . Naquela noite, eu tava sozinho na sala da Geral. O rádio mudo, a luz baixa. O celular na mão, vendo fotos antigas da Antonela, de antes de entrar na minha vida. Ela sorria mais. Usava menos maquiagem. Parecia leve. Suspirei. Talvez fosse isso que ela tinha perdido comigo. A leveza. A porta se abriu sem aviso. Paulinha. Short jeans curto, blusa colada, batom vermelho. — Que que tu tá fazendo aqui, Paulinha? — Ela fechou a porta com a b***a, veio andando como quem sabe que pode. Paulinha — Tu sumiu. Tô com saudade. — Eu falei que hoje era dia de ficar na boca geral — Ela se sentou no meu colo. Paulinha — Só vim dar boa noite — Começou a me beijar o pescoço. Mãos ágeis. Corpo quente. E, como sempre, eu cedi. Ela rebolava no meu colo, me mordia, falava baixinho no meu ouvido. Paulinha — Eu gosto assim… só nós dois… escondido — Eu puxei o cabelo dela com força, fiz ela olhar nos meus olhos. — E tu vai continuar calada. Entendeu? — Ela assentiu, mordendo o lábio. A gente se pegou ali mesmo. Rápido. Sujo. Intenso. No fim, ela sentou no sofá, ajeitando o cabelo. Paulinha — Isaías… — Fala. Paulinha — Eu tô grávida. Parei. O silêncio bateu mais forte que o gemido dela minutos antes. — Como é que é? Paulinha — Tô grávida — ela está séria — E o filho é teu. Meu coração deu um pulo. Minha mente já tava em outro lugar. Um filho? Com ela? Ela podia ser tudo… Menos a mãe do meu herdeiro. Mas mesmo assim… Era sangue meu. Talvez fosse isso que o destino tinha escolhido. Talvez fosse o preço da verdade que a Antonela nunca quis me dar , mas agora ela teria que lidar com isso .. OBS: PARA MAIS CAPÍTULOS COMENTEM E DEIXAM BILHETES , AMORES COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA..
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