A chegada de Mateu

975 Words
ANTONELLA NARRANDO Tem coisas que a gente pressente. Mesmo quando ninguém diz nada, o corpo sente, o peito aperta, e a alma fica inquieta. Aquela manhã já começou com o ar mais pesado do que o normal. A casa estava limpa, organizada, mas eu sabia que algo estava para acontecer. Estava na cozinha, cortando frutas, quando ouvi os passos firmes do Isaías entrando pela porta da frente. Ele estava no telefone, falando com alguém do alto do morro, a voz baixa, mas irritada. Quando me viu, desligou sem nem se despedir. Isaías — Vai chegar mais gente na casa. — ele avisou, direto, como se falasse de um móvel novo. Fechei a geladeira devagar, virei pra ele com um meio sorriso sem vida. — Já me falou do seu filho. Sei que ele vem — Ele se aproximou um pouco, mas não parou. Isaías — Não é só meu filho — Franzi a testa. — Como assim? Isaías — Consegui uma casa aqui perto pra ele.. — Quem? Isaías — Paulinha. Meu corpo congelou. Não foi surpresa. Não foi choque. Foi só… mais uma decepção que eu já esperava. — Ela vai morar aqui? — perguntei, tentando entender até onde ele ia. Ele assentiu, firme. Isaías — Tá grávida. — Grávida? Isaías — De um filho meu. Já que você não quis me dar um filho, Antonela, agora vai ter que lidar com as consequências. Você devia até agradecer. Vai ser uma ótima madrasta. Ri. Foi automático. Uma risada curta, sem graça, amarga. Ele franziu a testa. Isaías — Tá rindo do quê? — De mim. Da vida. Da desgraça toda. Sei lá — Isaías se aproximou mais, com os olhos estreitos. Isaías — É isso, né? Tu não liga pra p***a nenhuma. Tá aqui de corpo, mas a alma vive longe. Não sente, não reage… Parece que prefere morrer. — Talvez eu prefira. — falei, baixinho, sem coragem de olhar pra ele. Isaías — Então vai morrer aqui. Vai morrer dormindo do meu lado, ouvindo minha respiração, carregando meu nome e assistindo cada mulher que me respeita, crescer no teu lugar. — Se era pra me atingir… você errou o alvo. A mão veio rápida. Estalada. Quente. A dor bateu na pele e na alma ao mesmo tempo. Me jogou contra a escada e senti a costela bater forte no primeiro degrau. Tentei me levantar, mas a respiração falhou. Ele subiu os degraus de dois em dois, me segurou pelos cabelos e me forçou a encará-lo. Isaías — Eu vou fazer você passar o pão que o d***o amassou, ouviu? — Me deixa ir embora! Isaías — Não. Enquanto você respirar, tua alma e teu corpo pertencem a mim. — Seu filho da p**a! Isaías — Grita. Grita mais. — Eu te odeio! Ele apertou mais forte o cabelo, me fez morder os próprios lábios de dor. Isaías — Não vai sair. Vai morar aqui, sim. Vai engolir tua posição. Não quis ser minha mulher de verdade? Agora vai ser amante. Paulinha chegou duas horas depois. Cabelo alisado, salto alto, barriga ainda pequena, mas já visível por baixo da blusa justa. Desfilou pela casa como se fosse dela desde sempre. Paulinha — Boa tarde. — falou com um sorriso vitorioso. Eu não respondi. Apenas assenti e subi as escadas. Ouvi risos lá embaixo. Ele ria com ela. Comigo ele só gritava. Naquela noite, Isaías bateu na porta do meu quarto. Isaías — Você vai preparar o jantar — Virei pra ele, sem me levantar da cama. — Não sou empregada. Isaías — Não. Você é amante. E vai se comportar como tal. O meu filho tá subindo o morro agora. Vai jantar aqui hoje. Quero a mesa posta. Fiquei em silêncio. Isaías — Entendeu? — Entendi — Levantei, lavei o rosto, prendi o cabelo. Desci devagar, com o corpo doído, mas a alma dormente. Fiz arroz, carne assada, legumes no vapor. Pus tudo na mesa de madeira da varanda coberta. Arrumei os pratos como ele gostava. Talheres alinhados, copo de vidro grosso, guardanapo de pano. Paulinha apareceu depois, vestida com um vestido justo e batom vermelho. Paulinha — Que cheirinho bom.. Vai fazer isso todo dia agora?— Não respondi. Ouvi à campainha tocar , e antes que Isaías mande abrir eu já fiz as honras , de qualquer forma seria eu a fazer esse ato Fui até a porta sem pressa. Não tremia. Não doía. Não restava nada. Abri. — Entra que a comida vai esfriar. — soltei, olhando direto nos olhos dele. Mateu passou por mim sem dizer nada, só com aquele olhar torto, de quem já tinha me julgado antes mesmo de me conhecer. O cheiro de rua, de pólvora e cigarro entrou com ele. O tipo de presença que faz o ar pesar, mas eu nem pisquei. Isaías desceu as escadas naquele exato instante, ajeitando o cinto, como quem já vinha querendo mostrar autoridade. Isaías — Filho! — falou, abrindo os braços. — Essa aqui é… — Amante. — eu interrompi, com a voz limpa, sem levantar o tom. — Ou você esqueceu que a sua esposa agora é a Paulinha? A que tá carregando o seu tão sonhado herdeiro? Isaías travou no meio do caminho. Mateu me olhou com mais atenção. Paulinha apareceu , exibia um sorriso forçado é notoriamente comeu o filho de Isaías com os olhos , ambos percebeu . Sem dar tempo pra resposta, fui até a mesa. Comecei a me servir, coloquei arroz, carne, legumes. Me sentei. E comecei a comer. Sozinha. Antes de todo mundo. Se ia ter espetáculo naquela casa, eu ia ser a protagonista. Mas não a que chora. A que mastiga o próprio destino sem engasgar. E engoli aquela primeira colherada como quem declara guerra fria, direta, sem aviso prévio. OBS: PARA MAS CAPÍTULOS COMENTEM E COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA..
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