GRANADA NARRANDO
O rádio chiava baixo no carro. O motorista não falava nada, e eu também não. O vidro semiaberto deixava entrar o ar quente da favela — o mesmo ar que sempre cheirava a pólvora, suor e promessa quebrada.
Quando o carro desacelerou na primeira barreira da Maré, dois vapores se aproximaram pela lateral. Um deles veio com a mão na pistola, o outro com a mão estendida como se fosse dar um aperto, mas só queria ver quem era o visitante.
Xxx — Quem é tu, truta?
Desci o vidro e encarei os dois.
— Sou o filho do Ferro Velho.
O mais novo arregalou os olhos. O mais velho abriu um sorriso torto.
Xxx — Ihhh… o herdeiro voltou mesmo, hein? — sorriu — Abre aí, p***a. — gritou pro radinho. — Granada chegou.
Ouvir aquele nome ecoando na boca de desconhecidos me deu um gosto estranho na língua. Era o vulgo que eu carregava há anos no Juramento. Mas ali… ali era outra quebrada. Outro reinado. O trono ainda era do velho. Mas ele tava me chamando. Ele mesmo disse: “Quero você do meu lado. O morro vai ser teu.”
A diferença é que dessa vez eu vinha pelo portão da frente.
A casa era grande, cercada, com muro alto, portão elétrico e câmera até na calçada. Subi os três degraus da varanda como quem pisa em território inimigo. Toquei a campainha
A porta se abriu devagar.
Ela.
Pele dourada, cabelo preso de qualquer jeito, uma camisa fina presa no corpo como se fosse extensão da pele. Ela não sorriu. Não perguntou quem eu era. Só me olhou como quem já sabia e largou:
Antonella — Entra logo, que a comida vai esfriar.
Passei por ela em silêncio. Senti o cheiro do perfume leve misturado com amargura.
Isaías desceu as escadas ajeitando o cinto da calça
Isaías — Filho! — abriu os braços. — Essa aqui é…
Antonella — Amante. — ela cortou, fria, sem pestanejar. — Ou você esqueceu que a sua esposa agora é a Paulinha? A que tá carregando o seu tão sonhado herdeiro?
O velho travou.
Eu respirei fundo, me segurando pra não rir alto. A mulher tinha sangue no olhar.
Ela virou as costas, foi até a mesa, começou a se servir sozinha e sentou pra comer como se fosse dona da p***a toda.
Não esperou ninguém.
Nem mesmo ele.
Eu fiquei de pé, só observando.
A outra mulher estava de vestido apertado, batom vermelho gritando.
Se sentou ao lado do Isaías e puxou conversa fiada, rindo alto, se abanando com a mão.
Xxx — s*******o — murmurou no ouvido do Isaías, mas alto o bastante pra todo mundo ouvir.
Antonela nem olhou. Continuou comendo. Com calma. Como se não existisse mais ninguém naquela casa.
A tal Paulinha insistiu:
Paulinha — E ainda é sem educação. m*l chegou o convidado e já tá terminando de comer. Não sabe esperar, não?
Antonela levantou o olhar, mas não respondeu. Só limpou a boca com o guardanapo, pegou o prato vazio e saiu da mesa.
Foi pra cozinha.
Sumiu escada acima sem pressa.
Silêncio.
O velho fingiu que nada tinha acontecido e apontou a cadeira ao meu lado.
Isaías — Senta, filho. Come aí. Fiz questão de te receber direito.
Me sentei. Peguei um pouco de arroz, um pedaço de carne.
Não era sobre a comida. Era sobre a cena.
Quando o prato já estava quase vazio, larguei os talheres e olhei direto pra ele.
— Tinha dito que tava casado… com uma tal de Antonela.
Isaías — E tô. — ele respondeu. — Quer dizer, tava. Paulinha agora é minha mulher. Tá carregando o meu filho. A família vem em primeiro lugar.
Ri. Por dentro. Um riso ácido.
Família?
Esse cara nunca foi pai.
Nunca me ligou no aniversário.
Nunca apareceu quando minha mãe quase morreu parindo sozinha no barraco do Juramento.
Nunca me chamou de filho… até agora.
Agora que tá envelhecendo. Agora que quer herdeiro. Agora que o medo de morrer sem deixar ninguém no trono bateu.
— Entendi. — respondi, com a voz seca.
Isaías — Antonela… — ele continuou. — É problema meu. Tá aqui porque eu quero. Vai continuar aqui. Não se mete com ela.
Nem precisei responder.
A verdade é que eu já tinha sacado tudo.
Aquela casa era um campo minado.
Paulinha querendo tomar espaço.
Isaías querendo controlar tudo no grito.
E Antonela…
Antonela parecia um veneno bonito. Daqueles que você só percebe que matou quando já tá deitado no chão.
Mas ela não era um problema meu .
Eu tinha voltado por outro motivo.
O morro.
O poder.
A coroa.
Se pra isso eu precisava engolir essa comédia de família, que assim fosse.
Mas eu não esquecia fácil.
Nem dos que me abandonaram.
Paulinha começou a puxar papo do nada, como quem quer parecer simpática depois de cuspir veneno.
Paulinha — E aí, Mateuzinho, tem alguém na sua vida? Porque olha… eu tenho uma amiga que é a sua cara. A Brenda. Gata, cheirosa, e safada. Acho que vocês iam se dar bem demais. Assim todo mundo ficava em família, né? Eu com o pai, você com a minha melhor amiga…
Ela sorriu como se tivesse feito um favor. Mas o velho largou o garfo devagar e encarou ela.
Isaías — Você quer apresentar quem?
Paulinha parou de sorrir.
Paulinha — A Brenda… ué…
Isaías — Você quer meter uma p**a de morro no caminho do meu filho, mulher? — a voz do Isaías subiu firme, mas ainda controlada. — Presta atenção no que tu fala. Tu já não merecia nem tá sentada nessa mesa. Se tá aqui é porque carrega essa criança, com aquela tua boca suja. Mais respeito.
Ela arregalou os olhos, sem reação.
Eu só observei. Não era comigo.
Paulinha ficou parada, quieta, tentando disfarçar a humilhação.
Isaías limpou a boca com o guardanapo e largou:
Isaías — Arruma essa cozinha aí — Paulinha respirou fundo e soltou:
Paulinha — Vou chamar a Antonela…
Isaías — Eu mandei você. — ele cortou.
Paulinha — Mas ela fez a comida, não é justo…
Isaías — EU MANDEI VOCÊ, PAULINHA! — ele berrou com a palma da mão batendo na mesa, fazendo o copo de vidro pular.
Ela calou.
Virou as costas com o que restava de dignidade e seguiu pra cozinha, bufando.
Antes de sair por completo, Isaías ainda mandou:
Isaías — E antes de tudo, serve a gente com o whisky
Paulinha parou, voltou, serviu os dois copos sem dizer uma palavra e desapareceu pela porta.
Isaías deu um gole longo, encostou o corpo na cadeira e ficou me olhando por segundos.
Isaías — Não vou mentir pra você, Granada… nunca quis ser pai.
— Eu já sei. — murmurei, sem tirar os olhos dele.
Isaías — A mãe tua era só uma marmita. Falei que não queria filho, que dava o dinheiro pra ela vazar. Ela quis te criar longe, no Juramento… e pra mim tava ótimo. Eu não te procurei porque não tinha espaço nem pra mim mesmo, quanto mais pra herdeiro.
— E agora tem? — Ele riu de canto.
Isaías — Agora não tem escolha. Tô velho. Não botei filho em mulher nenhuma. A única que conseguiu engravidar foi essa burra da Paulinha. Mas vai saber se esse moleque chega ao mundo. Vai saber se cresce pra alguma coisa.
— E eu?
Isaías — Você é o que sobrou. Carrega meu sangue. Cresceu no corre, não é frouxo. É você que vai assumir isso aqui. Gostando ou não.
O silêncio se arrastou entre nós.
Bebi o resto do whisky e deixei o copo na mesa.
OBS: PARA MAS CAPÍTULOS COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA..