No limite

897 Words
ANTONELLA NARRANDO Eu terminei de lavar o rosto na pia do banheiro. A água escorria pelo meu queixo como se pudesse levar embora a raiva que eu sentia. Mas não levava. Nada levava. Olhei meu reflexo no espelho. O rosto ainda estava intacto, sem hematomas. Mas era por pouco. Isaías estava se aproximando do limite dele. E eu… já tinha passado do meu há muito tempo. Passei a toalha devagar no rosto. Meus olhos ardiam, mas não de choro. Era de cansaço. Cansaço de fingir, de suportar, de aguentar calada. Naquela noite, a casa parecia menor. Mais apertada. Mais suja. A Paulinha já tinha tomado o espaço da sala com seus gritos, sua risada forçada e aquele perfume doce demais que enjoava. O Granada — que Isaías insistia em chamar de filho — tinha se sentado à mesa como se fosse o dono da casa. E eu? Eu me servia primeiro, comia em silêncio e subia antes que a vontade de enfiar um garfo em alguém me dominasse. No quarto novo, menor, com a cama mais dura, minhas roupas dobradas de qualquer jeito dentro do armário. Era ali que eu dormia agora. “A amante”, como o próprio Isaías fez questão de jogar na minha cara. A amante que ele não pretendia abrir mão. Meu corpo ainda doía do tombo na escada. A costela latejava. Mas não tanto quanto o orgulho. Eu não era fraca. Nunca fui. Eu tinha escolhido ficar ali, por sobrevivência. E também… por uma dose torta de ilusão. A ilusão de que podia ter o controle. Só que tudo mudou desde que Paulinha apareceu com aquele ventre inchado, com um exame de farmácia e um teatrinho ensaiado. E Granada… bom, Granada era a parte que eu ainda não entendia. Ele era calado. Me olhou pouco. Falou menos ainda. Mas não era de passar despercebido. Eu sabia que Isaías estava testando meus limites. Que queria me ver quebrar. Queria ver se eu ia implorar pelo lugar que era meu. Mas eu não daria esse gosto. Desci as escadas com passos firmes. A cozinha ainda estava com cheiro de comida requentada. Paulinha não limpou direito. Deixou tudo pela metade . Só servia pra fazer escândalo e abrir as pernas. Peguei um copo d’água, virei de uma vez, e fui até a sala. Isaías estava no sofá com o copo de uísque na mão e Granada sentado na poltrona, com o celular na outra mão, mas os olhos fixos na tela da TV que nem som tinha. Senti os olhos dele me seguirem. Não falei nada. Fui direto até a porta da varanda, empurrei e deixei o ar da madrugada me bater no rosto. Precisei de ar. De espaço. De silêncio. Ali, encostada na grade, eu pensei em tudo que perdi. Minha vida na Zona Sul. Minha mãe, que nunca me perdoou. Ela acha que foi escolha minha estar aqui As amigas que ficaram pra trás. Meu nome limpo. Minha paz. E me perguntei, pela milésima vez, se ainda dava tempo de fugir. Mas fugir pra onde? Com quem? Eu não tinha mais ninguém. E Isaías tinha me feito acreditar que era melhor viver como rainha no inferno… do que ser livre no abandono. Isaías — Acordada ainda? — ouvi a voz dele atrás de mim. Era Isaías. Não respondi. Isaías — Vai dormir, Antonella. Amanhã tem muito o que tu fazer. — Desde quando você se importa com o que eu faço? — Ele suspirou, encostou no batente da porta e cruzou os braços. Isaías — Não quero confusão com o Mateu , e tu fica desfilando, ele estar de olho em tu . Pelo menos não agora , nada de confusão — Vai fingir que se importa com ele agora? Isaías — Não começa. — Só estou perguntando. Porque se você tivesse se importado com ele antes, talvez ele não tivesse chegado aqui com aquela cara de desprezo. Isaías — A cara dele não me importa. O que me importa é que ele segure a bronca se um dia eu cair. Mateu não significa nada pra mim — Você confia nele? — Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Isaías — Não confio em ninguém, Antonella. Nem em você se ligou ? Eu sorri irônica sem virar o rosto. — Ótimo. Porque eu também não confio em você — Isaías se aproximou, me puxou pelo braço e me virou de frente pra ele. Isaías — Então por que ainda tá aqui? — rosnou — Porque você não me deixa sair. — gritei . — E porque um dia eu ainda vou sair pela porta da frente. Com a cabeça erguida. E você vai assistir de camarote.. Ele me olhou nos olhos. E por um instante, o Isaías bandido saiu. Ficou só o homem. O homem que nunca soube amar, mas que tinha medo de perder. Isaías — Vai dormir, Antonella. — repetiu. — Amanhã você vai servir o café. Ele vai descer cedo. E eu quero tudo pronto. — Claro, meu senhor. — respondi, com ironia. — Quer que eu vista uniforme também? — Ele riu de canto e virou as costas. Voltou pra sala. A TV seguia muda. Granada não estava mais lá. No quarto, deitei com o peito pesado. Mas os olhos não fecharam. OBS: PARA MAS CAPÍTULOS COMENTEM E DEIXEM BILHETES LUNARES .. AMORES COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA
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