A casa estava em silêncio.
Pesado. Profundo.
Como se cada parede guardasse segredos que ninguém ousava dizer em voz alta.
O relógio marcava madrugada quando a porta do quarto se abriu lentamente.
Sem barulho.
Sem aviso.
Brandão entrou.
Ele parou logo na entrada.
Os olhos foram direto pra cama.
Pra ela.
Carla estava dormindo.
Ou pelo menos… parecia.
O corpo ainda encolhido, como se estivesse tentando se proteger até mesmo enquanto dormia.
O rosto virado de lado contra o travesseiro.
Os olhos fechados…
mas a pele ainda úmida.
As marcas das lágrimas ainda visíveis.
Vermelho.
Sensível.
Cansado de tanto chorar.
Brandão não se aproximou de imediato.
Ficou ali.
Observando.
Em silêncio.
Como se estivesse analisando algo muito além do que era visível.
Ela parecia… pequena.
Diferente da mulher que enfrentou eles mais cedo.
Diferente da força que tentou mostrar.
Ali…
ela era só alguém quebrada pelo medo.
Ele deu alguns passos à frente.
Lentos.
Controlados.
Parou ao lado da cama.
Os olhos desceram pelo rosto dela… seguindo cada detalhe.
Como se estivesse decorando.
Como se estivesse… entendendo.
Carla se mexeu levemente.
Um pequeno som escapou dos lábios dela.
Não era uma palavra.
Era quase… um soluço preso.
Mesmo dormindo.
O maxilar de Brandão travou por um segundo.
Quase imperceptível.
Ele estendeu a mão.
Parou no meio do caminho.
Hesitou.
Algo raro.
Algo que provavelmente ele não estava acostumado a sentir.
Mas, ainda assim…
tocou.
De leve.
A ponta dos dedos encostando na lateral do rosto dela.
Quente.
Delicada.
Real.
Carla franziu levemente a testa, ainda dormindo.
Como se o toque fosse estranho…
mas não doloroso.
Brandão passou o polegar com cuidado pela marca úmida da lágrima já seca.
O olhar dele escureceu.
— Você não faz ideia de onde se meteu… — ele murmurou, tão baixo que quase não era audível.
Ele tirou a mão devagar.
Como se não quisesse acordá-la.
Ou talvez…
como se não quisesse que ela visse aquele momento.
Ficou mais alguns segundos ali.
Observando.
Em silêncio.
Até que
— Vai ficar olhando a noite toda?
A voz veio da porta.
Baixa.
Carregada.
Brandão não se virou de imediato.
Mas já sabia.
Romenio.
Encostado na parede, braços cruzados, observando a cena com um meio sorriso no rosto.
Os olhos dele alternavam entre Brandão… e Carla.
— Ela chorou. — Brandão disse, simples.
— Eu vi. — Romenio respondeu, dando alguns passos para dentro.
O olhar dele caiu sobre Carla.
Demorou.
Mais do que devia.
— Vai se acostumar… — ele completou, mas a voz não saiu tão firme quanto o normal.
Brandão finalmente se afastou um pouco da cama.
— Ou não. — disse, seco.
Romenio soltou um leve riso.
Baixo.
— Você se preocupa demais…
Brandão lançou um olhar frio na direção dele.
— E você de menos.
O silêncio caiu entre os dois.
Pesado.
Cheio de coisas não ditas.
Romenio se aproximou da cama.
Parou do outro lado.
Olhou pra Carla.
De cima.
Intenso.
— Ela ainda vai dar trabalho… — murmurou.
Mas havia algo diferente ali.
Algo mais profundo que simples provocação.
Brandão se virou em direção à porta.
— É exatamente por isso que ela tá aqui.
Romenio não respondeu.
Mas o olhar dele permaneceu nela.
Fixo.
Quase… possessivo.
Na cama, Carla se mexeu novamente.
Inconsciente.
Presa entre dois olhares que ela ainda nem entendia.
E naquela noite…
mesmo dormindo…
ela já não estava mais sozinha.