Mirella
CAOS.
Foi isso que encontrei nos olhos cor de castanhos claros de Marco. Uma beleza irresistível e caótica que deveria ter me assustado.
Mas não aconteceu.
Em vez disso, a expressão dele me puxou ainda mais para o seu caminho.
Quando ele desviou o olhar, afastei-me alguns passos. Sua presença criava em mim uma intensidade avassaladora com a qual eu não fazia ideia de como lidar.
Passei a mão pela pintura lisa do Corvette preto. Se eu conseguisse convencer meu pai a comprar um para mim, teria uma desculpa perfeita para ver Marco de novo.
Um estalo alto ecoou pela sala. Um tiro?
— p***a. — Marco sacou a arma, mas nem olhou para mim.
Segui o olhar dele até um homem musculoso, cheio de tatuagens que subiam pelo pescoço até o queixo. O sujeito, assustador, apontou a arma diretamente para mim.
A sala mergulhou no caos. Pessoas que segundos antes riam e bebiam agora gritavam e se jogavam atrás dos carros.
Tudo aconteceu rápido demais. Nem percebi o perigo iminente.
— Abaixa. — Marco me empurrou, tirando o ar dos meus pulmões quando meu traseiro bateu no chão. — Fica aí.
Olhei para ele exatamente no momento em que apertou o gatilho. Cruzei os braços sobre o peito e fechei os olhos, desejando que aquilo acabasse logo.
Vidros estilhaçaram ao nosso redor, seguidos por mais gritos de terror. Encolhi os joelhos contra o peito e me encostei na porta do motorista.
Quando abri os olhos, Marco estava abaixado bem perto de mim, espiando por trás da lateral do carro e apontando a arma para o outro lado da sala.
Avancei um pouco, sem perceber.
— O que diabos está acontecendo? — perguntei.
— O Matteo pegou isso. Ele já viu tudo. — Ele me lançou um olhar rápido. — Você está bem?
— Acho que sim. — Eu não estava machucada, mas meu estômago revirava e meu corpo tremia como quando eu precisava apresentar trabalho na escola. Eu odiava falar em público… mas odiava ainda mais ser alvejada.
— Vem. — Ele se ergueu enquanto as pessoas corriam em direção à saída.
— Você disse para ficarmos no chão!
— Agora estou mandando você levantar. — Ele guardou a arma no coldre. — Vamos embora.
— O quê? Onde? Abaixa! Você pode ser atingido! — Olhei ao redor, frenética, esperando a próxima rodada de tiros. — Você pode levar um tiro! Você enlouqueceu?
— Meu irmão e a equipe de segurança estão cuidando da situação. — Ele estendeu a mão para mim. — Eu neutralizei o primeiro atirador. O segundo já foi desarmado.
— Você fez isso? — Isso deveria me fazer pegar na mão de um assassino?
Se o assassino tivesse o visual dele… sim, faria. Me julgue. Eu era uma completa i****a por homens mais velhos, morenos, perigosos, que sabiam usar um terno sob medida. Bem, talvez não “v***a”, já que eu era virgem… mas definitivamente poderia ser a v***a dele.
Peguei na mão dele e tentei levantar com alguma dignidade, enquanto ajeitava o vestido. Minhas pernas trêmulas não ajudavam, e meu coração batia tão rápido que parecia ultrapassar meus pensamentos.
E pensar que tudo o que eu queria era ganhar a bolsa da Gucci. Eu devia ter ido embora com a minha mãe.
— Sua b***a já estava de fora antes de você cair. — Marco me guiou ao redor do Corvette, indiferente ao caos de convidados indo embora. — Não se preocupe com isso.
— Por que você estava olhando? — perguntei. Grosseiro i****a.
— Não é por isso que você se exibe? — Ele me conduziu pela escadaria até o patamar com vista para o salão. — Para que homens como eu possam admirar?
— Não. Eu me visto assim para mim mesma.
Ele olhou por cima do ombro com um “ah, tá”.
Por que ele tinha que ser tão sexy?
— Espere. — Apontei para o corpo caído no outro lado da sala. — Tem um homem morto no seu chão. Isso não te preocupa?
— A polícia chegará em breve. — Ele digitou um código e uma porta se abriu. — Vamos acessar as imagens de segurança. Vão ver que foi legítima defesa. Meu advogado cuidará do resto. Eu pago o suficiente pra isso.
Ele me colocou para dentro de uma sala grande e luxuosa, com uma mesa de mogno e móveis pretos. O aroma de couro e especiarias me envolveu.
— Sente-se —, disse ele.
— É o seu escritório? — perguntei.
— É do meu pai, mas estou usando enquanto ele está fora. — Ele pegou uma garrafa e dois copos.
— Onde ele está?
— Não sei. — Ele serviu o líquido âmbar. — Beba. Vai acalmar seus nervos.
— O que é isso? — Cheirei o conteúdo. — É doce?
— Conhaque. Para algumas pessoas lembra maçã, mas para mim é álcool. Prefiro vodca.
Toquei o copo nos lábios e percebi o olhar dele acompanhando o movimento. Fechei os olhos, bebi tudo de uma vez e senti o líquido queimando meu peito.
Forte demais.
— Não está à altura dos seus padrões, princesa?
— Quebrei uma unha. — Levantei o dedo. — Então não, não está.
— Você está brincando comigo? — Ele ergueu a voz grave. — Você quase levou um tiro e está preocupada com a sua unha?
— Acabei de ir a manicure hoje.
— Você é tão mimada quanto eu imaginava. — Ele voltou ao armário. — Talvez até mais.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei que você não tem malícia suficiente para se proteger num tiroteio. — Ele tomou outra dose. — Isso não é básico pra quem cresceu aqui? Hoje em dia todo mundo sabe que precisa se afastar da ameaça.
— Obviamente meu pai tem as habilidades necessárias para nos manter seguros, porque nunca tinham atirado em mim antes.
— O que isso significa?
— Eu sei onde meu pai está. Você não pode dizer o mesmo.
— Não fale do que não sabe. — Ele bateu o copo no balcão, me fazendo pular. — Você não tem ideia do que meu pai fez por essa família.
Pisei num nervo. Talvez não devesse, considerando que ele tinha acabado de salvar minha vida.
— Você tem razão. — Tirei o xale e fui até ele. — Eu entrei em pânico. Nunca estive numa situação assim. Ainda estou confusa.
— Você foi estúpida.
— Sério? Você é sempre tão grosseiro?
— E você é sempre tão desatenta?
— Você é impossível. — Passei a mão no cabelo. — Estou tentando te agradecer.
— Me agradecer? — Ele sorriu de canto. — Tente sobreviver.
— Dramático.
— Era pra ter gratidão aí, princesa. Não ouvi.
— Talvez você não estava ouvindo.
Quando tentei me afastar, ele agarrou meu braço e me puxou de volta. Meu coração acelerou — dessa vez, não por medo.
— Tente de novo. — Ele me soltou.
— Tentar o quê?
— Gratidão. — Ele afrouxou a gravata, revelando parte da tatuagem no pescoço. — Por ter salvado sua vida.
— Obrigada.
Levei a mão à garganta, descendo até os lábios, mordendo o polegar enquanto imaginava o resto do corpo dele. Será que era todo tatuado? Será que algum dia eu veria o abdômen que sabia que ele escondia?
— Por que ficou tão quieta? — Ele se aproximou, olhando meus lábios. — Da próxima vez que ouvir tiros, se proteja.
— Se acontecer de novo, espero estar com você.
Ele deslizou o dedo pelo meu ombro, depois pela clavícula, aproximando os lábios dos meus.
Eu deveria protestar? Fingir indignação? Dar um tapa?
Ou deixar ele me beijar?
— Mirella… — O hálito quente de conhaque tocou meus lábios. — Não volte à concessionária a menos que venha comprar um carro. Entendido?
— Hum… — Engoli seco. — Você deveria saber algo sobre mim.
— Eu vivo pelo momento “f**a-se”. Diga.
— Eu respondo. E não escuto.
— Eu jamais imaginaria.
— Marco. — Matteo bateu à porta.
Maldita hora, Matteo.
— A polícia está aqui —, disse ele. — A maioria já foi embora antes deles chegarem.
— Ótimo. — Marco ajeitou a gravata, cobrindo a tatuagem. — Não quero que pensem que não podem fazer negócios aqui.
— Lucas está respondendo às perguntas, mas querem falar com você. — Matteo sorriu para mim. — Você está bem?
— Graças ao seu irmão, eu estou.
— Fico feliz em ouvir isso. — Matteo piscou.
Marco estreitou os olhos para nós.
— Posso dar meu depoimento. — Eu disse. — E deixar claro que eu estava na linha de fogo e que Marco fez o que tinha que fazer.
Isso certamente me renderia pontos.
— Não. — Ele me encarou. — Você não vai se envolver.
— Já estou envolvida. — E se o advogado precisasse de mim, eu teria um ótimo motivo para vê-lo de novo. — Você vai precisar da minha ajuda.
— Isso pode ajudar o interrogatório —, disse Matteo.
— Eu disse que não —, rosnou Marco. — Ela não vai falar com a polícia.
— Eu concordo —, disse meu pai entrando. — Mirella?
— Papai.
Oliver Garcia, o mais novo associado dele, veio logo atrás.
— O que aconteceu? — perguntou meu pai aos irmãos Falcone.
— Meu Deus! — exclamei. — Houve um tiroteio. As pessoas estavam se divertindo, e de repente… graças a Deus eu estava com o Marco. Ele me salvou.
Marco e Matteo ficaram lado a lado, postura firme.
— Parece que foi intenso —, disse meu pai, segurando meu pulso. — Você está machucada?
— Não, aconteceu rápido. — Olhei para Marco. — Eu não corri perigo.
— Isso não é verdade —, disse Oliver. — Você deve estar traumatizada.
— Estou bem. — Endireitei a postura. — Eu não fiz nada.
— Você vai ficar comigo essa noite —, disse meu pai.
— Não sabia que seu guarda ia te deixar sozinha —, reclamou Oliver. — Antônio , isso é inaceitável.
— Eu disse pro Michael me deixar aqui. Mamãe tinha outros planos. — Afastei-me de Oliver e bati no peito de Marco. — Eu não queria que ela ficasse sozinha.
— Então, em vez disso, você ficou sozinha —, disse meu pai. — Sua mãe deveria saber melhor.
— Ela não estava sozinha —, disse Marco. — Eu disse à Emília que cuidaria dela.
Na verdade, minha mãe tinha pedido isso a ele… mas isso importava agora?
— Eu diria que você não fez um trabalho tão bom —, provocou Oliver.
— Te pedi opinião? — rebateu Marco.
Sorri para Marco.
— Ele me tirou da linha de fogo e ainda atirou no cara. Foi corajoso.
— Sr. Esposito —, chamou Matteo. — Posso oferecer uma bebida?
— Não, obrigado —, disse meu pai, puxando-me para perto do Oliver. De propósito?
— Agradeço o que fez pela minha filha —, disse ele a Marco. — Nem quero pensar no que teria acontecido sem você.
— Talvez se o guarda não tivesse deixado ela sozinha… — murmurou Oliver. — Talvez eu devesse assumir a segurança dela.
Eca.
Meu pai ignorou:
— Seu pai ficaria orgulhoso.
Assunto perigoso.
— Estamos rezando por ele —, continuou meu pai. — Se precisar de algo, avise.
— Agradecemos —, disse Matteo.
— Não sabia que você e o Sr. Garcia eram sócios —, disse Marco. — Interessante.
— Eu vou onde o negócio me leva —, disse Oliver, olhando descaradamente para meu decote.
— Tenho certeza que sim —, disse Marco. — Com licença, precisamos descer.
— Que pena que a polícia está rondando seu estabelecimento —, provocou Oliver. — Isso não deve ser bom.
— Nós vamos ficar bem. — Marco apontou para a saída.
Meu pai estava no centro da sala, impondo sua autoridade. — Tenho mais uma coisa a dizer. Embora eu aprecie o que você fez pela Mirella essa noite, espero que você entenda que vou solicitar que fique longe da minha filha.
— O quê? — exclamei, boquiaberta. — Por quê?
— Considerando nosso histórico familiar, não há motivo para vocês dois se encontrarem novamente —, disse meu pai a Marco. — Tenho certeza de que posso confiar que atenderá a esse pedido.
— Claro — respondeu Marco, sem sequer olhar para mim. — Não tenho interesse na sua filha. Mas concordo com o Sr. Garcia: talvez seja necessária uma nova gestão.
Que p***a é essa?
— Isso não é da sua conta —, Oliver rebateu. — Mirella, nós devemos ir.
— Concordo —, disse meu pai. — Vamos.
— Eu não tenho voz em nada disso? — Coloquei a mão no quadril. Não ia permitir que esse bando de machos cheios de testosterona decidisse minha vida por mim. — Vocês estão falando de mim como se eu nem existisse.
— Mirella. — Meu pai me encarou. — Nós estamos saindo.
— Tudo bem. — Pensei duas vezes antes de discutir, mas mesmo assim dei um passo na direção de Marco, ignorando o suspiro de desaprovação de Oliver. — Quero agradecer de novo.
— Não é necessário —, disse Marco. — Fiz o que precisava fazer.
— Você me salvou. — Apoiei as mãos em suas lapelas, encantada com a força sólida de seus ombros. — Te devo uma.
— Não, não deve. — Ele prendeu meu olhar, e por um segundo parecia que só existíamos nós dois na sala. — Você deveria ir.
— Talvez um dia você pense em algo que eu possa fazer para retribuir. — Fiquei na ponta dos pés e beijei sua bochecha, demorando alguns segundos a mais do que o necessário. Depois sussurrei em seu ouvido: — Estarei esperando.
Quando afastei lentamente meus lábios de seu queixo coberto pela barba por fazer, ele segurou meu quadril com uma das mãos e me lançou um sorriso malicioso, daqueles que queimam por dentro.
— Mirella. — Meu pai pigarreou, pegando meu casaco do sofá. — Não vou repetir.
— Já estou pronta. — Juntei-me a ele perto da porta, mas olhei por cima do ombro e sorri para Marco.
Senhor Falcone, você vale a pena quebrar todas as regras. Não importa as consequências.