Marco
Morangos tinham estado na minha mente o dia inteiro.
Eu estava com muita vontade de prová-los. Não tanto da fruta em si, porém. Era Mirella que eu queria saborear.
Esse desejo me deixava irritado.
— Marco? — chamou Matteo, com a voz alterada.
— O quê? — ergui os olhos dos documentos do seguro que eu precisava arquivar por causa dos danos causados pelo tiroteio.
— Você não está me ouvindo.
— Estou. — Empurrei os papéis para longe. — O que foi que você disse? O que te distraiu tanto?
Tive que tirar aquela pestinha da cabeça.
— Tudo. — Inclinei-me para trás na cadeira do meu pai. — Tenho muita coisa na cabeça, caso você não tenha percebido.
— Estou exatamente na mesma situação. — Ele passou a mão pelos cabelos. — Caso você não tenha notado.
— Desculpa. — A ausência do nosso pai estava cobrando seu preço de nós dois. — Eu estava pensando na noite passada. O que você queria me dizer?
— O incidente envolveu dois jogadores insignificantes. — Ele suspirou. — Estavam brigando por causa de uma mulher havia semanas.
Passei a mão pelo queixo.
— Então não teve nada a ver com o pai… nem com a guerra que ele está tentando evitar?
— Não. O cara que você agrediu causou a confusão porque o outro levou a garota com ele. Ambos trabalhavam para Bobby Ciacci. Ele pediu desculpas e vai lidar com o funcionário que ainda está vivo.
— Ele devia mandar um cheque enorme para uma instituição de caridade para compensar o que perdemos ontem à noite. — Cerrei o punho. — Eu sabia que deveríamos ter adiado o evento.
— Vamos organizar algo maior e melhor daqui a alguns meses. Papai já terá voltado. Você vai ver.
— Espero que esteja certo.
— Estou. — Matteo estendeu a mão. — Vou dar entrada nos pedidos de indenização junto à seguradora.
— Obrigado. — Entreguei a papelada, aliviado por ele assumir isso. — Tenho uma reunião com investidores essa tarde. Quer participar?
— Claro. — Ele olhou o celular. — Mas parece que você tem uma visita a caminho.
— O quê?
— Veja por si mesmo. — Ele virou o telefone, mostrando as imagens das câmeras da concessionária.
Analisei o vídeo ao vivo.
— Você só pode estar brincando comigo. Não é ela. Meu pai não disse para ela ficar longe de mim?
— Ela está linda. — Ele continuou encarando a tela. — E vem direto para você.
— Eu não preciso disso. — Levantei-me e abotoei o paletó.
— Quer que eu a intercepte? — Matteo provocou. — Ninguém disse a ela para ficar longe de você.
— Estou te dizendo para ficar longe dela. — Sentei-me novamente. — Ela é filha de um figurão. Alguém que não tem um bom histórico com o pai. Não precisamos desse problema.
Angela, minha assistente, apareceu à porta.
— Marco, a senhorita Esposito está aqui para vê-lo.
— Mande-a entrar — Matteo respondeu por mim.
— Você não ouviu nada do que eu disse? — perguntei quando Angela saiu para buscar Mirella. — Não podemos confiar nessa família.
— Você não precisa confiar nela para t*****r com ela. — Ele deu de ombros. — Aproveite a distração de dez minutos.
— Engraçado. — Empurrei-o. — Talvez isso seja normal para você, mas eu duro bem mais do que dez minutos.
Mirella surgiu na porta.
— O que dura mais de dez minutos? Talvez eu possa ajudar.
Matteo conteve um sorriso.
— Tenho certeza de que poderia.
Ela usava os cabelos negros presos em um r**o de cavalo alto, destacando as maçãs do rosto e os lábios carnudos. Ontem à noite estava deslumbrante, mas hoje, com pouca maquiagem, parecia ainda mais bonita. Natural. Preferia assim.
— Mirella. — Apoiei-me na mesa. — O que a traz aqui?
— Trouxe biscoitos para você. — Ela ergueu a caixa rosa. — Queria agradecer novamente pela noite passada.
O vestido marrom justo e as botas até a coxa chamavam mais atenção do que os biscoitos.
— Não precisava. — Suspirei. — E você não deveria estar aqui.
— Ela trouxe biscoitos — Matteo insistiu.
— Eu não assei — Mirella disse. — Eu comprei.
— Claro que comprou — murmurei.
Ela se aproximou de Matteo.
— Quer um biscoito?
Beijou a bochecha dele, e ele pousou a mão na parte inferior das costas dela. Um nó apertou meu peito. Um impulso possessivo tomou conta de mim.
Isso não seria bom para ninguém.
— Adoraria. — Ele pegou um. — Obrigado.
— Esperei trinta minutos na fila — ela disse. — Eles são famosos.
Ela esperava uma medalha?
— Muito atencioso — Matteo provocou. — Não acha, Marco?
— Vocês não têm documentos para preencher? — retruquei. — Quanto mais rápido enviarem as solicitações, melhor.
— Está tentando se livrar de mim? — ele mordeu o biscoito.
— Sai daqui. — Apontei para a porta.
— Em dez minutos? — Ele riu ao sair.
— Ele é adorável — Mirella disse, aproximando-se de mim.
Ela se apoiou no meu peito e beijou minha bochecha.
— Não flerte com meu irmão.
— Ouvi seu pedido ridículo — ela respondeu. — Se você acha que dizer “olá” é flertar, você não sai muito de casa.
Aproximei o olhar, tentando manter a compostura. Não sabia se estava irritado com a ousadia… ou e******o demais.
— Como você está hoje? — Ela passou as mãos pelos meus ombros.
— Bem. — Afastei-me um pouco. O cheiro de morango ainda a envolvia.
— Fiz as unhas. — Mostrou a manicure lilás.
— O mundo está salvo.
— O showroom está impecável. — Ela se sentou na mesa, cruzando as pernas. — Trabalhou a noite toda?
— Minha equipe.
— Ninguém diria que houve um tiroteio aqui.
— Os repórteres estão por toda parte.
— Que chato. — Ela deslizou da mesa. — Talvez por isso não me deixaram entrar pela frente.
— Seu pai está certo. Você não deveria se envolver nisso.
— Você soa como ele.
— Ele pode estar certo às vezes.
Ela deu um passo à frente, invadindo meu espaço.
— Por que você acha que ele não quer que eu te veja?
Não importava o quanto ela cheirava bem. Nem o quão proibida era.
— Tenho certeza de que você consegue descobrir sozinha.
— Nossas famílias não se misturam — continuei. — E é por isso que você deveria ir.
— Eu estava aqui ontem à noite.
— Por uma trégua temporária.
— E não funcionou tão bem.
— Foi resolvido.
— Eu não quero ir. — Ela abriu a caixa e partiu um biscoito. — Eu trouxe isso para você.
— Obrigado.
— Não quer provar? — Ela encostou o biscoito nos meus lábios.
Entreabri a boca. Segurei seu pulso, lambi o chocolate dos dedos antes de morder.
— E então?
— Delicioso.
— Abóbora com especiarias é meu favorito.
Ela torceu o r**o de cavalo, deixando as mechas caírem entre os s***s.
— Não dormi bem. Fiquei pensando em tudo.
— Não houve ameaça. Você está segura.
— Porque você me protegeu.
— Fiz o que precisava ser feito.
— Sinto muito pelo Oliver e pelo meu pai.
— Não precisa se desculpar por eles.
Ela suspirou.
— Oliver anda em casa o tempo todo.
— Isso te incomoda?
— Não sei. — Tocou meu braço. — Te incomodaria?
— Ele estaria louco se não quisesse isso. — Puxei-a para perto.
— E você?
— Não sou e******o. Sou frio. Calculista.
— Isso é sexy.
Segurei seu rosto.
— Você veio aqui por quê?
— Para agradecer.
— Já agradeceu. E eu disse que não queria te ver aqui.
— Não gosto que me digam o que fazer.
— Você é perigosa.
— Então me quebre.
— Você não sabe o que está pedindo, princesa.
Beijei sua mandíbula, o pescoço.
— Marco… me beija.
Perdi o controle.
Quando percebi, minha excitação virou raiva.
— Sabe o que eu odeio? — apertei sua mão. — Você tentando me provocar com um i****a como o Oliver.
— Não foi por isso que vim.
— Não tenho tempo para jogos.
— Você está errado. Eu não sou sua inimiga.
Soltei-a bruscamente.
— Não há nada aqui para você. Vá embora.
— Você é louco.
— E você não faz ideia do quanto.
— Meu pai tinha razão. Você é um bandido burro.
— Saia daqui!
Ela jogou a caixa em mim. Os biscoitos caíram no chão.
— Aproveite seus biscoitos —, ela gritou do outro lado da porta. — Seu desgraçado.