Mirella
Se meu pai realmente achava que eu iria cumprir sua exigência mais recente, ele estava completamente fora de si.
Exigir que eu me mantivesse longe de Marco já era r**m o suficiente, mas isso? De jeito nenhum.
— Mirella? — disse meu pai atrás de mim enquanto eu tirava um sapato de cada vez do armário, procurando o par perfeito para o meu novo vestido vermelho. — Você me ouviu?
— Eu ouvi. — Revirei algumas caixas que havia comprado na primavera passada, quando estive em Paris. Nenhuma parecia certa.
— Mirella — ele rosnou. — Saia do armário e olhe para mim, para que eu saiba que você entendeu.
— Tudo bem. — Saí do fundo do armário com a caixa das botas pretas de cano curto da Manolo Blahnik.
Ele estendeu a mão e me ajudou a levantar. Corri até a cama, abri a caixa e sorri. Perfeitas.
— Sua falta de interesse não vai te livrar disso — disse ele. — Você vai se casar com Oliver.
— Por favor, pare de dizer isso. — Calcei uma das botas, tentando ignorar o absurdo daquela conversa. Só de pensar nisso, meu estômago embrulhava. — Eu não quero me casar com o Oliver. Por que você sugeriria algo tão ridículo?
— Mirella, eu te dou tudo o que você quiser — ele suspirou. — Quanto custam esses sapatos?
— Não sei. — E era verdade. Nunca olhei preços. — Eu sempre faço o que você pede, mas isso não. Não posso me casar com esse homem. Não somos compatíveis. Eu nem gosto dele. Ele me assusta.
— Você vai crescer e entender — ele respondeu friamente.
— Por que você precisa que eu faça isso? — Calcei a outra bota. — Isso vai mudar a minha vida.
— A vida de todos nós. — Ele sentou-se ao meu lado. — Se Oliver e eu unirmos forças, a família Esposito ficará muito mais forte.
— Quanto poder ainda é suficiente?
— Deixe os negócios comigo e continue aproveitando os privilégios. — Ele bateu levemente na minha coxa. — Oliver garantiu que vai tratá-la bem. Eu vou me certificar disso.
— Eu ainda não entendo por que preciso me casar com ele.
— Porque o que Oliver tem a oferecer é valioso demais. Mas ele precisa ter certeza de que eu não vou traí-lo. E ele não é t**o.
Sim, ele era.
— Ao se casar com você, ele sabe que levo essa parceria a sério. Um homem não entrega a filha a qualquer um. Você é preciosa para mim.
Ele falava sério. E isso me apavorava.
— Você sabe em que ano estamos? — levantei-me, andando pelo quarto. — Tenho vinte e um anos, sou formada na faculdade. Não preciso de um casamento arranjado. Tenho tempo para decidir o que quero da vida.
— Um diploma que você não pretende usar.
— Isso não é verdade. — Eu me formei em design de moda porque, aos dezoito anos, parecia fazer sentido. Quem realmente sabe o que quer tão cedo? — Você disse que eu podia tirar alguns meses para me encontrar.
— Já se passaram mais do que alguns meses.
— Eu me formei mais cedo.
— E tenho orgulho disso. — Ele checou o celular. — Mas agora estou cuidando do seu futuro. Confie em mim.
— Isso não é para mim.
— Não está aberto à discussão. — Ele se levantou. — Estou dizendo que você vai se casar com Oliver.
— Mamãe sabe disso? — perguntei. — Ela não vai permitir.
— Não ouse falar com sua mãe. Isso não vai mudar nada. — Ele beijou minha bochecha. — Eu sei o que é melhor para você.
Encarei seus olhos azuis, frios e vazios. Ele já havia decidido. Eu teria que sair dessa sozinha.
— Preciso fazer uma ligação. — Ele me avaliou. — Os sapatos são perfeitos. Oliver chegará em breve e tenho certeza de que vai aprovar sua roupa.
— Eu não me vesti para o Oliver. Escolhi isso para mim.
— Que garota teimosa. — Ele sorriu. — Culpa minha.
Assim que saiu, encarei meu reflexo no espelho. Fazer birra não adiantaria. Ninguém estava me levando ao altar hoje. Eu ainda tinha tempo.
Minha mãe não concordaria… a menos que fosse ameaçada.
O beijo de Marco atravessou minha mente. Seus lábios, sua presença. Se existisse algum homem por quem eu usaria um vestido, seria ele.
Desci pelas escadas dos fundos. Meu pai falava ao telefone no pátio. Parei atrás da cortina, ouvindo.
— Enquanto Nico Falcone permanecer onde está, não teremos problemas para garantir a segurança da remessa — ele disse.
Falcone.
O pai de Marco.
— Quanto mais rápido Falcone desaparecer, melhor. Marco e Matteo não estão preparados para o que vem aí. Precisamos agir agora.
— O que você está fazendo? — disse uma voz atrás de mim.
Me virei num pulo. Oliver estava na cozinha.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei.
— Vim ver você.
— Ótimo. — Afastei-me da porta. — O que você quer?
— Por que estava espiando?
— Não estava. — Sentei-me à mesa.
— Seu pai mencionou que eu viria.
— Você está bonita — ele disse, sentando-se à minha frente. — Vermelho combina com você.
Ele não era feio. Mas eu preferia músculos, tatuagens, cabelo escuro e olhar predador. Como…
Não.
— Obrigada.
— Ele falou sobre nosso acordo?
— Falou. E não me interessa.
— Não perguntei se interessava.
— Esse é o problema.
— Querida — ele colocou a mão sobre a minha. — Tenho observado você.
— Engraçado. Porque eu não sei nada sobre você.
— Isso vai mudar. Mas você precisará mudar também. — Ele sorriu. — Sua falta de respeito. Suas birras. Não vou tolerar isso.
— Então você não vai me suportar. — Puxei minha mão.
Ele segurou meu pulso.
— Me solta.
— Não me diga o que fazer. — Apertou mais. — Seu pai precisa de ajuda para consolidar território. Eu vou ajudar. E também vou colocar você sob controle.
— Você não vai fazer nada disso.
— Gosto da sua garra. Em doses pequenas. Depois de casados, você terá liberdade… dentro dos limites que eu permitir.
— Eu não vou me casar com você.
— Seu pai diz o contrário. — Ele sorriu. — É só questão de tempo.
Ele me soltou.
— Há mais uma coisa à qual você vai se acostumar — disse. — Nada de Marco Falcone.
— Isso não é da sua conta.
— Sei da visita dos biscoitos.
— Você está me seguindo?
— Estou de olho em você.
— Eu não vou me casar com você.
— Já disse isso.
— Então tire isso da cabeça.
— Seu pai dará uma festa. Vou pedi-la em casamento na frente de todos. Depois disso, nada poderá nos impedir.
— Você não precisa de mim para uma aliança.
— Preciso, sim. — Ele puxou uma mecha do meu cabelo. — Mas não se preocupe. Só tocarei em você depois do casamento. Sou tradicional.
— Me deixe em paz.
— Seu pai acha que você é virgem.
Meu sangue gelou.
— Vou garantir que continue sendo.
— Você é nojento. — Empurrei-o.
Meu pai entrou na cozinha.
— Ah, você está aqui. — Ele sorriu. — Mirella não está linda?
— Uma visão — disse Oliver.
— Ela será a esposa perfeita.
— Preciso de ar. — Respirei fundo. — Já volto.
— Aonde vai? — Oliver perguntou.
— Sair.
— Vamos jantar juntos — disse meu pai. — Quero discutir expectativas.
— Nós?
— Primeiro, uma reunião — ele disse a Oliver.
Eles se afastaram.
Encostei-me ao balcão, tentando entender como minha vida tinha virado isso. Um casamento forçado. Um plano. Uma prisão.
Pensar.
Tinha que haver uma saída.
Uma noiva desaparecida?
Ou uma aliança com o inimigo.
Peguei minha bolsa e saí pela lateral. Precisava agir antes que meu pai percebesse.
Na garagem, ao tocar a maçaneta, alguém segurou minha mão.
— O que você está fazendo? — Michael.
— Preciso sair.
— Sozinha?
— Só um recado rápido.
— Seu pai vai me matar se souber.
— Então não conte.
— Não posso mentir.
— Confia em mim.
— O território Falcone está em disputa— ele disse. — Está perigoso.
Era por isso que Marco estava tão tenso.
— Finja que não me viu — eu disse. — Preciso sair agora.
Se ficasse, me casaria com Oliver.
Se avisasse Marco, trairia minha família.
— De qualquer forma, estou ferrada.