Fugir Nunca Foi Difícil

1373 Words
Penélope não dormiu. Ficou deitada, olhando o teto, ouvindo a casa respirar. A neblina se movia do lado de fora da janela como se estivesse esperando alguma coisa. Ela odiava esperar. E odiava ainda mais ser observada. Darian não tentou impedi-la nas últimas horas. Não perguntou nada. Não provocou. Não ameaçou. Isso era o que mais a incomodava. Ele tinha parado de reagir. Ele estava apenas… assistindo. E Penélope nunca suportou plateia silenciosa. Ela sentou na cama. Respirou fundo. — Eu não pertenço aqui — murmurou para si mesma. A frase soou fraca. Não porque fosse mentira. Mas porque não parecia mais tão simples. Ela vestiu a primeira roupa que encontrou. Pegou a bolsa. O celular. As chaves que havia observado na mesa do hall no dia anterior. Ela sempre observava rotas de saída. Sempre. Desceu as escadas devagar. A casa estava silenciosa demais. Quando chegou ao corredor principal, Helena Volkner estava parada diante da porta lateral. Imóvel. Como se já estivesse esperando. — Vai embora — Helena disse, sem pergunta. Penélope parou a dois metros dela. — Fugir nunca foi difícil. Helena a observou com aquele olhar que parecia atravessar camadas. — Difícil é sustentar decisão. — Eu sustento. — Sustenta até alguém te ver de verdade. Penélope segurou firme a alça da bolsa. — Seu filho me viu como ele queria. — Darian não vê como quer. Ele vê como é. Silêncio. — Ele sabe que estou saindo? — Penélope perguntou. Helena inclinou levemente a cabeça. — Ele sempre sabe. — E não vai impedir? — Ele não prende ninguém. — Ele ameaça. — Só quando necessário. Penélope deu um passo à frente. — Eu não vou morrer aqui. Helena respondeu fria: — Morrer não é o que te ameaça. A frase ficou. Pesada. Penélope desviou o olhar primeiro. — Eu não pertenço a território nenhum. Helena abriu a porta. A neblina estava densa. — Todos pertencem a alguma coisa — a matriarca disse. — A diferença é se aceitam. Penélope atravessou. Não olhou para trás. O ar fora da casa era mais frio. Mais cortante. Ela caminhou até o carro estacionado perto da linha da floresta. Não era o dela. Mas serviria. Entrou. Ligou o motor. O coração batia firme. Não acelerado. Firme. Ela já tinha feito isso antes. Já tinha deixado cidades. Homens. Dívidas. Corpos emocionais pelo caminho. Fugir nunca foi difícil. Ela dirigiu até a linha da neblina. Por um segundo, hesitou. O volante parecia mais pesado. Ridículo. Ela atravessou. A neblina abriu passagem. Sem resistência. Sem reação. Isso a incomodou mais do que se tivesse sido bloqueada. — Então é isso? — murmurou. Nenhum trovão. Nenhum sinal. Nenhum aviso. Ela saiu do território. E nada aconteceu. O mundo parecia normal. Estrada úmida. Céu baixo. Silêncio. Ela respirou fundo. — Pronto. Mas a palavra não trouxe alívio. Darian estava na janela do segundo andar quando o carro cruzou a linha. Ele não se moveu. Não chamou ninguém. Não ordenou que a impedissem. Um dos homens do clã apareceu atrás dele. — Senhor? — Ela escolheu — Darian disse apenas. — Devemos ir atrás? Ele manteve os olhos na estrada vazia. — Não. — Se algo acontecer… — Vai acontecer. Silêncio. O homem hesitou. — O território… Darian fechou os olhos por um segundo. Ele sentia. A vibração leve sob os pés. Não era revolta. Era ajuste. — Ele está aprendendo — Darian murmurou. — Sobre o quê? — Sobre ela. Penélope aumentou a velocidade. A estrada estava molhada, mas ela ignorou. Precisava de movimento. Precisava de distância. Cada quilômetro era uma prova de que continuava no controle. O celular vibrou. Número desconhecido. Ela ignorou. Vibrou de novo. Insistência nunca foi coincidência. Ela atendeu. — Alô. Silêncio. Depois, respiração. Não pesada. Controlada. Ela desligou. O celular vibrou de novo. Mensagem. “Achou que sumir resolveria?” O estômago apertou. Não era Darian. Darian não fazia esse tipo de jogo. Ela respondeu: “Número errado.” Outra mensagem veio segundos depois. “Você sempre acha que é.” O carro atrás dela piscou farol. Ela olhou pelo retrovisor. Preto. Vidros escuros. Distância constante. Ela acelerou. O carro acelerou junto. — Não — ela murmurou. Não podia ser. Marcus estava morto. Ela viu. Ela estava lá. Mas Marcus tinha contatos. Investimentos. Coisas que ele escondia até dela. O celular vibrou de novo. “Você devia ter ficado onde estava.” Ela apertou o volante. O carro atrás aproximou. Ela mudou de faixa. Ele mudou junto. — Droga. Ela conhecia esse jogo. Intimidação. Forçar erro. Forçar pânico. Ela respirou fundo. Não pisaria no freio. Não faria movimento brusco. Mas então a neblina começou a surgir. Primeiro leve. Depois mais densa. No meio da estrada. Ela olhou pelo retrovisor. O carro preto ainda estava lá. Mas a neblina parecia crescer entre eles. — Isso não é real. Ela piscou. A estrada ficou menos visível. Ela conhecia aquele tipo de névoa. Mas não ali. Não fora do território. O celular vibrou mais uma vez. Ela não olhou. O carro atrás buzinou. Ela acelerou mais. A curva apareceu à frente. Mas não estava ali antes. Ela tinha certeza. — Não. O volante ficou rígido por um segundo. Breve. Mas suficiente. O carro derrapou. Ela tentou corrigir. Tarde demais. O impacto foi brutal. Vidro estilhaçando. Metal torcendo. O mundo girando. Silêncio. Ela não sabia quanto tempo passou. Alguns segundos. Talvez minutos. O gosto de sangue na boca trouxe consciência. Ela tentou se mexer. O cinto travava o peito. A cabeça doía. A porta estava amassada. O vidro quebrado espalhado no colo. Ela puxou o ar. Difícil. O carro atrás não estava mais lá. Nenhum farol. Nenhum som. Só neblina. — Isso não é possível… Ela tentou soltar o cinto. Conseguiu. O corpo doeu ao se mover. Ela tentou abrir a porta. Não abriu. Tentou a outra. Nada. A neblina começou a invadir pelas frestas do vidro quebrado. Fria. Densa. Viva. Passos ecoaram. Firmes. Não apressados. Ela prendeu a respiração. — Se for você… — ela começou, mas a voz falhou. A porta foi arrancada. Não aberta. Arrancada. Metal rangendo. Ar frio invadindo. Darian. Molhado. Olhos escuros. Fúria contida. — Você quase morreu — ele disse. Não foi pergunta. Ela tentou sorrir. Fracassou. — Ainda não. Ele a soltou do cinto com movimentos rápidos. — Eu deixei você escolher. — Eu escolhi. — Escolheu m*l. Ela tentou se levantar sozinha. As pernas falharam. Ele a segurou antes que caísse. Ela empurrou fraco. — Não me toca. Ele ignorou. A pegou nos braços. — Eu não preciso de você — ela murmurou. Ele olhou para ela. — Não é sobre precisar. Ela respirou com dificuldade. — Então é o quê? Ele respondeu baixo, perto demais: — Você não sabe sair sem se destruir. Ela fechou os olhos. — Eu sempre saí. — Sempre deixou ruína. — Eu sobrevivi. — Por pouco. Ela abriu os olhos. — E agora? Ele começou a caminhar de volta pela neblina. — Agora você enfrenta o que provocou. — O quê eu provoquei? Ele a apertou levemente. — Vínculo. Ela riu fraco. — Eu não acredito nisso. — Não importa. A neblina os envolveu completamente. A estrada desapareceu. O carro desapareceu. Só restava o território. Ela tentou se soltar novamente. — Eu não pertenço aqui. Ele parou. Olhou direto nos olhos dela. — Você saiu. — Sim. — E ele te trouxe de volta. Ela sentiu o impacto da frase. Não tinha sido Darian apenas. A neblina surgiu antes dele. A curva apareceu. O carro atrás sumiu. — Isso é loucura. — Isso é consequência. Ele voltou a andar. — Eu não sou sua responsabilidade. — Não. — Então por que voltou? Ele respondeu sem hesitar: — Porque você ainda não entendeu. — O quê? — Que fugir nunca foi difícil. Ela sentiu o corpo pesar. A casa apareceu à frente. Silenciosa. Esperando. Ele concluiu: — Difícil é ficar quando não tem mais para onde correr. E pela primeira vez… Penélope não tinha certeza se queria fugir de novo. Não porque estivesse fraca. Mas porque alguma coisa — algo que ela não controlava — tinha começado a segui-la. E isso… Era muito mais perigoso do que qualquer homem que ela já tivesse enganado.
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