Marcus foi enterrado fora da linha principal da neblina.
Sem nome.
Sem marca.
Sem aviso ao mundo humano.
Mas o mundo humano sempre percebe quando algo desaparece.
Penélope assistiu de longe.
Não por culpa.
Por cálculo.
Marcus tinha sócios. Contatos. Pessoas que sabiam demais.
Ele não sumiria em silêncio.
Darian estava parado ao lado dela.
Imóvel.
Observando o território absorver o sangue.
— Ele vai ser procurado — ela disse.
— Já está sendo — Darian respondeu.
Ela virou o rosto para ele.
— Você não parece preocupado.
— Eu não me preocupo com consequências. Eu preparo resposta.
Ela quase sorriu.
— Você fala como se tudo fosse previsível.
— Quase tudo é.
— Eu não sou.
Ele finalmente a encarou.
— Não. Você é padrão.
Aquilo incomodou.
— Eu não repito erros.
— Repete sim. — ele respondeu. — Você escolhe homens que precisam ser escolhidos.
Ela cruzou os braços.
— E você? Precisa?
Ele se aproximou um passo.
— Eu não preciso.
Silêncio.
A diferença entre eles era clara.
Ela manipulava necessidade.
Ele não tinha.
Ou fingia não ter.
Helena se aproximou.
— O território está inquieto.
Penélope sentiu também.
A neblina estava mais densa desde a morte de Marcus.
Como se algo tivesse sido acordado.
— Não é por causa dele — Darian disse.
Helena olhou diretamente para Penélope.
— Não.
O peso daquilo ficou no ar.
Quando Helena se afastou, Darian falou baixo:
— Você ainda não entendeu onde está.
— Explique.
— Este lugar não é apenas terra. Ele reage.
Ela riu, descrente.
— Você está tentando me assustar?
— Não. Estou avisando.
Ela deu um passo à frente.
— Eu não acredito em maldição de floresta.
— Não precisa acreditar. Só precisa sobreviver.
Um dos homens do clã se aproximou, tenso.
— Senhor… encontramos algo na fronteira.
Darian seguiu imediatamente.
Penélope foi atrás.
Não pediu permissão.
Quando chegaram, viram.
Um corpo.
Um dos homens de Marcus.
Mas não morto por Darian.
A garganta havia sido rasgada.
Não por faca.
Por algo maior.
Penélope sentiu o frio subir pela espinha.
— Você fez isso? — ela perguntou.
Darian negou.
— Não.
Silêncio.
O território parecia pulsar.
— Ele não morreu no confronto ontem — Darian disse. — Ele tentou fugir.
— E o quê?
— O território decidiu.
Ela ficou imóvel.
— Isso não é possível.
Ele virou o rosto lentamente.
— Você ainda acha que controla todos os ambientes.
O corpo foi removido.
Mas o aviso ficou.
O território não estava neutro.
Ele avaliava.
Naquela noite, Penélope não conseguiu ficar dentro do quarto.
A casa parecia respirar.
Ela desceu as escadas.
Encontrou Darian sozinho na sala principal.
Sem bebida.
Sem distração.
Só silêncio.
— Você sabia que isso podia acontecer? — ela perguntou.
— Sim.
— E mesmo assim me trouxe.
Ele a encarou.
— Eu não trouxe você.
— Você me manteve aqui.
— Porque você não aprende fugindo.
Ela se aproximou.
— Aprende como? Sendo caçada?
— Sendo confrontada.
Ela parou a poucos passos dele.
— Você quer me quebrar.
— Não.
Ele se levantou.
Devagar.
Controlado.
— Eu quero ver quem você é quando não tem saída.
Ela sustentou o olhar.
— Eu sempre tenho saída.
Ele se aproximou mais.
— Não aqui.
A tensão mudou.
Não era física.
Era territorial.
Ele estava dentro do espaço dela.
Invadindo sem tocar.
— Você acha que eu sinto culpa — ela disse.
— Eu acho que você sente medo.
Ela não respondeu.
Ele continuou:
— Não medo de morrer.
— Então do quê?
— De ficar.
Aquilo a atingiu.
Mais do que deveria.
Ela virou o rosto, mas ele segurou o queixo.
Não brutal.
Mas firme.
— Você sai antes que descubram quem você é de verdade.
— E quem eu sou?
— Alguém que não suporta ser descartada.
Ela puxou o rosto.
— Eu descarto.
— Porque aprendeu a ser descartada primeiro.
Silêncio.
Ela não tinha resposta pronta.
Ele percebeu.
Foi a primeira fissura.
Darian não sorriu.
Mas viu.
— Meu irmão acreditou que você ficaria quando ele começou a perder poder.
— Eu não sabia que ele estava perdendo controle da empresa.
— Você sabia que ele estava perdendo controle emocional.
Ela respirou fundo.
— Eu não sou responsável pelas fragilidades dos homens que me escolhem.
— Mas você escolhe fragilidades.
Ela deu um passo à frente.
— E você? É imune?
Ele não respondeu de imediato.
O olhar dele desceu brevemente para a boca dela.
Depois voltou aos olhos.
— Eu não misturo desejo com ilusão.
O ar ficou mais pesado.
Ela sentiu.
Ele não a queria como Elliot queria.
Ele a queria consciente.
Isso era mais perigoso.
— Você não me odeia o suficiente — ela disse.
— Ainda não.
— Então o que é isso?
Ele se aproximou até quase tocar.
— Interesse.
— Em quê?
— Em ver se você sobrevive ao que provocou.
Ela quase riu.
— Você fala como se eu fosse presa.
— Hoje você é.
O território vibrou.
Como confirmação.
Ela sentiu algo mudar.
Não no ambiente.
Dentro dela.
Uma instabilidade rara.
Ela estava acostumada a ler homens.
Não estava acostumada a ser lida.
— Se o território me rejeitar… — ela começou.
— Ele não rejeita. Ele pune.
— E você deixa?
Ele respondeu baixo:
— Eu não interfiro quando ele decide.
Silêncio.
Ela deu um passo para trás.
— Então eu estou sendo julgada por algo que você nem acredita totalmente.
Ele caminhou até ela novamente.
— Eu acredito em consequência.
— E você acha que eu mereço morrer?
Ele sustentou o olhar.
— Eu ainda não decidi o que você merece.
A frase não foi ameaça.
Foi verdade.
Ela sentiu.
Naquela noite, sozinha no quarto, Penélope finalmente permitiu que o medo existisse.
Não de Marcus.
Não da polícia.
Não de dinheiro.
Mas de não conseguir sair.
Porque, pela primeira vez…
Sair não parecia solução.
Parecia derrota.
E ela nunca perdeu.
Mas a caça que nunca aceita perder começa a cometer erros.
E ela sentiu isso quando ouviu o sussurro na neblina do lado de fora da janela.
Não era vento.
Era presença.
Observando.
Esperando.
E o pior pensamento veio devagar, c***l:
Talvez o território não estivesse reagindo à morte de Marcus.
Talvez estivesse reagindo a ela.
E quando um lugar começa a decidir sobre você…
Fugir deixa de ser escolha.
Vira desafio.
E desafios sempre despertam predadores.