O Primeiro Grito de Alerta

1420 Words
O segundo disparo veio mais perto. Não foi alto. Foi preciso. Isso incomodou Darian mais do que se fosse uma rajada descontrolada. Marcus não estava invadindo por impulso. Estava testando. A neblina reagiu, fechando os caminhos entre as árvores como se o território estivesse prendendo a respiração. Penélope ficou imóvel. Ela conhecia aquele tipo de silêncio. Era o mesmo silêncio que vinha antes de Marcus sorrir. — Ele não veio gritar seu nome — Darian disse, observando a floresta. — Ele veio medir distância. — Ele nunca atira para errar — ela respondeu. Darian virou o rosto devagar. — Você fala dele como se respeitasse. — Eu respeito o que pode me matar. Um dos homens do clã surgiu pela lateral da casa. Sangue na camisa. — Senhor… ele não está sozinho. Darian assentiu. Já sabia. — Quantos? — Pelo menos três. Penélope fechou os olhos por um segundo. Marcus nunca confiava em ninguém, mas sempre trazia escudo humano. — Ele não vai tentar entrar pela frente — ela disse. — Não — Darian respondeu. — Ele quer que eu saia. Outro tiro. Desta vez, um dos homens caiu na borda da escadaria. A bala atravessou o ombro. Precisa. Cirúrgica. Não fatal. Aviso. Penélope sentiu o estômago apertar. Marcus estava jogando. E quando ele jogava, ele sempre começava deixando alguém vivo para contar. Darian caminhou até o homem ferido. Abaixou. Avaliou. — Ele quer que eu me irrite. — Ele quer que você avance — Penélope corrigiu. Darian ergueu os olhos para ela. — Você conhece o padrão dele. — Eu sobrevivi a ele. O território vibrou baixo. Como um rosnado distante. Helena surgiu na porta principal. Os olhos frios percorreram a cena. — O sangue humano não deve manchar nossa entrada. Darian se levantou. — Então não vai. Ele começou a descer os degraus. Penélope avançou sem pensar. Segurou o braço dele. Foi instinto. — Não vá até ele. Ele olhou para a mão dela segurando seu pulso. Depois para os olhos dela. — Isso é medo? Ela soltou devagar. — Isso é estratégia. Ele inclinou levemente a cabeça. — Você acha que ele me supera? — Não. Eu acho que ele quer você distraído. Outro disparo. Desta vez, um vidro estilhaçou na lateral da casa. Marcus estava avançando. Darian falou sem olhar para ela: — Fique dentro. — Não. Ele virou o rosto. — Não é pedido. — Ele veio por mim. — Ele entrou no meu território. — E eu sou o motivo. Silêncio. Tenso. Darian se aproximou um passo. — Você quer resolver? — Eu quero que ele pare. — Ele só para morto. Ela respirou fundo. Sabia que era verdade. — Então não vá com raiva. Ele deu um meio sorriso frio. — Eu nunca vou com raiva. E saiu. Penélope sentiu o ar mudar quando ele atravessou a linha da escadaria. Não era humano. Era domínio. A neblina se moveu junto com ele. Marcus apareceu entre as árvores. Sangue no ombro. Mas postura ereta. Sorriso intacto. — Eu sabia que você sairia — Marcus gritou. Darian caminhava devagar. Controlado. — Você está longe de casa. Marcus inclinou a cabeça. — E você está protegendo algo que não merece proteção. Penélope ficou na porta. Observando. Marcus a viu. E o sorriso cresceu. — Penny… achei que você tinha morrido. Ela não respondeu. Darian percebeu o detalhe. — Você atravessou minha fronteira. Marcus deu um passo lateral. Sempre se movendo. — Eu atravessei por ela. — Você trouxe homens. — Seguro. Darian não olhou para os lados. Mas seus homens já estavam posicionados. Marcus continuou: — Ela fez você acreditar também? Darian respondeu calmo: — Eu não acredito em ninguém. Marcus riu. — Todo homem acredita. Ela faz isso. Penélope sentiu o peso da frase. Era sempre assim. Eles se tornavam iguais na acusação. Marcus apontou discretamente para ela. — Você sabe quanto ela levou de mim? Darian não respondeu. Marcus sorriu. — Mais do que dinheiro. Ele avançou dois passos. Um tiro veio da lateral. Não de Marcus. De um dos homens dele. Erro. Darian se moveu. Rápido. Preciso. O homem caiu antes de conseguir recarregar. Marcus não reagiu com surpresa. Reagiu com cálculo. — Você é mais rápido do que parece — ele disse. Darian parou a poucos metros dele. — Você fala demais. Marcus inclinou o corpo levemente para o lado. — Eu vim buscar o que é meu. Penélope finalmente desceu dois degraus. — Eu nunca fui sua. Marcus olhou para ela. Os olhos não eram apaixonados. Eram possessivos. — Você saiu sem pagar a dívida. — Eu não devo nada. Ele riu. — Você deve humilhação. Silêncio. Darian falou baixo: — Explique. Marcus manteve os olhos nela. — Ela me fez acreditar que precisava de mim. Fez eu afastar pessoas. Fez eu investir. Depois sumiu com tudo. Penélope sustentou. — Eu não pedi nada que você não quisesse dar. — Você prometeu ficar. — Eu prometi enquanto fosse seguro. Marcus riu. — Seguro para você. Ele virou para Darian. — Seu irmão acreditou na mesma coisa? A palavra “irmão” mudou o ar. Darian avançou. Marcus ergueu a arma. Rápido. Mas Darian já estava perto demais. O primeiro impacto foi seco. O segundo, brutal. O osso do braço de Marcus estalou. A arma caiu. Penélope não piscou. Ela já tinha visto Marcus violento. Nunca tinha visto alguém mais violento que ele. Até agora. Marcus caiu de joelhos. Sangue escorrendo. Mas ainda sorrindo. — Você acha que matou o problema? Darian segurou o pescoço dele. — Eu resolvo problemas. Marcus forçou um riso entre dentes. — Ela nunca fica. Darian respondeu: — Aqui ela fica. Marcus virou os olhos para Penélope. — Você ouviu isso, Penny? Ele acha que controla você. Ela sentiu algo estranho. Não era orgulho. Era desconforto. Darian apertou mais. — Última chance. Marcus cuspiu sangue no chão. — Ela vai te destruir como fez com todos nós. Silêncio. Penélope falou, firme: — Não fui eu que puxei o gatilho na sua vida. Marcus riu fraco. — Você puxou sem tocar. Darian não hesitou. O som foi curto. Final. Marcus caiu imóvel. O território silenciou. Como se tivesse esperado o desfecho. Penélope desceu os últimos degraus. Olhou para o corpo. Não havia triunfo. Não havia alívio. Só consequência. Darian soltou o corpo no chão. Virou-se para ela. Os olhos não estavam em fúria. Estavam analisando. — Ele falava como alguém que conhecia você bem. — Ele me conhecia o suficiente. — E mesmo assim você ficou. Ela entendeu o que ele estava perguntando. — Eu não fiquei por ele. — Por quem? Ela demorou. — Por mim. O território vibrou. Darian deu um passo em direção a ela. — Você ainda não entendeu. — O quê? — Aqui não é sobre você sobreviver. Ele estava perto demais. — Então é sobre o quê? — Sobre você parar de fugir. Ela ergueu o queixo. — Eu não fujo. — Você sempre vai embora antes de ser descartada. A frase acertou. Ela não respondeu. Porque era verdade. Ele continuou: — Meu irmão não suportou quando você foi embora. — Ele não suportaria ficar comigo também. — Isso você nunca deu chance de descobrir. Silêncio pesado. Os homens começaram a remover o corpo de Marcus. Helena observava da porta. — O território aceitou o sangue — ela disse. Darian não tirou os olhos de Penélope. — Ainda não decidiu sobre ela. Penélope sentiu o peso. Não era apenas Darian julgando. Era algo maior. A floresta parecia respirar diferente ao redor dela. — Eu não pertenço aqui — ela disse. Darian respondeu frio: — Ainda. Ela sentiu um arrepio que não era medo. Era reconhecimento. Pela primeira vez na vida, ela estava em um lugar onde não era a mais perigosa da sala. E isso a desestabilizava mais do que qualquer ameaça. Darian se aproximou até que restasse quase nada entre eles. — Você trouxe morte para o meu irmão. — Ele escolheu. — Você escolheu antes. Silêncio. Ele tocou o queixo dela novamente. Mas não para dominar. Para marcar. — O primeiro grito de alerta foi hoje. Ela sustentou o olhar. — Alerta para quem? Ele respondeu baixo: — Para você. Ela sentiu. Não era sobre Marcus. Não era sobre Elliot. Era sobre algo que começava a se fechar ao redor dela. Não como prisão. Como destino. E diferente dos outros homens… Darian não estava apaixonado. Ele estava paciente. E paciência, nas mãos de um predador, não é virtude. É sentença.
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