O segundo disparo veio mais perto.
Não foi alto.
Foi preciso.
Isso incomodou Darian mais do que se fosse uma rajada descontrolada.
Marcus não estava invadindo por impulso.
Estava testando.
A neblina reagiu, fechando os caminhos entre as árvores como se o território estivesse prendendo a respiração.
Penélope ficou imóvel.
Ela conhecia aquele tipo de silêncio.
Era o mesmo silêncio que vinha antes de Marcus sorrir.
— Ele não veio gritar seu nome — Darian disse, observando a floresta. — Ele veio medir distância.
— Ele nunca atira para errar — ela respondeu.
Darian virou o rosto devagar.
— Você fala dele como se respeitasse.
— Eu respeito o que pode me matar.
Um dos homens do clã surgiu pela lateral da casa.
Sangue na camisa.
— Senhor… ele não está sozinho.
Darian assentiu.
Já sabia.
— Quantos?
— Pelo menos três.
Penélope fechou os olhos por um segundo.
Marcus nunca confiava em ninguém, mas sempre trazia escudo humano.
— Ele não vai tentar entrar pela frente — ela disse.
— Não — Darian respondeu. — Ele quer que eu saia.
Outro tiro.
Desta vez, um dos homens caiu na borda da escadaria.
A bala atravessou o ombro.
Precisa.
Cirúrgica.
Não fatal.
Aviso.
Penélope sentiu o estômago apertar.
Marcus estava jogando.
E quando ele jogava, ele sempre começava deixando alguém vivo para contar.
Darian caminhou até o homem ferido.
Abaixou.
Avaliou.
— Ele quer que eu me irrite.
— Ele quer que você avance — Penélope corrigiu.
Darian ergueu os olhos para ela.
— Você conhece o padrão dele.
— Eu sobrevivi a ele.
O território vibrou baixo. Como um rosnado distante.
Helena surgiu na porta principal.
Os olhos frios percorreram a cena.
— O sangue humano não deve manchar nossa entrada.
Darian se levantou.
— Então não vai.
Ele começou a descer os degraus.
Penélope avançou sem pensar.
Segurou o braço dele.
Foi instinto.
— Não vá até ele.
Ele olhou para a mão dela segurando seu pulso.
Depois para os olhos dela.
— Isso é medo?
Ela soltou devagar.
— Isso é estratégia.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você acha que ele me supera?
— Não. Eu acho que ele quer você distraído.
Outro disparo.
Desta vez, um vidro estilhaçou na lateral da casa.
Marcus estava avançando.
Darian falou sem olhar para ela:
— Fique dentro.
— Não.
Ele virou o rosto.
— Não é pedido.
— Ele veio por mim.
— Ele entrou no meu território.
— E eu sou o motivo.
Silêncio.
Tenso.
Darian se aproximou um passo.
— Você quer resolver?
— Eu quero que ele pare.
— Ele só para morto.
Ela respirou fundo.
Sabia que era verdade.
— Então não vá com raiva.
Ele deu um meio sorriso frio.
— Eu nunca vou com raiva.
E saiu.
Penélope sentiu o ar mudar quando ele atravessou a linha da escadaria.
Não era humano.
Era domínio.
A neblina se moveu junto com ele.
Marcus apareceu entre as árvores.
Sangue no ombro.
Mas postura ereta.
Sorriso intacto.
— Eu sabia que você sairia — Marcus gritou.
Darian caminhava devagar.
Controlado.
— Você está longe de casa.
Marcus inclinou a cabeça.
— E você está protegendo algo que não merece proteção.
Penélope ficou na porta.
Observando.
Marcus a viu.
E o sorriso cresceu.
— Penny… achei que você tinha morrido.
Ela não respondeu.
Darian percebeu o detalhe.
— Você atravessou minha fronteira.
Marcus deu um passo lateral.
Sempre se movendo.
— Eu atravessei por ela.
— Você trouxe homens.
— Seguro.
Darian não olhou para os lados.
Mas seus homens já estavam posicionados.
Marcus continuou:
— Ela fez você acreditar também?
Darian respondeu calmo:
— Eu não acredito em ninguém.
Marcus riu.
— Todo homem acredita. Ela faz isso.
Penélope sentiu o peso da frase.
Era sempre assim.
Eles se tornavam iguais na acusação.
Marcus apontou discretamente para ela.
— Você sabe quanto ela levou de mim?
Darian não respondeu.
Marcus sorriu.
— Mais do que dinheiro.
Ele avançou dois passos.
Um tiro veio da lateral.
Não de Marcus.
De um dos homens dele.
Erro.
Darian se moveu.
Rápido.
Preciso.
O homem caiu antes de conseguir recarregar.
Marcus não reagiu com surpresa.
Reagiu com cálculo.
— Você é mais rápido do que parece — ele disse.
Darian parou a poucos metros dele.
— Você fala demais.
Marcus inclinou o corpo levemente para o lado.
— Eu vim buscar o que é meu.
Penélope finalmente desceu dois degraus.
— Eu nunca fui sua.
Marcus olhou para ela.
Os olhos não eram apaixonados.
Eram possessivos.
— Você saiu sem pagar a dívida.
— Eu não devo nada.
Ele riu.
— Você deve humilhação.
Silêncio.
Darian falou baixo:
— Explique.
Marcus manteve os olhos nela.
— Ela me fez acreditar que precisava de mim. Fez eu afastar pessoas. Fez eu investir. Depois sumiu com tudo.
Penélope sustentou.
— Eu não pedi nada que você não quisesse dar.
— Você prometeu ficar.
— Eu prometi enquanto fosse seguro.
Marcus riu.
— Seguro para você.
Ele virou para Darian.
— Seu irmão acreditou na mesma coisa?
A palavra “irmão” mudou o ar.
Darian avançou.
Marcus ergueu a arma.
Rápido.
Mas Darian já estava perto demais.
O primeiro impacto foi seco.
O segundo, brutal.
O osso do braço de Marcus estalou.
A arma caiu.
Penélope não piscou.
Ela já tinha visto Marcus violento.
Nunca tinha visto alguém mais violento que ele.
Até agora.
Marcus caiu de joelhos.
Sangue escorrendo.
Mas ainda sorrindo.
— Você acha que matou o problema?
Darian segurou o pescoço dele.
— Eu resolvo problemas.
Marcus forçou um riso entre dentes.
— Ela nunca fica.
Darian respondeu:
— Aqui ela fica.
Marcus virou os olhos para Penélope.
— Você ouviu isso, Penny? Ele acha que controla você.
Ela sentiu algo estranho.
Não era orgulho.
Era desconforto.
Darian apertou mais.
— Última chance.
Marcus cuspiu sangue no chão.
— Ela vai te destruir como fez com todos nós.
Silêncio.
Penélope falou, firme:
— Não fui eu que puxei o gatilho na sua vida.
Marcus riu fraco.
— Você puxou sem tocar.
Darian não hesitou.
O som foi curto.
Final.
Marcus caiu imóvel.
O território silenciou.
Como se tivesse esperado o desfecho.
Penélope desceu os últimos degraus.
Olhou para o corpo.
Não havia triunfo.
Não havia alívio.
Só consequência.
Darian soltou o corpo no chão.
Virou-se para ela.
Os olhos não estavam em fúria.
Estavam analisando.
— Ele falava como alguém que conhecia você bem.
— Ele me conhecia o suficiente.
— E mesmo assim você ficou.
Ela entendeu o que ele estava perguntando.
— Eu não fiquei por ele.
— Por quem?
Ela demorou.
— Por mim.
O território vibrou.
Darian deu um passo em direção a ela.
— Você ainda não entendeu.
— O quê?
— Aqui não é sobre você sobreviver.
Ele estava perto demais.
— Então é sobre o quê?
— Sobre você parar de fugir.
Ela ergueu o queixo.
— Eu não fujo.
— Você sempre vai embora antes de ser descartada.
A frase acertou.
Ela não respondeu.
Porque era verdade.
Ele continuou:
— Meu irmão não suportou quando você foi embora.
— Ele não suportaria ficar comigo também.
— Isso você nunca deu chance de descobrir.
Silêncio pesado.
Os homens começaram a remover o corpo de Marcus.
Helena observava da porta.
— O território aceitou o sangue — ela disse.
Darian não tirou os olhos de Penélope.
— Ainda não decidiu sobre ela.
Penélope sentiu o peso.
Não era apenas Darian julgando.
Era algo maior.
A floresta parecia respirar diferente ao redor dela.
— Eu não pertenço aqui — ela disse.
Darian respondeu frio:
— Ainda.
Ela sentiu um arrepio que não era medo.
Era reconhecimento.
Pela primeira vez na vida, ela estava em um lugar onde não era a mais perigosa da sala.
E isso a desestabilizava mais do que qualquer ameaça.
Darian se aproximou até que restasse quase nada entre eles.
— Você trouxe morte para o meu irmão.
— Ele escolheu.
— Você escolheu antes.
Silêncio.
Ele tocou o queixo dela novamente.
Mas não para dominar.
Para marcar.
— O primeiro grito de alerta foi hoje.
Ela sustentou o olhar.
— Alerta para quem?
Ele respondeu baixo:
— Para você.
Ela sentiu.
Não era sobre Marcus.
Não era sobre Elliot.
Era sobre algo que começava a se fechar ao redor dela.
Não como prisão.
Como destino.
E diferente dos outros homens…
Darian não estava apaixonado.
Ele estava paciente.
E paciência, nas mãos de um predador, não é virtude.
É sentença.