Penélope nunca acreditou em amor.
Acreditava em padrão.
Homens intensos demais.
Homens carentes demais.
Homens ricos demais.
Homens que confundiam desejo com necessidade.
Elliot Volkner tinha sido todos eles ao mesmo tempo.
O problema nunca foi seduzi-lo.
O problema foi ele ter acreditado que aquilo significava algo eterno.
Ela não prometeu casamento.
Não prometeu filhos.
Não prometeu eternidade.
Prometeu presença.
E presença, quando bem usada, vira vício.
Ela ainda lembrava do jeito que Elliot a olhava quando entregou a chave do apartamento novo.
— Agora você não precisa mais fugir.
Ela tinha sorrido.
Ela sempre sorria quando um homem dizia isso.
“Fugir nunca foi o problema”, ela pensou na época.
O problema era ficar.
Mas ficar traz estabilidade.
Estabilidade traz acesso.
Acesso traz controle.
Ela saiu antes que ele percebesse o quanto já tinha entregado.
Saiu com dinheiro suficiente para nunca mais precisar implorar por nada.
Elliot ficou com o vazio.
Agora ela estava parada diante da casa dos Volkner.
A neblina parecia observar.
Não era vento. Não era clima.
Era presença.
Darian Volkner a esperava na entrada.
Imóvel. Silencioso. Frio.
Ele não tinha o olhar de um homem apaixonado.
Tinha o olhar de quem faz inventário de perdas.
— Você não parece arrependida — ele disse.
Sem gritar. Sem acusar.
Constatação.
Penélope inclinou levemente o queixo.
— Arrependimento não muda o que aconteceu.
Ele desceu um degrau.
— Você sabia que ele estava transferindo dinheiro da empresa?
Ela sustentou o olhar.
— Ele era adulto.
— Ele estava emocionalmente instável.
— Ele estava apaixonado.
O maxilar dele travou.
— Você chama isso de paixão?
— Você chama de fraqueza porque nunca permitiu que ele fosse diferente de você.
Silêncio.
O território reagiu. Um estalo na mata. Galhos rompendo.
Darian não piscou.
— Ele acreditava que você ficaria.
— Eu nunca disse que ficaria para sempre.
— Mas deixou que ele acreditasse.
Ela respirou fundo.
— Homens como seu irmão não querem verdade. Querem fantasia. Querem ser escolhidos acima de tudo.
— E você oferece isso.
— Eu ofereço o que eles já querem acreditar.
Ele deu mais um passo.
— Quanto você levou?
Direto.
Sem rodeios.
Ela demorou um segundo a mais do que deveria.
— O suficiente.
— Número.
— O suficiente para ele não perceber no começo.
O olhar dele escureceu.
— Você drenou a empresa do meu irmão.
— Eu não o obriguei a assinar nada.
— Você sabia o que estava fazendo.
— Sim.
A honestidade cortou o ar.
Darian se aproximou até que ela sentisse o calor do corpo dele.
— Ele se matou duas semanas depois que você desapareceu.
Ela não desviou.
— Ele já estava quebrado antes de mim.
— Você foi o gatilho.
— Eu fui a última ilusão.
Silêncio pesado.
— Você não sente nada? — ele perguntou.
Ela demorou.
Não porque precisava inventar resposta.
Porque precisava decidir o quanto mostrar.
— Eu não queria que ele morresse.
— Mas queria o dinheiro.
— Eu queria sobreviver.
Darian inclinou levemente a cabeça.
— Sobreviver de quê?
Ela riu, seca.
— De homens que acham que amar é possuir.
Ele segurou o queixo dela de repente.
Firme.
Sem violência descontrolada.
Controle absoluto.
— Você não é vítima.
— Nunca disse que era.
— Então não use sobrevivência como desculpa.
Ela segurou o pulso dele.
— E você não use luto como justificativa para me manter aqui.
Ele não soltou.
— Você está aqui porque precisa entender que nem todo homem que você quebra cai sozinho.
A frase atingiu.
Ela manteve postura.
— O que você quer de mim?
— Verdade.
— Eu já estou sendo honesta.
— Não. Você está sendo fria.
Ela puxou o rosto para mais perto.
— Você quer que eu chore?
— Quero que você entenda.
— Entender o quê? Que seu irmão era frágil?
O território reagiu de novo. Um vento cortando a neblina.
Darian soltou o queixo dela devagar.
— Ele era humano.
— E você não é?
O olhar dele mudou.
Não era dor.
Era algo mais antigo.
— Eu não tenho o luxo de ser.
Ela percebeu ali.
Darian não odiava apenas por causa de Elliot.
Ele odiava porque Elliot representava algo que ele nunca permitiu em si mesmo.
— Você não quer justiça — ela disse baixo. — Você quer provar que eu não sou tão forte quanto finjo ser.
Ele se aproximou mais uma vez.
— Você não é forte. Você é adaptável.
Ela sorriu.
— É assim que predadores sobrevivem.
— Predadores não fogem.
— Só quando precisam.
Silêncio.
Ele deu a volta nela devagar, analisando.
— Você estuda padrões emocionais.
— Eu observo.
— Você identifica insegurança.
— Todo mundo tem.
— Você entrega validação.
— Eu entrego o que pedem.
— E depois some.
Ela virou para encará-lo.
— Sempre.
Ele parou diante dela.
— Aqui você não vai sumir.
Ela ergueu o queixo.
— Vai me prender?
— Não.
— Me matar?
— Ainda não.
A palavra pairou no ar.
Ainda.
Ela sentiu o primeiro arrepio real.
Não de medo.
De risco.
Ele não estava brincando.
Ele estava avaliando.
— O que você quer que eu faça? — ela perguntou.
— Ficar.
— E depois?
— Viver aqui o suficiente para sentir o peso.
Ela riu, incrédula.
— Você acha que culpa funciona comigo?
— Não. Mas consequência funciona.
Um som ecoou na floresta.
Passos.
Penélope olhou para o lado.
Um dos homens do território se aproximava, tenso.
— Senhor, detectamos movimentação na fronteira.
Darian não tirou os olhos dela.
— Humana?
— Sim.
Ela soube antes de ouvir o nome.
— Marcus — ela murmurou.
Darian percebeu a mudança na respiração dela.
— Quem é Marcus?
Ela não respondeu de imediato.
Isso foi resposta suficiente.
— Outro apaixonado?
— Não. — ela disse, finalmente. — Um erro que não aceita perder.
Darian virou o rosto para o homem.
— Redobrem a vigilância.
Quando ficaram sozinhos de novo, ele voltou a encará-la.
— Ele veio atrás de você?
— Marcus não aceita rejeição.
— E você rejeitou?
Ela sorriu sem humor.
— Eu saí com dinheiro.
Os olhos dele escureceram.
— Quanto?
— Não importa.
— Aqui importa.
Ela deu um passo para trás.
— Você quer me punir pelo seu irmão ou quer me usar para atrair outro homem?
Ele ficou em silêncio por dois segundos.
Decidindo.
— Se ele cruzar a fronteira, ele morre.
Ela prendeu a respiração.
— Ele não é como Elliot.
— Eu sei.
O território ficou mais denso. Como se escutasse.
— Você tem medo dele? — Darian perguntou.
Ela respondeu sem hesitar.
— Não.
Mentira.
Darian percebeu.
Ele se aproximou.
Mais perto do que antes.
— Você sempre acha que controla tudo.
— Eu controlo.
— Não aqui.
Ela olhou ao redor.
A neblina parecia fechar caminhos.
A casa atrás deles parecia observar.
— Você não entende — ela disse, pela primeira vez com algo diferente na voz. — Marcus não precisa de dinheiro. Ele precisa vencer.
— E vencer significa?
— Me quebrar.
Darian inclinou levemente o rosto.
— Então talvez você finalmente entenda o que meu irmão sentiu.
A frase atingiu como golpe.
Ela respirou fundo.
— Você quer que eu sofra.
— Eu quero equilíbrio.
— Isso é vingança.
— Não. Vingança seria rápida.
Silêncio.
— Isso é aprendizado.
Ela encarou ele por longos segundos.
— Você não é melhor do que eu.
Ele respondeu sem emoção:
— Eu nunca disse que era.
Um disparo ecoou na distância.
Mais perto do que antes.
Penélope não conseguiu impedir o pequeno movimento de tensão.
Darian percebeu.
Ele deu um passo à frente, ficando entre ela e a floresta.
Não por cuidado.
Por instinto territorial.
— Se ele entrar — Darian disse baixo — você vai assistir.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Assistir o quê?
O olhar dele era gelo puro.
— A diferença entre homens que confundem desejo com amor…
Ele fez uma pausa mínima.
— …e homens que matam por convicção.
Outro disparo.
Mais perto.
E, pela primeira vez desde que pisou ali, Penélope sentiu algo escapar do controle.
Não era culpa.
Não era arrependimento.
Era a percepção brutal de que, diferente dos outros homens…
Darian não precisava dela.
Ele só precisava de motivo.
E talvez…
Ela tivesse acabado de entregar um.