Um
O salão principal da alcateia estava silencioso.
Silencioso demais para uma noite que deveria representar uma união.
Nas paredes de pedra escura, tochas iluminavam os brasões das duas famílias. De um lado, o símbolo do lobo n***o dos Valmont. Do outro, a lua prateada dos Monteiro.
Durante gerações, aquelas duas famílias haviam sido rivais.
Territórios disputados, antigas desavenças e promessas quebradas haviam transformado qualquer encontro entre elas em motivo para desconfiança.
Até aquela noite.
O acordo estava prestes a mudar tudo.
No centro do salão, os líderes das duas famílias estavam sentados diante de uma grande mesa de madeira. Os anciãos observavam em silêncio enquanto o antigo Alfa dos Valmont colocava um documento sobre a mesa.
— Depois de tantos anos, finalmente chegou o momento de encerrarmos essa rivalidade — declarou ele.
Do outro lado, o patriarca dos Monteiro assentiu.
— Nossas famílias não podem continuar perdendo forças umas contra as outras. A ameaça que se aproxima é maior do que qualquer ressentimento antigo.
Alguns membros da alcateia trocaram olhares preocupados.
Todos sabiam que aquela união não aconteceria por confiança.
Aconteceria por necessidade.
E havia mais.
O acordo determinava que as famílias seriam unidas através dos seus descendentes.
A filha dos Monteiro se tornaria a companheira destinada ao futuro Alfa dos Valmont.
Ela estava de pé alguns metros atrás do pai.
Tentava manter a postura firme, apesar do coração acelerado.
Seu nome era Elena Monteiro.
Ela sabia daquele acordo desde criança.
Cresceu ouvindo que um dia se casaria com o herdeiro dos Valmont. Que aquele vínculo garantiria a paz entre as famílias. Que seu destino já estava decidido antes mesmo de ela compreender o significado da palavra destino.
E, naquela noite, finalmente conheceria o homem que todos diziam ser seu futuro.
As grandes portas do salão se abriram.
Todos se viraram.
Ele entrou.
Adrian Valmont.
O futuro Alfa.
Alto, sério e acompanhado por dois membros da guarda, Adrian atravessou o salão sem demonstrar qualquer emoção. Desde jovem, havia sido preparado para comandar. Era conhecido pela disciplina, pelo temperamento difícil e pela maneira como mantinha todos à distância.
Quando chegou diante da mesa, seu pai levantou-se.
— Adrian, você já conhece os termos do acordo.
— Conheço.
A resposta foi fria.
Então seus olhos encontraram Elena.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Ela esperava alguma reação.
Um sinal.
Qualquer coisa.
Mas Adrian apenas a observou.
Não havia surpresa.
Não havia felicidade.
Muito menos carinho.
Havia apenas indiferença.
O pai dele respirou fundo.
— Elena Monteiro será sua companheira. A união será anunciada hoje e oficializada assim que os preparativos terminarem.
Elena sentiu as mãos esfriarem.
Adrian permaneceu imóvel.
— Não.
A palavra atravessou o salão.
Um murmúrio percorreu os presentes.
O patriarca dos Valmont franziu a testa.
— O que disse?
Adrian deu um passo à frente.
— Eu disse que não.
Elena sentiu o rosto esquentar.
Seu pai se levantou imediatamente.
— Adrian, este acordo foi firmado entre nossas famílias.
— Então desfaçam o acordo.
— Você sabe o que isso significa?
— Sei perfeitamente.
Adrian olhou novamente para Elena.
Dessa vez, seu olhar foi ainda mais frio.
— Eu não vou aceitar uma companheira escolhida por um pedaço de papel.
O silêncio voltou a dominar o salão.
Elena sentiu um nó se formar na garganta.
Ela havia imaginado aquele momento inúmeras vezes.
Nunca imaginou que seria daquela maneira.
O patriarca dos Monteiro tentou intervir.
— Existe uma tradição envolvida. Nossos ancestrais—
— Não me importo com tradições.
Adrian interrompeu.
— Minha vida não será decidida por um acordo feito antes de eu nascer.
O pai dele bateu a mão contra a mesa.
— Você será o Alfa desta alcateia! E um Alfa precisa pensar no seu povo antes de pensar em si mesmo.
Adrian sustentou o olhar do pai.
— Então encontrem outra solução.
Elena permaneceu imóvel.
Até aquele momento, uma pequena parte dela ainda acreditava que talvez pudesse conhecer Adrian, conversar com ele e, quem sabe, construir algum tipo de respeito.
Mas aquela esperança desapareceu.
Ela deu um passo à frente.
— Não precisa procurar outra solução.
Todos olharam para ela.
Elena respirou fundo.
— Se ele não me quer como companheira, eu não vou obrigá-lo.
Seu pai tentou segurá-la pelo braço.
— Elena…
Ela balançou a cabeça.
— Não, pai.
Seus olhos estavam marejados, mas ela se recusava a chorar diante deles.
— Eu não vou implorar para alguém me aceitar.
Adrian permaneceu em silêncio.
Talvez esperasse que ela discutisse.
Talvez esperasse lágrimas.
Talvez simplesmente não se importasse.
Então Elena ergueu o queixo.
— Você não precisa me rejeitar diante de todos.
A voz dela saiu baixa, mas firme.
— Porque eu também não escolheria alguém que não consegue sequer olhar para mim sem sentir desprezo.
O salão ficou completamente silencioso.
Pela primeira vez naquela noite, algo mudou no rosto de Adrian.
Foi quase imperceptível.
Uma pequena contração na mandíbula.
Mas ele não respondeu.
Elena se virou.
Cada passo em direção à saída parecia mais pesado que o anterior.
Quando alcançou as portas, ouviu a voz de Adrian atrás dela.
— Espere.
Ela parou.
Não se virou.
— O que foi?
Adrian demorou alguns segundos.
— O acordo continua encerrado.
Elena fechou os olhos.
Uma lágrima finalmente escapou.
Ela a enxugou rapidamente antes que alguém pudesse perceber.
— Não se preocupe, futuro Alfa.
Então olhou por cima do ombro.
— Eu entendi.
E saiu.
As portas se fecharam atrás dela.
Naquela noite, todos acreditaram que o acordo havia fracassado.
Que a antiga rivalidade entre as famílias voltaria a crescer.
Que Adrian havia acabado de impedir uma guerra e preservado sua liberdade.
Ninguém percebeu que, naquele instante, uma decisão muito maior havia sido tomada.
Porque Elena Monteiro não pretendia voltar.
Não pretendia perdoar.
E, acima de tudo, não pretendia passar o resto da vida tentando conquistar um homem que havia deixado claro que não a queria.