CATARINA - RECOMEÇO

1076 Words
O sol da manhã entrava pelas frestas das persianas de alumínio, riscando o chão de cimento queimado com linhas de luz pálida. Catarina despertou lentamente, a mente ainda enevoada pelo trauma da noite anterior. Por um segundo, o pânico apertou seu peito ao sentir o toque de lençóis estranhos, mas o cheiro amadeirado e o silêncio absoluto do quarto a lembraram de onde estava: no topo do Turano, o único lugar onde o Abutre não podia alcançá-la. Ela tentou se sentar, soltando um gemido baixo quando a pele esticada pelos pontos no pé protestou. Sete não estava na cama. O lado dele já estava frio; ele era um homem que não conhecia o repouso prolongado, sempre acordando antes do sol para garantir que a engrenagem do morro girasse sob seu comando. A porta do quarto se abriu com um clique suave e Sete entrou. Ele já estava pronto para o dia, vestindo uma regata preta que exibia a força bruta de seus braços e o número romano VII tatuado no pescoço. Ele carregava algumas sacolas de papel pardo em uma das mãos. — Acordou cedo — ele comentou, a voz grave e matinal vibrando no quarto. — Achei que fosse dormir até o meio-dia depois do estrago de ontem. Catarina ajeitou a camiseta dele que ainda usava, sentindo-se pequena naquela cama imensa. — Eu não consigo dormir muito. O silêncio aqui é... diferente. Sete caminhou até a beira da cama e soltou as sacolas ao lado dela. — Mandei um dos moleques descer no asfalto assim que a primeira loja abriu. Não dava pra você continuar vestindo minhas roupas, e o que sobrou daquele teu vestido tá no lixo. Comprei o que achei que prestava. Catarina abriu uma das sacolas, surpresa. Ela esperava roupas vulgares, talvez o tipo de peça curta e colada que Neto exigia que ela usasse para "marcar território". Em vez disso, viu tecidos leves e cores suaves. — Obrigada, Sete. De verdade — ela sussurrou, olhando para ele com uma gratidão que parecia incomodá-lo. — Não precisa agradecer. É necessidade básica — ele cortou, seco, embora seus olhos demorassem um segundo a mais no rosto dela. — Consegue se mexer? — Eu preciso de ajuda para ir até o chuveiro — ela admitiu, sentindo o rosto esquentar. — A médica disse para não molhar os pontos e eu não consigo equilibrar em um pé só ainda. Sem dizer uma palavra, Sete se aproximou. Ele não pediu licença; apenas deslizou os braços por baixo dela e a ergueu com a facilidade de quem carrega uma criança. Catarina instintivamente segurou em seus ombros largos, sentindo a firmeza dos músculos dele. Ele a levou até o banheiro luxuoso e a sentou em um banco de madeira tratada que ficava dentro do box espaçoso. — Vou ligar a ducha. Tenta manter o pé pra fora da água — ele instruiu, abrindo o registro. — Vou estar aqui fora. Qualquer coisa, grita. Sete saiu e fechou a porta. Catarina tomou seu banho com calma, sentindo a água morna lavar o restante do cansaço. Ela usou o sabonete dele, deixando que o cheiro masculino a envolvesse mais uma vez. Quando terminou, secou-se com cuidado, protegendo os pontos no cotovelo e no pé. — Sete! — chamou, um pouco sem jeito. A porta se abriu no mesmo instante. Ele não perguntou nada, apenas a envolveu em uma toalha seca e a carregou de volta para o quarto, depositando-a com cuidado sobre a cama. — Vou sair para você se trocar. Estarei no corredor. Quando terminar, avisa — ele disse, saindo em seguida e fechando a porta com um estalo firme. Catarina abriu as sacolas e sentiu os olhos marejarem. No topo da pilha, havia um vestido de algodão de cor clara, um tom de bege quase creme, com alças delicadas e uma saia rodada que ia até os joelhos. Era simples. Era feminino. Era exatamente o oposto do que o Abutre gostava. Neto queria que ela parecesse uma mulher fatal, uma posse cara; Sete tinha comprado algo que a fazia parecer... ela mesma. Ela vestiu a peça com dificuldade, sentindo o toque suave do tecido novo. Prendeu o cabelo em um coque frouxo, deixando algumas mechas caírem sobre o rosto ainda marcado pelo hematoma, mas que agora tinha uma luz diferente. — Sete! — ela gritou, a voz mais firme agora. Ele entrou e parou por um instante, a mão ainda na maçaneta. Seus olhos percorreram Catarina de cima a baixo. O contraste do vestido claro com o ambiente escuro e minimalista do quarto era gritante. Ela parecia um ponto de luz no meio daquela fortaleza de sombras. — Ficou bom — ele resumiu, embora o maxilar apertado denunciasse que ele tinha achado muito mais do que apenas "bom". — Vamos. O café tá na mesa. Ele atravessou o quarto e, novamente, a pegou no colo. Catarina já estava começando a se acostumar com a sensação de segurança que o abraço dele proporcionava. Ela encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração firme de Sete enquanto ele descia as longas escadas pretas da casa. Na cozinha, o cheiro de café fresco e pão na chapa preenchia o ar. Sete a colocou sentada em uma das banquetas altas da ilha de granito cinza. — Come — ele disse, colocando uma caneca de café na frente dela. — Hoje o dia vai ser longo. O rádio não parou de tocar. O Abutre já sabe que você cruzou a divisa, e ele tá perdendo o que restava da razão. Catarina pegou a caneca, sentindo o calor nas mãos. Ela olhou para Sete, que agora preparava a própria refeição com movimentos brutos e eficientes. — Eu vou te dar tudo o que você precisa, Sete — ela afirmou, a determinação brilhando nos olhos claros. — Se ele quer guerra, eu vou garantir que ele não tenha armas para lutar. Sete deu um sorriso de lado, um movimento rápido e perigoso. — É por isso que eu gosto de você, Catarina. Você tem fogo sob essa pele de boneca. Agora come, porque o Turano vai tremer hoje, e eu preciso que você esteja inteira para ver o fim do reinado daquele verme. Enquanto tomavam café no silêncio daquela manhã tensa, o destino do Rio de Janeiro estava sendo decidido entre fatias de pão e planos de vingança. A Primeira-Dama da Maré tinha morrido; agora, ela era a arma secreta do dono do Turano.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD