Após o café da manhã silencioso, Sete não permitiu que Catarina fizesse o menor esforço. Com a mesma naturalidade bruta com que carregava seu fuzil de guerra, ele a envolveu nos braços e a tirou da banqueta da cozinha. Catarina já não protestava; havia algo naquela força controlada que a fazia sentir, pela primeira vez em anos, que não precisava lutar sozinha.
Ele atravessou o corredor segurando ela e a levou para a sala de estar, um ambiente vasto dominado por um sofá de couro legítimo cinza-escuro que parecia abraçar quem nele sentava. Sete a depositou no canto do estofado, ajustando uma almofada atrás de suas costas com um gesto rápido e quase impaciente, como se quisesse esconder que se importava com o conforto dela.
— Fica aí. Vou buscar os mapas e o material pra você marcar os pontos — Sete disse, mas antes que pudesse se afastar, uma batida rítmica e forte ecoou na porta de entrada.
— Entra! — Sete autorizou, a voz já recuperando o tom de comando.
A porta pesada se abriu e Tico entrou. Ele era um homem de confiança, com o corpo marcado pelo sol e pelos anos de combate na linha de frente do Comando Vermelho. Ele trazia um rádio na mão que não parava de chiar e uma expressão de quem não dormia há muito tempo. Tico parou bruscamente ao ver Catarina ali, sentada no sofá do patrão, usando um vestido delicado que não combinava em nada com o ambiente de guerra.
— Sete, os radinhos da divisa tão explodindo. O Abutre tá maluco, tá mandando os moleques darem tiro pro alto na mata só pra marcar território. Ele já sabe que ela tá aqui — Tico disse, sem desviar os olhos de Catarina.
— Eu sei. Deixa o animal latir — Sete respondeu calmamente, voltando-se para o amigo. — Tico, essa é a Catarina. Catarina, esse é o Tico. Ele é meu irmão de vida e o único cara neste morro que tem autorização pra falar por mim se eu não estiver por perto.
Tico apenas assentiu com respeito, reconhecendo a importância que Sete estava dando àquela mulher. Sete trouxe uma pasta com mapas topográficos e imagens de satélite impressas em alta resolução, espalhando-as na mesa de centro de vidro à frente de Catarina.
— Agora, Catarina — Sete sentou-se na beira da mesa, de frente para ela, com os olhos dourados fixos nos dela. — Mostra pra gente o que o Abutre esconde por baixo daquela arrogância.
Catarina respirou fundo. Ela se inclinou para frente, ignorando a pontada de dor no pé, e seus olhos percorreram o mapa do Complexo da Maré. Durante anos, ela foi obrigada a ouvir as reuniões de Neto, sentada como um objeto decorativo enquanto ele bebia e se gabava de seus segredos. Ele achava que ela não entendia nada. Ele achava que ela era burra.
— Aqui — ela começou, apontando com um dedo trêmulo para uma área que parecia ser apenas uma oficina de caminhões desativada perto da entrada sul. — Neto nunca guarda as armas pesadas perto da sede. Ele tem medo de intervenção federal. Essa oficina tem um subsolo blindado. É lá que ele esconde os fuzis .50 e os lançadores de granada que ele comprou no mês passado.
Tico trocou um olhar rápido com Sete.
— A gente sempre achou que ali fosse só desmanche — Tico murmurou, já pegando um caneta para marcar o ponto.
— Não é — Catarina continuou, a voz ganhando firmeza à medida que a memória dos abusos se transformava em munição.
— No fundo da oficina, tem um container enterrado. Ele entra por um elevador hidráulico disfarçado de rampa de alinhamento.
Ela deslizou o dedo para outra parte do mapa, uma área de casas humildes perto da divisa leste.
— Estão vendo essas três casas aqui? Elas parecem normais, vivem famílias de fachada lá dentro, mas os fundos são todos interligados. É o maior depósito de drogas sintéticas e cocaína pura dele. Ele chama de "Cofre Branco". O dinheiro vivo também fica lá, dentro de paredes falsas de gesso.
Sete observava o detalhismo dela. Ela falava com uma precisão técnica que o impressionava.
— E as rotas de fuga dele? Se eu apertar o cerco, pra onde ele corre?
Catarina olhou para Sete, um sorriso frio e triste surgindo em seus lábios cortados.
— Ele não corre, Sete. O ego dele não deixa. Mas ele tem uma passagem. Começa embaixo da suíte principal da casa dele e sai atrás na mata, onde tem um carro simples fica ligado vinte e quatro horas por dia. Se ele se sentir acuado, ele vai tentar fugir pelo estrada em direção a marina. Para Angra, onde ele tem uma ilha.
— A ilha do contrato — Catarina acrescentou, a voz tremendo de ódio. — É pra lá que ele ia me mandar. Ele ia me entregar pra um parceiro do Comando dele naquele lugar, no meio do oceano, pra ninguém ouvir meus gritos.
Tico ouvia tudo com os olhos brilhando. Ele olhou para Sete, a mão já tateando o cabo do fuzil pendurado no ombro, a adrenalina de soldado pedindo ação.
— Sete, a informação é de ouro. Se a gente montar os comboios agora, a gente pega eles de surpresa enquanto o morro ainda tá de ressaca do baile. Dá pra invadir, tomar o armamento e recuar antes do sol baixar. Vamos atacar agora?
Sete permaneceu imóvel. Seus olhos dourados não estavam no mapa, mas fixos em um ponto invisível na parede, sua mente processando mil variáveis por segundo. Ele pegou um cigarro, acendeu e tragou lentamente, deixando a fumaça serpentear pelo ar frio da sala.
— Não — respondeu Sete, a voz soando como o metal de uma lâmina. — A gente não vai dar um passo fora da nossa linha.
Tico franziu o cenho, confuso.
— Como assim, irmão? A gente tem a faca e o queijo. Se a gente esperar, ele pode mover a carga. É a chance de destruir o Abutre de vez!
Sete deu um sorriso frio, o sorriso de um mestre de xadrez que já viu o xeque-mate dez jogadas antes do adversário.
— Tico, o Abutre é um animal movido pelo ego e pelo desespero. Ele perdeu a mulher, perdeu a honra na frente dos soldados e tá perdendo a razão. Se eu atacar agora, eu sou o agressor. Eu gasto munição, gasto vida de soldado meu e dou motivo pra ele se vitimizar com os parceiros do Comando dele.
Ele se inclinou para frente, a aura de estrategista emanando de cada poro.
— Eu quero que ele venha. Eu quero que ele cometa o erro de invadir o Turano. Quando ele atravessar a divisa com o ódio cegando os olhos, ele vai estar no meu terreno, sob as minhas regras. Ele vai se expor, vai gastar o que não tem e, quando ele estiver exausto e frustrado por não conseguir entrar na minha fortaleza, aí sim... a gente usa as informações da Catarina pra golpear onde dói, na retaguarda dele.
Catarina observava Sete com um misto de temor e admiração. Neto era um trator que passava por cima de tudo; Sete era um cirurgião que esperava o momento exato do corte.
— Ele é impulsivo, Sete — Catarina interveio, a voz baixa. — Ele vai vir com tudo. Ele não suporta a ideia de você estar com algo que ele acha que é dele.
— Exatamente — confirmou Sete, olhando para ela. — O orgulho dele é a corda que eu vou usar pra enforcar ele. Tico, avisa a contenção: fiquem nos postos, mas não provoquem. Quero que pareça que estamos apenas nos defendendo. Deixa ele achar que tem uma chance. Deixa ele se cansar contra os nossos muros.
Tico assentiu, compreendendo finalmente a jogada de mestre. Não era sobre quem batia primeiro, era sobre quem restava de pé quando a poeira baixava. No Turano, Sete era o mestre do tempo e da paciência.
— Entendi, irmão. Vou reforçar as barricadas da divisa. Se ele pisar no nosso chão, ele vai encontrar o inferno, mas só quando você der a ordem.
Sete apenas fez um gesto curto com a mão, dispensando o braço direito. Quando a porta se fechou, ele voltou sua atenção para Catarina. O olhar agressivo de líder deu lugar a algo mais denso, uma proteção silenciosa.
— Você deu as armas, Catarina. Agora, senta e assiste como um homem de verdade acaba com um moleque — ele disse, com uma gentileza bruta que a fez sentir que, naquele sofá cinza, ela era a pessoa mais segura de todo o Rio de Janeiro.