SILENCIO DA MORTE

1304 Words
O silêncio não é a ausência de som. No topo do Morro do Turano, o silêncio é uma arma carregada. É o vácuo que a bala preenche antes que o alvo sinta a dor; é o aviso prévio de que a ordem foi estabelecida. Do meu terraço, eu não apenas observo o Rio de Janeiro; eu o governo de cima para baixo, sentindo o pulsar das artérias de asfalto que serpenteiam a cidade. Meu nome é Calebe, mas o mundo me conhece como Sete. Tenho trinta anos e uma história escrita em cicatrizes e tinta. Enquanto alguns buscam o poder pelo barulho, eu o conquistei pela estratégia. Sou o braço direito da cúpula, o homem de confiança do "Conselho", e para os meus irmãos de facção, sou o sangue que mantém o Comando Vermelho batendo forte nesta zona da cidade. Aqui, a lei é lei, e quem atravessa o caminho da nossa irmandade não recebe uma segunda chance. Meu pai mor.reu em uma troca de tiro a anos atrás e minha coroa, hoje vive em outro estado com uma tia. Fiz questão de tirar ela dessa vida de risco, de preocupação, de ameaça. Falo com elas quase todos os dias, porém, prefiro manter ela segura. Caminho até o parapeito, sentindo o ar úmido da noite. Tenho um metro e noventa de altura e um porte físico moldado não em academias de luxo, mas no rigor do treinamento militar que recebi anos atrás e na brutalidade das invasões. Meu corpo é um mapa de guerra. Nas costas, em letras góticas que ocupam toda a extensão das minhas escápulas, está tatuado o nome do meu domínio: TURANO. É o meu lar, meu império, minha responsabilidade. No peito, logo acima do coração, carrego as iniciais da nossa irmandade, um lembrete constante de que ninguém é maior que a engrenagem. E no pescoço, logo abaixo da orelha direita, o número 7 em algarismos romanos. Dizem que sobrevivi a sete atentados antes de chegar ao topo. Dizem que tenho sete vidas. Eu prefiro acreditar que a morte simplesmente teme o trabalho que teria para me levar. Diferente do circo que acontece nos morros vizinhos, o Turano sob o meu comando é uma máquina tática. Eu não ostento correntes de ouro que pesam mais que a inteligência de quem as usa. Minha autoridade não precisa de brilho; ela é sentida no estalo de um fuzil e na lealdade dos homens que dariam a vida por um comando meu. Acendo um cigarro, a brasa iluminando por um segundo meu rosto de traços angulares e o olhar gélido, de um castanho tão claro que parece ouro queimado. Exalo a fumaça lentamente, observando as luzes do Complexo da Maré, lá longe. A Maré é o território da Terceira Facção, o ninho dos nossos maiores rivais. E lá, no comando daquela bagunça, está o Abutre. Neto, o tal Abutre, é tudo o que eu desprezo em um homem de poder. Ele é barulhento, burr.o e governa pelo terror gratuito, não pela estratégia. Ele gosta do show, da humilhação, de ser o centro das atenções. Para ele, o crime é um palco. Para mim, o crime é uma empresa que exige sangue-frio. Ele se acha um rei porque herdou um império e se cercou de puxa-sacos que tremem diante dos seus surtos. Ele é um carniceiro que se alimenta dos restos; eu sou o predador que escolhe o momento exato de dar o bote. — Patrão? — A voz de Tico, meu braço direito e irmão de vida, quebra o meu transe. Tico entra no terraço com a postura de quem carrega notícias que não podem esperar. Ele é mais que um soldado; é o cara que estava comigo quando ainda éramos apenas bucha de canhão, antes de subirmos os degraus da hierarquia na força do ódio e da competência. No Comando Vermelho, a irmandade é sagrada. — Fala, Tico — respondo, sem desviar os olhos do horizonte. — O movimento na divisa tá estranho. O Abutre tá em festa lá do outro lado. Fogos, baile, o barulho tá chegando aqui. Parece que o verme fechou um negócio grande. Tá se achando o dono do Rio. Um sorriso frio surge no canto dos meus lábios. — Deixa o moleque brincar de rei, Tico. Quanto maior a festa, maior é a distração. Homem que comemora antes da hora esquece de vigiar a retaguarda. — Os moleques da contenção estão em alerta. A ordem é não deixar nem sombra atravessar a divisa sem autorização — Tico continua, checando o rádio na cintura. — Correto. Aqui no Turano, nada entra e nada sai sem o meu carimbo. O Comando Vermelho não aceita falha. Se algum soldado do Abutre se perder no caminho e pisar no nosso chão, a ordem é o de sempre: bala neles e manda o resto de volta em um saco plástico para o Neto entender que aqui o buraco é mais embaixo. Eu sinto o peso da responsabilidade que carrego. Ser o braço direito lá dentro, no conselho do Comando, significa que minhas decisões afetam milhares de famílias. Eu protejo os meus. Garanto que a comunidade tenha o que o Estado n**a, mas em troca, exijo ordem absoluta. No Turano, não há espaço para o caos que o Abutre espalha por onde passa. Volto para dentro, a luz fraca da cobertura refletindo nas tatuagens dos meus braços — labaredas e crânios que se misturam a nomes de irmãos que já caíram. Cada centímetro de pele marcada é um juramento de que não vou parar até que o Comando seja a única voz ouvida nesta cidade. — Sete, você acha que ele vai tentar alguma coisa agora que tá cheio de si? — Tico pergunta, ajustando o fuzil no ombro. — O Abutre é previsível, irmão. Ele vai gastar o dinheiro que ganhou hoje com pu.ta, pó e ostentação. Ele não tem visão de futuro. Ele quer ser temido hoje; eu quero que meus netos ainda herdem o respeito que eu construí. Mas fica de olho. Homem desesperado é perigoso, mas homem arrogante é um alvo fácil. Caminho até a mesa de madeira no centro da sala, onde um mapa da região está estendido, marcado com as áreas de influência. Meus dedos calejados traçam a linha da divisa. O território do Abutre é uma mancha que eu pretendo apagar em breve. Não por ganância, mas por higiene. O Rio é pequeno demais para dois estilos tão diferentes de governo. O rádio na minha cintura chia repentinamente. — Patrão, patrulha da divisa leste na escuta. Tem algo descendo a trilha do mato. Não é soldado, tá sozinho. Repito, movimentação individual vindo do lado da Maré. Meus olhos se estreitam. Tico olha para mim, já com a mão no gatilho. — Sozinho? — pergunto no rádio, minha voz soando como o metal frio. — Positivo, Sete. Parece alguém em fuga. Tá cruzando a divisa agora. Eu olho para o relógio. Meia-noite. O horário em que os pecados costumam sair para passear. — Não atirem ainda — ordeno. — Deixa atravessar a linha e capturem. Leva para sala. Se for espião do Abutre, vai morrer devagar. Se for outra coisa... eu mesmo quero ver. Desligo o rádio e olho para Tico. — Parece que a festa do Neto teve um convidado saindo mais cedo. Vamos ver quem é o louco que acha que o Turano é terra de ninguém. Eu sou o Sete. O braço direito do Comando, o dono do Turano e o pesadelo de quem ousa atravessar o meu caminho. A noite está apenas começando, e eu sinto o cheiro de mudança no ar. Seja o que for que está vindo daquele morro rival, vai descobrir que entrar no meu território é fácil; o problema é sobreviver ao que acontece depois que as portas se fecham.
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