FESTA DA FACÇÃO

1135 Words
O salão de reuniões cheirava a uma mistura claustrofóbica de cigarro, uísque e o suor frio de homens que sabiam que um erro naquela mesa significava uma cova rasa. Neto estava no seu pedestal. Ele se inclinava para frente, gesticulando com o cigarro entre os dedos, a voz rouca sobrepondo-se ao burburinho dos outros líderes do Comando. Eu permanecia imóvel ao seu lado, uma estátua de carne e osso, sentindo o peso do seu braço sobre meus ombros como se ele fosse um dono marcando seu gado. De repente, ele se levantou, a cadeira arrastando com um som estridente contra o piso de granito. O silêncio caiu sobre a mesa instantaneamente. — Vou trocar uma ideia em particular com o Chefe aliado lá na sala de trás — Neto anunciou, a voz carregada daquela arrogância que só os homens que se sentem deuses possuem. Ele se inclinou, o rosto descendo até a altura do meu ouvido, o hálito quente de uísque batendo na minha bochecha. — Catarina, você fica aqui. Não levanta, não circula e não abre a por.ra da boca para ninguém. Fica aí, bonitinha, esperando o teu dono. Entendeu? — Entendi, Neto — respondi, sem olhar para ele. Minha voz era um sussurro mecânico, desprovido de qualquer rastro de alma, de emoção. Era automatico. Ele deu dois tapinhas condescendentes no meu rosto, um gesto que pretendia ser carinhoso, mas que carregava toda a brutalidade de sua posse, e se afastou acompanhado pelos seus seguranças de elite. A porta pesada de carvalho se fechou atrás dele, deixando-me ali, cercada por homens armados e o vazio de uma sala que me sufocava. Foi então que eu as vi. No canto oposto do salão, encostadas em um bar improvisado, um grupo de mulheres — as "convidadas" da noite, ou as put.as de luxo que o morro importava para entreter os soldados — me encarava. Elas usavam roupas mínimas, cores vibrantes e sorrisos predatórios. Uma delas, uma loira oxigenada com um vestido que parecia costurado ao corpo, apontou discretamente na minha direção e sussurrou algo no ouvido da outra. Ambas explodiram em uma risada debochada, daquelas que pretendem ser ouvidas. Elas riam da "Primeira-Dama". Riam da mulher que usava um colar de diamantes, mas não tinha permissão para se levantar de uma cadeira. Riam da minha dignidade estilhaçada que todo o morro conhecia. Elas sabiam quem Neto tinha levado para a cama na noite anterior; talvez uma delas fosse a dona do perfume que eu sentira no pescoço dele minutos atrás. Eu as observei por um longo momento. Não senti raiva. Não senti ciúme. Não senti sequer aquela pontada de humilhação que costumava arder no meu peito nos primeiros meses. Eu apenas olhei, com o olhar vago de quem observa formigas em um jardim. Elas achavam que estavam vencendo porque tinham o corpo de Neto por uma noite, enquanto eu tinha apenas o título. O que elas não entendiam era que eu daria tudo — as joias, as roupas, a casa — para ser qualquer coisa, menos o que eu era ali. O riso delas não me atingia porque eu não dava importância. Para mim, elas eram apenas mais um acessório daquela decoração sem graça, sem vida. Eu era a prisioneira de luxo; elas eram as prisioneiras de passagem. No fim das contas, estávamos todas no mesmo lixo, apenas em camadas diferentes. Mantive minha coluna ereta, as mãos cruzadas sobre o colo, os olhos fixos em um ponto invisível na parede. Eu era a por.ra de um troféu, e troféus não reagem a provocações de plateia. Eu estava além daquilo. Minha mente já não estava naquela sala. Eu estava contando os passos até a saída, calculando o tempo que os soldados levariam para trocar o turno na guarita principal, imaginando o frio da chuva na minha pele quando eu finalmente corresse para a divisa. Cerca de quarenta minutos se passaram. Quarenta minutos em que fui o centro dos olhares cobiçosos dos vapores e das nojentas amantes do meu marido. Eu não pisquei. Eu não mudei de posição. A porta de carvalho se abriu novamente com um estrondo. Neto saiu de lá rindo, abraçado a um dos figurões da facção que financiava o esquema. Ele estava radiante, com os olhos injetados de adrenalina e sucesso. O negócio, fosse ele qual fosse — armas, quilos de pó, ou vidas humanas — tinha sido fechado. Ele caminhou em minha direção com passos largos, a postura de quem tinha acabado de conquistar o mundo. — Tudo certo, por;ra! — ele exclamou, batendo com a mão na mesa, fazendo os copos de cristal tilintarem. — O jogo virou, Catarina! A Facção vai dominar o Rio de Janeiro inteiro antes do final do mês. Ele se sentou novamente, puxando minha cadeira com força para perto da dele, colando nossos corpos. Ele estava feliz, uma felicidade maníaca e perigosa. — Viu só? — ele sussurrou, a voz carregada de uma excitação sombria. — Eu te disse que você me dava sorte. Todo mundo lá dentro perguntando quem era a deusa sentada na minha mesa. O Abutre não é qualquer um, não. Eu tenho o melhor de tudo. Ele passou o braço pelo meu pescoço, apertando-me contra o seu peito suado. — Tá vendo aquelas piranhas ali no canto? — Ele apontou para as mesmas mulheres que estavam rindo de mim. Elas imediatamente endireitaram-se, sorrindo para ele com adoração fingida. — Elas não chegam aos teus pés, boneca. Você é o meu ouro. Amanhã vou te levar naquela joalheria do shopping de novo. Pode escolher o que quiser. O patrão tá generoso hoje. — Obrigada, Neto — respondi, forçando um pequeno sorriso que não chegou aos meus olhos. — É assim que eu gosto! — Ele deu uma gargalhada alta, chamando a atenção de todos. — Hoje o morro vai ferver! Vai ter baile, vai ter queima de fogos. Vamos comemorar porque o Abutre é intocável! Ele começou a gritar ordens para os vapores, organizando a festa que duraria até o amanhecer. Enquanto ele se gabava, distribuindo tapas nas costas dos soldados e bebendo uísque direto da garrafa, eu olhei para o relógio na parede. Ele achava que tudo tinha dado certo. Ele achava que tinha conquistado o Rio. Ele achava que eu era o seu ouro guardado a sete chaves. Ele não percebia que, quanto mais alto ele voava em sua arrogância, mais fácil seria para mim desaparecer nas sombras que ele mesmo criava. O Abutre estava feliz, celebrando sua glória, sem saber que aquela era a última noite em que ele veria o brilho dos meus olhos, mesmo que fosse o brilho do puro ódio. A celebração dele era o meu sinal verde. No meio da euforia, do barulho e do caos do sucesso do Abutre, a prisioneira finalmente encontraria a porta aberta.
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