AYLA - CALMARIA

1009 Words
O ronco da moto de Tico ao estacionar em frente ao hospital não foi o som de uma chegada comum; foi o grito de um animal que acabara de ver o rastro do caçador. Ele entrou no posto de saúde com os ténis pesados, o sangue de porco das flores do Abutre ainda manchando o solado, deixando marcas escuras no piso branco que ele tanto tentava manter limpo para ela. Suas mãos tremiam, não de medo, mas de uma adrenalina corrosiva que implorava para descarregar o pente do fuzil na direção da Maré. Quando ele empurrou a porta do Quarto 04, tentou respirar fundo, forçando os ombros a relaxarem e o maxilar a destravar. Ele não queria que ela sentisse o cheiro do ódio que ele trazia lá de baixo. Mas Ayla não era uma garota comum. Ela era uma sobrevivente, e sobreviventes têm sentidos aguçados para o perigo e para a dor alheia. Ela estava acordada, os olhos de mel fixos na porta. Assim que Tico entrou, ela percebeu a mudança. O brilho nos olhos dele estava diferente — mais escuro, mais selvagem. Ele não se sentou de imediato; ficou parado ao pé da maca, encarando o nada, com os punhos cerrados ao lado do corpo. Ayla moveu a mão esquerda devagar. Cada centímetro doía, mas ela ignorou a fisgada nas costelas. Ela bateu levemente no colchão, chamando a atenção dele. — Eu tô aqui, pequena... — Tico disse, a voz saindo rascante, falhando por causa da fúria contida. — Só... um problema lá na boca. Já foi resolvido. Ele se sentou na poltrona, mas não relaxou. Estava inclinado para frente, a cabeça baixa, os cotovelos apoiados nos joelhos. O silêncio no quarto era denso. Tico sentia que, se falasse mais uma palavra, acabaria socando a parede. Foi então que ele sentiu. Um toque morno, quase etéreo, tocou as costas de sua mão calejada. Ayla tinha esticado o braço o máximo que podia. Seus dedos finos, ainda marcados pelos traumas, buscaram os dele. Ela não conseguia apertar com força — o corpo dela ainda era uma coleção de ossos quebrados —, mas ela envolveu o dedo indicador de Tico com a palma de sua mão. Tico levantou o rosto lentamente. Ayla o encarava com uma intensidade que o desarmou por completo. Não havia medo naqueles olhos; havia uma compreensão profunda. Ela não sabia o que estava escrito nos cartões do Abutre, mas sabia que Tico estava sofrendo por ela. Ela usou o resto de força que tinha para puxar a mão dele um pouco mais para perto. Seus olhos brilhavam com lágrimas que não caíam, e ela balançou a cabeça negativamente, de forma mínima, como se dissesse: "Não deixa ele te vencer. Não deixa o ódio dele te transformar no que ele é." — Tu não entende, Ayla... — Tico sussurrou, a voz quebrada, enquanto virava a mão para cima e entrelaçava seus dedos nos dela com uma delicadeza desesperada. — Aquele verme... ele não tem limite. Ele quer tirar tudo de ti. Ele quer tirar a tua paz até aqui dentro. Ayla fixou o olhar no dele. Ela manteve o contato visual, recusando-se a desviar, usando o brilho de suas pupilas para confortar o homem que era o seu escudo. Ela levou a mão de Tico até o próprio rosto, encostando a palma áspera e enorme dele na sua bochecha menos inchada. Era um gesto de entrega, de confiança absoluta. Ela estava dizendo, no silêncio daquela dor, que enquanto ele estivesse ali, o Abutre era apenas uma sombra distante. Tico sentiu o coração desacelerar. O calor da pele dela agia como um bálsamo sobre a sua fúria. Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo a textura do rosto de Ayla contra sua mão. A agressividade que ele sentira na boca do morro começou a se transformar em algo mais profundo, algo que doía de um jeito diferente: um amor protetor que ele nunca imaginou ser capaz de sentir. — Eu nunca vou deixar ele encostar em ti de novo — ele jurou, abrindo os olhos e encontrando os dela a poucos centímetros de distância. — Ele pode mandar as flores que quiser, pode gritar o que quiser na Maré... pra chegar em ti, ele vai ter que me apagar primeiro. E eu não pretendo ir a lugar nenhum. Ayla soltou um suspiro trêmulo, uma lágrima solitária finalmente escapando e molhando o polegar de Tico. Ela apertou os dedos dele com o máximo de força que conseguiu reunir — um aperto fraco para o mundo, mas que para Tico pareceu o aperto mais forte que já sentira na vida. O clima entre eles mudou. Não era mais apenas o guarda e a refugiada. Havia uma conexão forjada no sangue e no cuidado. Tico se inclinou um pouco mais, ficando com o rosto próximo ao dela. O cheiro de lavanda do shampoo dela misturava-se ao cheiro de chuva que vinha da janela. — Tu é a coisa mais corajosa que eu já vi, sabia? — ele murmurou, e dessa vez, ele permitiu que um pequeno sorriso de canto surgisse, apenas para ela. Ayla tentou retribuir. O brilho nos olhos dela era o de quem tinha encontrado um porto seguro no meio da tempestade. Ela não precisava de palavras; o toque da mão dele na sua pele e a forma como ele a olhava diziam tudo o que ela precisava saber. Tico não soltou a mão dela naquela tarde. Ele encostou a cabeça na beirada da maca, mantendo o contato físico, sentindo a respiração dela se estabilizar. O ódio pelo Abutre ainda estava lá, mas agora estava guardado em uma gaveta trancada. Ali, naquele pequeno quarto de hospital, a única coisa que importava era o calor daquela mão pequena e a promessa silenciosa de que, custasse o que custasse, eles passariam por aquilo juntos. O Turano podia estar se preparando para a guerra, mas no Quarto 04, a paz tinha sido selada com um aperto de mãos e um olhar que valia mais que mil promessas de vingança.
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