SERÁ OUTRA PRISÃO?

1381 Words
A moto de Sete acelerou pela última vez antes dele desligar o motor diante da entrada de sua fortaleza particular. O silêncio que se seguiu no topo do Turano era quase sagrado, quebrado apenas pelo estalar do metal quente do escapamento. Com uma precisão que ignorava qualquer cansaço, ele desceu da máquina e, com a mesma facilidade com que carregava um fuzil, envolveu Catarina nos braços, tirando-a de cima do tanque. — Segura no meu pescoço — ele ordenou, a voz soando como um comando baixo e firme. Catarina obedeceu, as mãos pequenas e trêmulas enroscando-se na nuca dele, onde a pele era quente e marcada pela tinta preta das tatuagens. Sete a carregou para dentro de casa. Ao cruzar a garagem, o ambiente que se revelou era o reflexo exato do homem que o governava. Não havia a cafonice dourada ou a ostentação berrante da casa do Abutre. O refúgio de Sete era uma mistura de minimalismo brutal: o chão de cimento queimado brilhava sob as luzes embutidas, e os móveis eram uma sucessão de linhas retas em tons de preto, branco e cinza chumbo. Era limpo, frio e absurdamente organizado. Ele subiu as escadas longas e largas com passos firmes. Catarina sentia o cheiro dele a cada movimento: uma mistura inconfundível de amadeirado, pólvora e maco.nha que parecia impregnado na própria pele. Era um cheiro que impunha respeito, que falava de poder sem precisar gritar. Ao entrarem no quarto principal, a imensidão do cômodo a intimidou. A cama era vasta, coberta por lençóis de um cinza profundo, e a iluminação era indireta, criando sombras suaves nas paredes. Sete não parou ali; ele seguiu direto para o banheiro de mármore branco e preto. Com um cuidado que contrastava com sua figura bruta, ele a sentou na borda da banheira. — O banho vai ajudar a tirar o cheiro daquela lama — ele disse, mantendo os olhos nos dela por um segundo a mais do que o necessário. Sete inclinou-se, abrindo as torneiras. O som da água quente batendo no fundo da banheira preencheu o espaço. Ele ajustou a temperatura com a palma da mão, testando o calor com uma atenção meticulosa. — Toma teu banho com calma. Tira essa roupa suja. Vou deixar umas toalhas aqui. — Ele se levantou, a figura alta quase tocando o teto do banheiro. — Vou estar logo ali atrás da porta. Quando acabar, grita. Não tenta sair sozinha, Catarina. Se tu escorregar e estourar esses pontos, eu vou ficar puto. Entendeu? — Entendi — ela sussurrou, a voz ainda rouca de tanto chorar. Sete saiu e encostou a porta, deixando-a na privacidade do vapor que começava a subir. Catarina, com movimentos lentos e dolorosos, tirou o que restava de seu vestido. Ao entrar na água, soltou um suspiro que pareceu carregar três anos de fôlego preso. Sem o curativo temporário, ela observou o pé. Os pontos dados na clínica eram precisos, uma linha escura que cortava sua pele pálida. Com a ponta dos dedos, ela limpou o sangue seco ao redor da ferida, fazendo o mesmo com o cotovelo ralado. A água quente era um bálsamo. Ela mergulhou os cabelos, esfregando o couro cabeludo até que todo o rastro da Maré — a poeira, o cheiro de Neto, o medo da mata — fosse ralo abaixo. Por alguns minutos, ela fechou os olhos e fingiu que o mundo lá fora não existia. Ali, entre as paredes de mármore do Sete, ela se sentia, pela primeira vez, limpa. Trinta minutos depois, a água já começava a esfriar. Catarina saiu com dificuldade, sentando-se na borda e enrolando-se em uma toalha branca, macia e pesada, que cheirava a amaciante fresco. Ela respirou fundo, buscando coragem. — Sete? — chamou, a voz ecoando no azulejo. — Acabei. A porta se abriu quase instantaneamente. Sete entrou com a expressão séria de sempre, mas seus olhos percorreram o rosto dela, agora limpo, notando a vermelhidão do lábio cortado e o roxo que começava a escurecer em sua bochecha. Ele pediu licença com um aceno curto de cabeça e, novamente, a ergueu como se ela fosse feita de papel. Ele a levou para a cama e a depositou no centro do colchão macio. — Deixei uma muda de roupa pra tu ali — ele apontou com o queixo para o pé da cama. — É uma camiseta minha, tá limpa. E tem uma cueca nova também, lacrada, que eu nunca usei. É o que tem pra hoje. Amanhã eu mando alguém buscar roupas do teu tamanho. Catarina olhou para as peças. Uma camiseta de algodão preto, enorme, e a peça íntima masculina. Era estranho, mas era seguro. — Vou buscar a pizza que pedi. Vê se consegue te vestir sem cair da cama — ele resmungou, mas havia uma nota de zelo em sua grosseria. Ele saiu do quarto e Catarina ouviu seus passos descendo as escadas. Com esforço, ela vestiu a roupa. A camiseta de Sete batia no meio de suas coxas, as mangas caindo quase nos cotovelos. O tecido tinha o cheiro dele, o que a fazia se sentir estranhamente protegida, como se estivesse vestindo uma armadura emprestada. Ela pegou uma toalha menor e tentou secar os cabelos, deixando-os ondulados e úmidos sobre os ombros. Sem a máscara de maquiagem pesada que Neto a obrigava a usar, Catarina parecia outra pessoa: mais jovem, mais real, com uma beleza vulnerável que brilhava através das marcas da violência. Dez minutos depois, o som da porta do quarto abrindo a fez olhar para cima. Sete entrava carregando uma caixa de pizza e dois copos de refrigerante. Ele parou abruptamente no meio do caminho. Seus olhos dourados travaram em Catarina. Ela estava sentada, encostada na cabeceira, com as pernas cobertas pelo lençol cinza e sua camiseta preta moldando o corpo dela de forma que ele nunca imaginou que uma peça de roupa sua poderia fazer. Sem o rímel borrado e o batom manchado, o rosto dela era uma pintura. A pele era impecável, apesar do hematoma, e os olhos tinham uma clareza que o atingiu em cheio. Sete sentiu um soco no estômago. Ele já tinha visto mulheres bonitas, já tinha tido as mais cobiçadas do crime em sua cama, mas nunca tinha visto nada como Catarina vestindo suas roupas dentro de seu quarto. Ela não era apenas bonita; ela era devastadora. — Que foi? — ela perguntou, sentindo o peso do silêncio dele. Sete pigarreou, recuperando a compostura e endurecendo as feições para esconder o fato de que seu coração tinha acabado de errar uma batida. — Nada. Só não achei que minha blusa ia parecer um vestido de gala em ti — ele disse, caminhando até a cama e colocando a pizza entre os dois. — Come. Tu precisa de energia pra não desmaiar amanhã quando a gente for conversar sério. Ele se sentou na beirada da cama, abrindo a caixa. O cheiro de queijo e molho de tomate preencheu o ar. Ele pegou um pedaço e entregou na mão dela, os dedos roçando nos dela por um breve segundo. — Tá melhor? — ele perguntou, sem olhar diretamente para ela, fingindo estar muito interessado na sua própria fatia de pizza. — Tô — Catarina respondeu, dando a primeira mordida. A comida parecia a melhor coisa que já tinha provado na vida. — Obrigada, Sete. Por tudo. Ele soltou um som nasalado, algo entre um suspiro e um resmungo. — Não me agradece ainda. Tu tá no meio de uma guerra agora, Catarina. E eu não sou um santo. Vamos ver... — ele finalmente olhou para ela, e a intensidade de seus olhos dourados a fez perder o fôlego — ... se o que você tem pra dizer, vale a pena. Catarina assentiu, sentindo uma segurança que não sentia há anos. Ela olhou para o homem tatuado e bruto à sua frente e percebeu que, embora estivesse no covil de um predador, ele era o único que tinha guardado suas garras para não feri-la ainda mais. No silêncio do quarto cinza, entre a pizza e o cheiro amadeirado, o destino de dois morros rivais começava a ser traçado por uma mulher ferida e um homem que tinha acabado de descobrir que o seu maior pecado seria, talvez, querer salvá-la de verdade.
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