O silêncio na sala da sede era grosso, quebrado apenas pelos soluços convulsivos de Catarina, que permanecia encolhida no chão de ladrilhos frios. O sangue que brotava de seu pé e de seu cotovelo já começava a secar, deixando manchas escuras que denunciavam sua fragilidade diante daquele império de concreto e ferro. Sete permanecia imóvel, a silhueta imponente dominando o espaço, os olhos dourados fixos na mulher que parecia se desfazer em lágrimas aos seus pés.
A porta de ferro rangeu, batendo contra a parede com um som metálico que ecoou como um tiro. Falcão entrou na sala, a postura arrogante e o peito estufado pela adrenalina da captura.
— Patrão, a área tá limpa. Já reforcei a contenção se os vermes da Maré tentarem vir atrás do prejuízo — Falcão anunciou, sua voz grossa e áspera preenchendo o ambiente.
Ao ouvir aquela voz, Catarina teve um espasmo. O terror que ela sentira na mata, quando foi puxada pelo cabelo e jogada como lixo, voltou com força total. Em um movimento puramente instintivo, movido pelo pânico cego, ela se levantou do chão com um grito sufocado. Ignorando a dor lancinante no pé aberto, ela tropeçou em direção ao único porto que parecia capaz de oferecer alguma sombra de proteção naquela sala: Sete.
Ela se agarrou ao braço tatuado de Sete, as unhas cravando-se na pele dele com uma força desesperada. O corpo dela tremia tanto que os dentes batiam.
— Tira ele daqui... por favor, tira ele daqui! — ela implorou, a voz saindo em um sussurro estrangulado, escondendo o rosto contra o ombro do homem.
— Eu só falo... eu só falo se ele não tiver perto. Não deixa ele me tocar de novo... por favor.
Sete sentiu o peso do corpo dela contra o seu. Ele não se moveu, não a abraçou, mas seus músculos se retesaram como cordas de aço sob a pele. Sua expressão, que já era fria, tornou-se sombria. Ele baixou o olhar para a mulher agarrada a ele, sentindo o calor das lágrimas dela ensoparem o tecido de sua camiseta preta.
— Por que você está com medo dele, Catarina? — Sete perguntou, sua voz baixa, vibrando de uma irritação contida que fez os soldados na sala darem um passo atrás.
Catarina não respondeu com palavras. Ela apenas soltou um soluço mais forte e apertou ainda mais o braço dele, enterrando os dedos nas cicatrizes e na tinta de suas tatuagens, como se Sete fosse uma muralha que pudesse escondê-la do mundo.
Sete usou a mão livre para segurar o queixo de Catarina, forçando-a a levantar o rosto. Foi então que ele viu. Sob a luz crua das lâmpadas brancas, a extensão do dano era evidente. O rímel borrado não conseguia mais esconder as manchas roxas que começavam a florescer em sua pele pálida, uma marca nítida de dedos no lado do rosto. Seu lábio inferior estava inchado e cortado, com um rastro de sangue seco no canto da boca que ela não tinha tido tempo de limpar.
O olhar de Sete se deslocou lentamente de Catarina para Falcão, que ainda ostentava um sorriso convencido no canto da boca.
— Falcão — Sete chamou. O tom de voz era perigosamente calmo, o tipo de calma que precede uma execução. — Você bateu nela?
Falcão deu de ombros, soltando uma risada seca, sem perceber que o ar na sala tinha acabado de se tornar rarefeito.
— Ah, patrão, tu sabe como é... A mina é da Maré. É a p**a do morro inimigo. Chegou cheia de marra, querendo ditar regra, tive que mostrar pra ela qual é a hierarquia daqui. Dei uns corretivos pra ela baixar a bola.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sete soltou o rosto de Catarina com uma delicadeza que contrastava violentamente com a rapidez do que veio a seguir. Em um movimento tão fluido que os olhos m*l puderam acompanhar, ele sacou a Glock da cintura.
O som do disparo foi ensurdecedor dentro das paredes de concreto.
Falcão soltou um urro de agonia e desabou no chão, segurando a perna direita, onde o sangue jorrava de um buraco perfeito na coxa.
Os outros vapores congelaram, as mãos longe das armas, os corações disparados.
— No meu morro — Sete começou, a voz soando como o trovão antes da tempestade, enquanto ele mantinha a arma apontada para o homem caído — eu não aceito que ninguém bata em mulher. Nunca. Nem se for a pior das nossas inimigas. No Turano, nós somos homens, não animais como o Abutre.
Ele deu um passo à frente, a ponta do cano da arma quase tocando a testa do Falcão que gemia de dor.
— Isso foi um aviso. Se eu souber que você encostou o dedo em qualquer mulher da comunidade ou em qualquer refugiada de novo, a próxima bala vai ser no meio dos seus olhos. Agora some da minha frente antes que eu mude de ideia.
Dois soldados rapidamente arrastaram Falcão para fora da sala. Sete guardou a arma e voltou sua atenção para Catarina, que estava paralisada, os olhos arregalados de choque, a respiração curta e ruidosa.
Ele viu que ela tentou dar um passo em sua direção, mas sua perna fraquejou. O ferimento no pé estava feio; o corte era profundo e continuava a sangrar sobre o chão. Sem dizer uma palavra, Sete se aproximou e a pegou no colo. Catarina era leve, quase uma pena, mas o corpo dela continuava rígido de medo.
— Vamos resolver isso — ele disse apenas.
Ele a carregou para fora da sede, onde sua moto, uma máquina potente e escura, estava estacionada. Ele subiu no banco e, com uma força controlada, acomodou Catarina sentada em cima do tanque, entre seus braços, mantendo-a firme enquanto ele segurava o guidão. A posição a obrigava a ficar de frente para ele, o rosto a poucos centímetros do dele.
O trajeto até o posto de saúde do morro foi rápido. O vento da madrugada batia no rosto de Catarina, mas ela m*l sentia. Ela estava focada no calor que emanava do corpo de Sete e no cheiro de pólvora que ainda vinha das mãos dele.
No posto, a equipe médica, acostumada a ver o patrão em situações de emergência, agiu prontamente. Sete não saiu do lado dela enquanto a médica de plantão limpava os ferimentos. Catarina cerrou os dentes e apertou os lençóis da maca quando as agulhas perfuraram sua pele.
— Oito pontos no pé — anunciou a médica, limpando o suor da testa. — O objeto cortou profundo, mas não atingiu nenhum tendão. No cotovelo, mais três pontos para fechar o r***o. Ela vai precisar de antibióticos e repouso absoluto. Se ela caminhar, os pontos vão estourar.
Quando a médica terminou e Catarina recebeu alta imediatamente, Sete se aproximou da maca. Por um breve segundo, a armadura dele vacilou. Ele olhou para ela — pálida, com os curativos brancos destacando-se contra a pele, o rosto marcado pela violência — e algo que não era irritação cruzou seus olhos. Era uma faísca de algo mais profundo, talvez uma forma distorcida de compaixão que ele há muito tempo tentava enterrar.
Ele a pegou no colo novamente, com mais cuidado do que da primeira vez, protegendo os pontos de qualquer impacto.
— Onde... onde você vai me levar? — ela perguntou, a voz quase sumindo.
— Para minha casa — Sete respondeu, sua voz soando mais suave do que ela jamais imaginou ser possível. — Lá em cima, ninguém toca em você. No alto do Turano, o mundo pode estar caindo, mas você estará segura.
Ele a levou para a sua residência particular, uma fortaleza no ponto mais alto do morro, onde o silêncio era absoluto e a vista alcançava todo o Rio de Janeiro.