PREDADOR

1343 Words
O mundo é um grande banquete de carniça, e quem não tem estômago para a sujeira acaba servindo de prato principal. No Rio de Janeiro, ou você é o bicho que caça, ou é o bicho que corre. E eu? Eu sou o bicho que espera o momento exato de arrancar o coração de quem estiver no meu caminho. Meu nome é Neto, mas se você tiver amor à vida, vai me chamar de Abutre. Tenho trinta e dois anos e uma trajetória que faria qualquer roteirista de cinema de ação mijar nas calças. Não cheguei onde cheguei pedindo licença ou jogando dentro das regras. Eu criei as minhas próprias leis. Sou um cara troncudo, não sou nenhum gigante de altura como aquele engomado do Sete, mas minha presença ocupa o espaço de um exército. Tenho o corpo fechado por tatuagens que contam a história da minha ascensão: palhaços, armas, cartas de baralho e os nomes dos inimigos que eu manduei para o inferno. Uso o cabelo bem curto, riscado na navalha, e no meu pescoço eu carrego o peso do meu sucesso: três quilos de ouro puro em correntes tão grossas que poderiam levantar um blindado da polícia. Dizem que sou debochado. Dizem que sou arrogante. E estão cobertos de razão. O poder não foi feito para os humildes; a humildade é o consolo de quem não tem coragem de subir o morro e tomar o que é seu. Eu gosto do brilho, gosto do barulho e gosto que todos saibam que, se eu estou em um ambiente, eu sou a autoridade máxima. Se o dinheiro é meu, eu mostro. Se a mulher é minha, eu exibo. E por falar em mulher... a Catarina. Muita gente olha para ela, com aquela pele de porcelana e aqueles olhos que parecem que vão chorar a qualquer momento, e pensa: "Nossa, como o Abutre teve sorte de conquistar uma joia dessas". Sorte? Sorte é o c****e. Foi estratégia pura. Foi o golpe mais bem dado da minha carreira. A história que corre pela Maré, a que eu fiz questão de espalhar, é que o pai dela, o velho contador da facção, me roubou. Dizem que ele desviou milhões e que eu, na minha infinita "misericórdia", aceitei a filha como pagamento. Mas a verdade é muito mais saborosa. O velho era um bosta. Um burocrata de merda que tremia só de ouvir o barulho do meu helicóptero. Ele nunca teve culhão para desviar um centavo das minhas contas. Ele contava cada grama de pó com medo de sobrar um grão e eu achar que era roubo. Mas eu queria a menina. Eu via a Catarina crescendo desde os dezesseis anos. Ela tinha um jeito diferente das piranhas do morro. Tinha classe, tinha cheiro de asfalto caro, tinha aquela aura de "intocável" que me deixava louco. Eu decidi que ela seria meu troféu de luxo. Então, eu inventei a dívida. Joguei umas planilhas falsas na frente do velho, apontei o cano da minha Glock banhada a ouro para a cabeça dele e deixei ele se borrar todo enquanto implorava pela vida. Eu disse a ele: "Ou eu te queimo vivo no micro-ondas agora, ou você me entrega a mão da sua filha e a dívida vira dote". O bosta não pensou duas vezes. Vendeu a própria carne para salvar o pescoço. E a Catarina? Ah, ela caiu no conto da heroína. Casou comigo achando que estava salvando o pai, achando que era a mártir da família. Na verdade, ela só estava entrando na gaiola que eu construí sob medida para ela. Eu a comprei com uma mentira, e cada vez que ela me olha com aquele nojo contido, eu sinto um t***o absurdo. Porque eu sei que ela me odeia, mas eu também sei que ela me pertence. Hoje a reunião com o alto escalão foi uma uva. Fechei um esquema com a facção que vai fazer o dinheiro chover na Maré como se fosse tempestade de verão. Deixei ela lá, sentada na mesa da diretoria, imóvel como uma estátua de mármore. Eu adoro fazer isso. Adoro ver a Catarina cercada por bandidos e fuzis, sendo obrigada a ouvir as maiores baixarias, enquanto eu mostro para os meus aliados que eu tenho o que eles nunca vão ter: uma rainha de verdade que eu trato como escrava. Eu vi umas pu.tas da festa rindo na direção dela. Elas sentem inveja, claro. Sabem que eu levo elas para o motel, mas é para a Catarina que eu volto. É na mão da Catarina que eu coloco os diamantes. Ver a minha mulher ali, sem reação, fingindo que nada a atinge, é o meu passatempo favorito. Ela acha que o silêncio dela é uma forma de resistência. Eu acho que é apenas o som da aceitação. Voltei para a mesa com o ego maior que o Cristo Redentor. O negócio estava fechado. O Comando do meu lado vai dominar as rotas de exportação. Na verdade, eu quero ser Chefe do Comando e tiver que mexer minhas cartas e uma delas será a Catarina. — Viu só, boneca? — gritei, batendo a mão na mesa e fazendo os copos de uísque pularem. — Tudo certo! O patrão tá rindo! O Abutre é intocável! Puxei a cadeira dela para perto da minha, sentindo o cheiro de baunilha que ela usa. Ela se retrai, imperceptivelmente, mas se retrai. Isso me dá um prazer doentio. — Por que essa cara, Catarina? — perguntei, debochado, soprando a fumaça do charuto no rosto dela. — Devia estar feliz. Amanhã vou te levar naquela joalheria de novo. Pode escolher o que quiser. O papai aqui tá generoso hoje. — Obrigada, Neto — ela disse, com aquela voz de quem está morrendo por dentro. — "Obrigada, Neto" o c*****o! — dei uma risada alta, chamando a atenção dos meus soldados. — Me dá um beijo aqui, mostra para esses otários que o rei da Maré tem a mulher mais gostosa do Rio! Ela me deu o rosto. Eu a puxei pelo pescoço e a beijei com força, para marcar território, para mostrar para as piranhas no canto e para os meus inimigos que o que é meu, ninguém toca. Eu não ligo para o que o Sete pensa lá no Turano. Aquele cara me dá sono. Vive falando de "disciplina", de "estratégia militar", de "respeito à comunidade". Que mané comunidade o quê! O morro é meu quintal. Eu quero é dinheiro no bolso e fuzil na mão. Sete se acha o braço direito da facção dele, o Comando Vermelho... Para mim, ele é só um engomado que ainda não percebeu que o mundo mudou. O crime agora é ostentação, é poder bruto, é terror. — Patrão, o baile já começou a ser organizado. — avisou o Tuiuiu, meu segurança. — Então vamos! — levantei, puxando a Catarina pelo braço. — Hoje eu quero ver o morro tremer! Quero fogos, quero uísque liberado e quero a minha mulher do meu lado o tempo todo para eu não esquecer o quanto eu sou f**a. Caminhei pelo salão sentindo o peso do mundo aos meus pés. Catarina andava ao meu lado, os saltos estalando no chão, a postura de quem está em um funeral. Ela não percebe que o funeral é dela, mas o enterro sou eu que comando. Eu sou o Abutre. Eu não espero as coisas acontecerem; eu forço a realidade a se dobrar à minha vontade. E se alguém acha que pode tirar o meu brilho ou a minha posse, é melhor se preparar, porque eu não deixo nem os ossos para contar história. O Rio é meu, a Maré é minha, e a Catarina... ah, ela é o meu pecado favorito que eu nunca vou cansar de cometer. Hoje a noite vai ser longa. E enquanto o morro explode em música e tiros para o alto, eu vou continuar sendo o dono da por.ra toda, rindo na cara de quem acha que o crime tem ética. O crime tem é dono. E o dono sou eu.
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