Vinte e um anos.
Dizem que essa é a idade da liberdade, o auge da vida. Para mim, vinte e um anos soam como uma sentença de prisão perpétua com direito a café da manhã em louça cara e lençóis que custam mais do que um salário minimo.
Saio na sacada do quarto e observo o Complexo da Maré lá embaixo. O sol está se pondo, tingindo o céu de um laranja brilhante, o mesmo brilho que parece escorrer pelos becos toda vez que o meu marido decide que o mundo precisa de um lembrete sobre quem manda.
Eu estou exausta. Não é um cansaço físico, do tipo que uma noite de sono resolve. É um esgotamento da alma, a cabeça não funciona direito. Sinto como se tivesse cem anos, como se cada dia nesta casa tivesse sugado um pouco mais da vida que eu tenho, até me deixar assim: uma boneca, sem vontade, sem nada.
Eu odeio esta vida. Odeio cada centímetro dessa casa, cada bolsa no meu closet, cada joia que Neto — o homem que todos temem como Abutre — joga na minha frente como se fossem biscoitos para um cachorrinho feliz.
— Dona Catarina? O patrão mandou avisar que o salão já está pronto. — A voz da Maria atravessa a porta, baixa, temerosa.
— Já vou, Maria.
Eu não me viro. Sei que ela não vai entrar. Ninguém entra no meu quarto sem a ordem dele. Aqui, eu sou a Rainha, mas o meu reino tem poucos metros quadrados e é vigiado por homens de fuzil em cada fresta. Eu me pergunto, pela milésima vez, como deixei isso acontecer. A resposta é um eco amargo na minha mente: eu não tive escolha.
Aos dezoito anos, eu era apenas a filha do contador da facção. Meu pai, em sua arrogância ou desespero, achou que poderia enganar o Abutre. Desviou dinheiro para tentar nos tirar daquela vida, mas Abutre não é um homem que se deixa enganar. Ele é um animal que fareja o medo.
Quando ele descobriu, não houve tribunal. Ele entrou na nossa sala, colocou a arma sobre a mesa e olhou para mim. Eu era a "garota da faculdade", a promessa da família. O Abutre viu em mim algo que ele nunca teria: classe. — Ou o velho morre no micro-ondas, ou a menina vem morar comigo e a dívida vira dote — ele disse, com aquela voz que ainda me causa enjoo.
Eu me casei por um cadáver. Casei para que meu pai vivesse mais dois anos antes que o coração dele parasse por puro estresse, deixando-me sozinha nesta gaiola de ouro. Agora, meu pai se foi, mas o contrato continua valendo. Caminho até a penteadeira e começo a me preparar para o "show". Hoje não é uma noite qualquer. É dia de reunião com o alto escalão do Comando.
Todos do crime vão estar reunido no salão nobre do morro, e o Abutre faz questão da minha presença. Eu sou a prova visual de que ele é um homem de sucesso. Ele tem o morro, tem as armas, tem o dinheiro e tem a mulher mais bonita da região presa pelo pescoço.
Eu sou o seu troféu preferido.
Pego o vestido preto, justo demais, caro demais. Enquanto subo o zíper, sinto o peso da solidão. Eu não tenho amigas. Neto cortou qualquer contato que eu pudesse ter com o mundo lá fora. "Mulher de bandido não tem amizade, Catarina. Tem puxa-saco e traíra", ele costuma dizer. Eu não posso ir ao mercado, não posso caminhar na praia, não posso sequer descer até a base do morro sem um comboio de soldados e o Abutre segurando o meu braço como se eu fosse fugir a qualquer momento.
E eu fugiria. Se tivesse para onde ir. Se não soubesse que ele me caçaria até o fim do mundo apenas para provar que ninguém tira nada dele.
O som da porta abrindo me faz sobressaltar. Pelo reflexo do espelho, vejo Neto entrar. Ele está exalando o cheiro que eu mais desprezo: uma mistura de uísque caro, maconha e o perfume de outra mulher. Todo mundo no morro sabe das traições dele. As fofocas chegam até mim através dos olhares de pena dos soldados e do riso abafado das amantes que ele desfila pelas vielas quando eu não estou por perto. Ele não se dá ao trabalho de esconder. Por que esconderia? No mundo dele, ele é ''Deus''.
— Capricha na pintura, anjo — ele diz, parando atrás de mim e apertando meus ombros com força suficiente para deixar marca.
— Hoje o papo é sério. Hoje teremos uma reunião com o comando. Quero você brilhando.
— Eu sempre brilho para você, Neto — respondo, a voz lenta, baixa, desprovida de qualquer emoção. Minha resistência é o meu silêncio.
Ele inclina a cabeça e cheira meu pescoço. Sinto um arrepio de repulsa percorrer minha espinha.
— Tá de saco cheio, é? Tá com essa cara de velório de novo. Devia agradecer. Tem mulher lá embaixo que mataria para estar nesse salto que você tá usando.
— Talvez elas devessem trocar de lugar comigo, então. — O sarcasmo escapa antes que eu consiga conter.
O aperto no meu ombro aumenta. Neto vira minha cadeira com brutalidade, obrigando-me a encará-lo.
— Escuta aqui, Catarina. Você é minha. Eu te comprei, eu te sustento e eu te protejo. Se eu quiser que você sorria para o Comando hoje à noite, você vai sorrir até sua mandíbula doer. Entendeu?
Eu o encaro de volta. Por um segundo, a chama de ódio nos meus olhos o faz hesitar, mas logo a apago. Não é hora de brigar. Não ainda.
— Entendido.
— Ótimo. Vamos. Eles já estão chegando.
Ele me puxa pelo braço, e saímos da casa. No corredor, quatro soldados armados com fuzis se posicionam ao nosso redor. É assim que eu me movo: cercada por metal e testosterona. Na garagem, o silêncio é pesado. Neto checa as mensagens no celular, provavelmente de alguma "novinha" que ele conheceu no baile ontem, enquanto eu olho para as minhas próprias mãos.
Chegamos ao salão de reuniões. O ar está denso com fumaça de charuto e a tensão de homens que vivem sob o fio da navalha. Vejo os olhares sobre mim — alguns de cobiça, outros de desprezo. Para eles, eu sou apenas uma extensão do poder do Abutre.
Neto senta na cabeceira da mesa e me puxa para a cadeira ao seu lado, mantendo a mão pesada sobre a minha coxa. Eu olho para frente através das janelas de vidro do salão. Lá longe, do outro lado da divisa, as luzes do Complexo vizinho piscam. O território do Sete.
Dizem que o Sete é um carrasco. Dizem que ele é um estrategista que não dorme. Mas dizem, acima de tudo, que ele é o único homem que o Abutre realmente teme.
Enquanto a reunião começa e as vozes grossas discutem rotas de tráfico e carregamentos de armas, eu sinto uma clareza súbita. Eu não vou morrer nesta gaiola. Eu não vou deixar que Neto sugue o resto da vida que me sobra.
A reunião do Comando deveria ser o meu maior medo, mas hoje, ela é apenas o barulho de fundo para o meu plano de fuga. Olho para a mão de Neto na minha perna e sinto um nojo tão profundo que minha visão chega a embaçar.
Eu vou embora. Não sei como, mas vou.