A luz da manhã já castigava as ladeiras do Turano quando Tico finalmente deixou o posto de saúde. O corpo pesava como se estivesse carregando placas de chumbo, e a mente era um turbilhão de imagens borradas de sangue e esmalte. Ele aproveitou que Catarina havia assumido o posto ao lado da maca e subiu para sua casa, uma construção de alto padrão que ficava estrategicamente posicionada abaixo da mansão de Sete, com vista privilegiada para as entradas do morro.
Ao entrar no silêncio de sua sala, o contraste foi violento. O luxo de sua mobília parecia um insulto diante da miséria física em que aquela garota se encontrava. Ayla. O nome que Catarina gritara no hospital agora ecoava na cabeça de Tico como o toque de um sino de igreja. Ayla. Tinha um som leve, delicado demais para a brutalidade que o destino lhe impusera nas mãos do Abutre.
Tico jogou o fuzil sobre o sofá de couro e caminhou direto para o banheiro. Ele não acendeu a luz; deixou apenas a claridade da janela guiar seus movimentos mecânicos. Arrancou a camisa preta — a mesma que ainda guardava o cheiro de hospital e o calor do corpo dela — e viu as manchas de sangue endurecido no tecido.
Ele abriu o chuveiro no máximo, deixando a água cair no gelo. Quando o jato atingiu suas costas, ele não recuou. O choque térmico era o que ele precisava para anestesiar a queimação que sentia no centro do peito. Tico apoiou as mãos na parede do box e deixou a cabeça pender sob o fluxo da água.
Ayla... — ele pensou, fechando os olhos com força.
Ele lembrava do momento em que o médico listou as fraturas. Costelas, braço, maxilar, hematomas internos. Tico, que já tinha sobrevivido a trocas de tiro onde o asfalto derretia de tanto calor, sentia que preferia mil vezes levar um tiro de fuzil no ombro a ver aquela garota passar pelo que ia passar. A recuperação seria um inferno. Cada respiração dela seria um lembrete da dor por semanas.
Se houvesse uma justiça divina nesse mundo de cão, Tico trocaria de lugar com ela num piscar de olhos. Ele aguentava o tranco; ele era feito de cicatrizes. Ela não.
— Ayla... — ele sussurrou para o ralo, deixando que o nome se perdesse no barulho da água.
Ele saiu do banho, mas a sensação de opressão no peito não desceu pelo ralo. Ele se vestiu rapidamente — jeans escuro, uma regata nova e ténis limpo. Ele tentou comer um prato de comida que sua empregada havia deixado pronto, mas o arroz parecia areia na boca. Ele só conseguia pensar em voltar. Em garantir que ninguém, absolutamente ninguém, entrasse naquele quarto sem passar por ele.
Foi com Sete até a boca, resolveu algumas pendências, mais segurança na barreira. Organizou algumas rotas, entregas, passou ordens para os gerentes, mas a cabeça não saia do hospital.
Por volta do meio-dia, Tico estacionou a moto novamente em frente ao hospital. O sol de meio-dia não dava trégua, mas o clima dentro do prédio continuava gelado. Ele entrou no quarto 04 e encontrou Catarina sentada na mesma poltrona onde ele passara a noite. Ela segurava a mão de Ayla, que dormia um sono inquieto, interrompido por espasmos de dor. Sete estava de pé no canto, o celular na mão, coordenando a contenção do morro.
Assim que Tico entrou, Sete guardou o aparelho e olhou para Catarina. Ele percebeu que a mulher estava exausta; a cor fugira de seu rosto e ela m*l conseguia manter os olhos abertos.
— Catarina — Sete disse, a voz firme, mas com uma nota de cuidado. — Você precisa ir para casa agora.
— Não, Sete. Eu não vou deixar ela sozinha — Catarina rebateu, a voz embargada, os dedos ainda entrelaçados nos de Ayla.
— Você não está em condições — insistiu Sete, aproximando-se e colocando a mão no ombro dela. — Você também está machucada, o corte no seu pé precisa de repouso e você precisa almoçar. Se você desmaiar aqui, vai ser mais um problema para os médicos resolverem.
Catarina olhou para Ayla, depois para Sete, pronta para protestar de novo.
— O Tico vai ficar com ela — Sete finalizou, olhando para o seu braço direito. — Ele já descansou, trocou de roupa e está de volta. Ninguém vai cuidar melhor da segurança dela do que ele. Você vai pra casa, vai almoçar, tomar um banho e descansa. Mais tarde eu te trago de volta.
Tico deu um passo à frente, cruzando os braços. Seu olhar encontrou o de Catarina, transmitindo uma segurança que as palavras não conseguiam.
— Pode ir, Catarina — Tico disse, a voz baixa. — Eu não saio daqui. Dou minha palavra. Se ela acordar e se assustar, eu acalmo ela. Pode confiar.
Catarina olhou para o Tico e viu algo no olhar do soldado que a surpreendeu. Não era apenas lealdade ao Sete; era um compromisso pessoal. Ela suspirou, sentindo o peso da exaustão finalmente vencer sua resistência.
— Por favor, Tico... se ela sentir dor, chama o médico na hora — Catarina pediu, levantando-se com dificuldade, apoiada por Sete.
— Pode deixar. Vai almoçar, descansar.
Sete guiou Catarina para fora do quarto, deixando o silêncio se instalar novamente. Tico puxou a poltrona para mais perto da maca. Ele olhou para Ayla, que parecia uma boneca de porcelana colada com fita adesiva, e sentiu aquele aperto estranho no peito voltar.
— É, Ayla... — ele murmurou, sentando-se e retomando seu posto de sentinela. — Parece que agora é só eu e tu. Pode dormir tranquila. Eu sou o teu escudo agora.
Ele se inclinou para frente, observando o monitor cardíaco. Cada batida estável era uma pequena vitória. Tico sabia que a guerra lá fora ia escalar, que o Abutre ia espumar de ódio quando soubesse que Ayla estava sob a proteção do Turano, mas ali, naquele quarto, ele sentia que estava no único lugar do mundo onde realmente precisava estar.