FUGIU.. PERDEU!

1156 Words
O sol nasceu sobre o Complexo da Maré com uma luz pálida, que parecia não conseguir dissipar a névoa de tensão que pairava sobre os becos. Para Abutre, a noite não tinha tido fim. Ele não dormira. Passara a madrugada em claro, consumido por uma mistura de ódio, humilhação e uma possessividade que beirava a loucura. Eram seis da manhã quando ele cruzou a entrada da "boca" principal, o coração administrativo de seu império. O silêncio dos soldados que o esperavam era o silêncio de quem teme pela própria vida. Ninguém ousava olhar diretamente para o patrão. O cheiro de álcool e fumaça de cigarro ainda emanava dele, misturado ao cheiro metálico da morte que ele carregava nas mãos desde o tiro no camarote. — Nada? — A pergunta de Neto foi um sussurro áspero, mais perigoso que um grito. — Ainda não, patrão. A gente revirou a favela toda. Morador por morador. Ninguém viu a Dona Catarina — respondeu um dos gerentes, com a voz falhando. A resposta foi o estopim. Neto soltou um rugido gutural e avançou sobre a mesa grande que ficava no centro da sala. Com um golpe violento, ele arremessou o monitor do computador contra a parede, estilhaçando o vidro em mil pedaços. Ele não parou. Pegou uma cadeira de escritório e a usou como um martelo, golpeando tudo o que via pela frente: armários de metal, arquivos, garrafas de uísque caro. — EU QUERO ELA AQUI! — ele berrava, os olhos vermelhos de sono e raiva, as veias do pescoço saltando como cordas. — Aquela p*****a é MINHA! Ela não respira sem a minha ordem! Ela não morre sem a minha permissão! Ele chutou um arquivo de metal, fazendo um barulho ensurdecedor que ecoou por todo a sala. O Abutre estava perdendo a razão. Para ele, a fuga de Catarina não era um pedido de socorro ou um ato de desespero; era uma falha no sistema, uma peça de sua engrenagem que tinha ousado parar de girar. O fato de não saber onde ela estava o corroía por dentro, ferindo seu orgulho de uma forma que nenhuma bala jamais conseguira. — Procurem de novo! — ele gritou, apontando o dedo trêmulo para os soldados. — Se eu descobrir que alguém ajudou ela, eu vou queimar a família de cada um de vocês no micro-ondas! Vão! Enquanto o escritório virava um rastro de destruição, dois vapores, conhecidos como Tuiuiú e Cebola, estavam na parte mais alta do morro, perto da área de vegetação densa que servia de limite para o território da Maré. Eles caminhavam com cuidado, segurando os fuzis com força, observando o chão úmido da mata. Cebola parou de repente, abaixando-se perto de uma raiz exposta. — Tuiuiú, chega aqui. Olha isso. Na folhagem seca, havia uma mancha escura e viscosa. Não era lama. Tuiuiú se aproximou e tocou o líquido com o dedo, levando-o perto do nariz. — É sangue. Não é fresco, mas é sangue. Eles começaram a seguir o rastro. Não era difícil. Catarina, em seu desespero, não tivera técnica para esconder sua passagem. Mais à frente, eles encontraram um pedaço de tecido preto preso em um espinho de uma trepadeira. — É do vestido dela — Cebola murmurou, a voz carregada de uma descoberta sombria. — Ela passou por aqui. Eles continuaram avançando, subindo a trilha íngreme que rasgava a floresta. O rastro de sangue continuava, pingos espaçados que contavam a história de um ferimento sério. No entanto, à medida que avançavam, o coração dos dois soldados começou a bater mais rápido, mas não pelo esforço da subida. Eles chegaram a uma clareira onde a mata se abria. À frente, uma linha imaginária, mas mortalmente real, dividia o solo. Do lado de lá, o terreno mudava, tornando-se mais rochoso e vigiado. — Caralho... — Tuiuiú parou bruscamente, puxando o companheiro pelo braço. — Olha pra onde o rastro tá indo. O sangue de Catarina não ia em direção ao asfalto. Ele não dava voltas pela mata para retornar à Maré. O rastro de sangue cruzava a divisa com uma precisão assustadora. As marcas de pés descalços e as poças vermelhas levavam diretamente para o coração do Morro do Turano. — Ela foi pro Sete — Cebola disse, o rosto perdendo a cor. — Ela atravessou pro lado do Comando Vermelho. Eles ficaram paralisados por um momento. Cruzar aquela linha sem autorização era uma sentença de morte, e levar aquela notícia para o Abutre era quase a mesma coisa. Eles sabiam que Neto odiava o Sete com todas as suas forças, não apenas por serem de facções rivais, mas porque o Sete era tudo o que o Abutre nunca conseguiria ser: respeitado, calmo e eficiente. — A gente tem que avisar o patrão — Tuiuiú disse, pegando o rádio. — Mas se prepara. Ele vai explodir. Minutos depois, na sede destruída da Maré, o rádio de Neto chiou. — Patrão... aqui é o Tuiuiú. Achamos o rastro. A Dona Catarina se feriu na mata. Neto parou de chutar os restos de uma mesa e pegou o rádio com as mãos sangrando. — Onde ela está? Traz ela pra cá agora! Houve um silêncio no rádio, seguido pela voz trêmula do soldado. — Ela não tá aqui, patrão. O rastro de sangue... ele atravessa a divisa. Ela entrou no Turano. Ela tá no morro do Sete. O silêncio que caiu sobre a sala da boca foi absoluto. Neto ficou estático. Seus olhos se arregalaram, e a cor sumiu de seu rosto, deixando-o com uma aparência cadavérica. Ele sentiu o peso daquela informação como uma humilhação pública. Sua mulher, sua propriedade, tinha buscado proteção justamente nos braços do seu maior inimigo. O Abutre não gritou. Não quebrou mais nada. Ele caminhou lentamente até a janela quebrada, olhando para o morro rival que se erguia à distância. — O Turano... — ele sussurrou, e o som de sua voz era como o gelo trincando. — Ela acha que o Sete vai salvar ela? Ela acha que pode se esconder atrás daquela facção de merda? Ele se virou para os soldados que restavam na sala, e seu olhar era o de um homem que tinha perdido completamente o vínculo com a sanidade. A agressividade possessiva do Abutre tinha acabado de escalar para um nível de guerra total. Ele não se importava mais com o lucro, com a paz ou com a política do crime. Ele só queria o que era dele, e ele estava disposto a queimar o Rio de Janeiro inteiro para provar que ninguém, nem mesmo o poderoso braço direito do Comando Vermelho, poderia roubar o que pertencia ao Abutre. — Catarina... — Neto rosnou, apertando o punho até as juntas ficarem brancas. — Você vai desejar nunca ter nascido. Naquele momento, o destino de milhares de pessoas estava selado. A busca por um "troféu" fugitivo tinha se transformado no rastilho de pólvora que faria a cidade explodir.
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