AYLA - TRAVESSIA

1031 Words
A madrugada na Maré não era silenciosa; ela tinha um som próprio, um zumbido constante de geradores, o estalo distante de rádios de comunicação e o vento uivando entre os vãos dos tijolos aparentes. Mas, dentro do que restara do "Espaço Ayla", o silêncio era de morte. Ayla abriu o único olho que não estava completamente inchado. A dor não era mais um grito; era um peso esmagador que pulsava em cada centímetro de sua pele. Ela tentou se mexer, e um gemido agudo morreu em sua garganta seca. Sua costela parecia um cristal quebrado dentro do peito, e cada respiração era uma facada. O cheiro de esmalte de morango, misturado ao cheiro ferroso do próprio sangue coalhado no chão, a fez marejar os olhos. Ela olhou para o relógio de parede quebrado: três da manhã. A hora dos espectros. A hora em que o cansaço vencia até os soldados mais atentos do Abutre. — Eu preciso... — ela sussurrou, a voz saindo como um r***o de papel. — Eu preciso ir. Com um esforço sobre-humano, Ayla arrastou o corpo para longe da poça de sangue e vidro. Ela não podia acender a luz. Usou o tato para encontrar a mochila de lona que o Cebola não tinha visto. Seus dedos, outrora ágeis para desenhar flores minúsculas em unhas de porcelana, agora tremiam violentamente enquanto agarravam a alça. Ayla abriu a porta de casa com uma lentidão agoniante. A dobradiça rangeu, e ela congelou, o coração batendo tão forte que temia que os vapores na esquina pudessem ouvir. Ela saiu. O ar frio da madrugada bateu em seu rosto ferido, agindo como um anestésico momentâneo. Ela conhecia cada centímetro daquelas vielas. Crescera ali, brincando de esconde-esconde antes do morro se tornar o inferno que era agora. Ayla moveu-se como uma sombra dentro de outras sombras. Uma mão apertava a costela, tentando manter os ossos no lugar, enquanto a outra tateava as paredes de chapisco para manter o equilíbrio. A cada passo, uma prece silenciosa subia ao universo: Que o Abutre esteja dormindo. Que a contenção esteja distraída. Que as luzes não me alcancem. Ela passou por um beco onde dois soldados cochilavam sentados em cadeiras de plástico, os fuzis apoiados no colo. Ayla parou, prendendo a respiração. O suor frio escorria por sua nuca. Ela esperou que uma nuvem cobrisse a lua antes de deslizar, pé ante pé, por trás de uma pilha de pneus velhos. Seus pulmões imploravam por ar, mas ela respirava com uma calma forçada, filtrando o oxigênio por entre os dentes cerrados para não fazer ruído. Quando finalmente alcançou o limite das construções, onde o asfalto dava lugar à terra batida e à vegetação fechada, Ayla sentiu uma pontada de esperança. Ali começava a trilha que levava à divisa com o Turano. Era um caminho perigoso, íngreme e traiçoeiro, mas era a sua única ponte para a vida. Ao entrar na mata, o cenário mudou. O som dos rádios da Maré foi substituído pelo estalar de galhos secos e o coaxar de sapos. Ayla tentava não fazer barulho, mas seu corpo estava falhando. Ela tropeçava em raízes, e cada queda era uma tortura que a fazia querer gritar e desistir. O frio da mata começou a penetrar em suas roupas finas, infiltrando-se nos ferimentos abertos. O corte em seu supercílio voltou a sangrar, o líquido quente escorrendo pelo olho e borrando sua visão. — Só mais um pouco, Ayla... — ela murmurava para si mesma, como um mantra. — A Catarina conseguiu. Você também consegue. O caminho parecia uma eternidade. O tempo se dilatou. Ela não sabia se estava andando há vinte minutos ou há três horas. A escuridão da mata era densa, e o medo de encontrar uma patrulha do Abutre a fazia parar a cada estalo de folha. Ela sabia que o patrão estava possuído; ele não aceitaria perder mais uma peça do seu jogo. Se a pegassem ali, não haveria mais praça pública, haveria apenas uma cova rasa. Suas pernas finalmente cederam quando ela avistou uma clareira iluminada por um refletor distante. Ela estava no limite. O chão ali era mais limpo, bem vigiado. Era o território do Sete. Ayla tentou se levantar, mas o braço quebrado latejou com uma intensidade que a fez desabar de joelhos. Ela estava exausta, faminta e quebrada. O frio agora era um tremor incontrolável que tomava conta de todo o seu corpo de 19 anos. — Quem tá aí? — Uma voz grossa, autoritária, ecoou pela clareira. Ayla não conseguia responder. Ela apenas levantou a mão que não estava na costela, um gesto fraco de rendição. Dois vultos armados surgiram das sombras, as lanternas acopladas aos fuzis cegando-a instantaneamente. Eram os vapores do Turano, os homens de confiança de Sete. — c*****o, é uma mina... tá toda arrebentada — disse um deles, aproximando-se com cautela. — Não atira! — Ayla conseguiu expelir, a voz saindo como um sussurro moribundo. — Eu... eu sou amiga da Catarina. Me leva pro Sete. Por favor... me leva pro Sete. Os soldados se entreolharam. O nome de Catarina era a senha de ouro no Turano desde a última noite. Um deles guardou a arma e se abaixou, pegando Ayla antes que ela batesse o rosto no chão. — Calma, garota. Tu cruzou a linha. Aqui o Abutre não entra — o soldado disse, e aquela foi a frase mais bonita que Ayla já ouvira em toda a sua vida. Enquanto era carregada para dentro da fortaleza do Sete, Ayla sentiu a consciência se esvair. Ela tinha deixado para trás seu salão, seus esmaltes e sua casa, mas levava consigo a única coisa que o Abutre nunca conseguiria comprar: a sua lealdade e a sua vida. Lá no alto do morro, na casa de Sete, o rádio de comunicação avisou: "Patrão, temos outra refugiada da Maré. A menina disse que conhece a Catarina. Ela tá m*l, Sete. Tá muito mal." A guerra do Turano contra a Maré acabava de ganhar um novo e doloroso capítulo, e Sete sabia que, quando Catarina visse o estado de sua única amiga, o sangue que correria na divisa não seria mais apenas por território, mas por vingança.
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