— Jeongguk, o que você realmente quer?
A pergunta pareceu ecoar várias vezes pelo quarto, bater nas paredes e ricochetear pelos espelhos, Jeongguk encarava os olhos alargados de Yoongi, que estavam cheios de lágrimas e assustados. O moreno se afastou do pequeno corpo despido, sua respiração estava tão pesada e ele nem ao menos havia notado isso ainda. Yoongi havia feito Jeongguk sentir na pele o que simples palavras juntas poderiam fazer.
— Eu não sei... — o mais novo soltou em um simples sussurro, o Min m*l conseguiu ouvir — No começo eu só queria ter uma vida digna, mas eu não sabia que para isso eu teria que vender toda a minha dignidade.
O Jeon estava de costas para ele, sentado em uma das pontas da cama. Yoongi encarou suas costas nuas se mexerem lentamente por longos segundos, horas talvez, como se esperasse que a qualquer momento Jeongguk fosse ter uma epifania, e então entender que todas as suas palavras foram reais, que tudo aquilo que se camuflou de mentira, era apenas uma verdade covarde.
Se arrastando pela cama, o Min parou bem atrás dele, rodeando seus braços pela cintura do mais novo, e deixando que sua cabeça repousasse em suas costas, agora frias, espirando o cheiro daquele corpo, lhe dando forças e ao mesmo tempo puxando coragem para si.
— Todas as vezes que eu disse que te amava eram verdades. — Yoongi sussurrou para o mais alto, deixando que por um longo período o silêncio fosse o único ali presente. Jeongguk sentiu a lágrima quente do Min escorrer para suas costas e descer por sua espinha lhe arrancando um arrepio diferente de qualquer um que já tenha sentido antes — Você salvou a minha vida.
Subitamente, Jeongguk se virou para ele, encarando seu rosto de uma forma estranha, a boca entreaberta e os olhos vermelhos e inchados. Yoongi jamais vira Jeongguk assim, tão humano, tão frágil. As mãos grandes do mais novo se prenderam no rosto do Min, enquanto ambos encaravam um ao outro por aquele longo segundo. Seu coração batia tão rápido. E Yoongi sabia que aquela confusão estava com data marcada para terminar.
Ou se avançava, ou retornava caminho, porque ficar sempre no mesmo lugar era cansativo.
Segurando o rosto do menor, Jeongguk uniu seus lábios aos dele, para a surpresa de Yoongi, que de inicio alargou seus olhos, mas logo os fechando e aproveitando aquele toque que tanto necessitava ter. Era diferente quando o sabor que sentiam era de lágrimas. Mas isso não significava que era r**m, aquelas lágrimas eram necessárias.
Yoongi sentia seu corpo sendo deitado sobre a cama novamente, enquanto o corpo do mais alto fazia pressão sobre o seu, trocando um calor tão necessário. O Min entrelaçou seus dedos atrás da cabeça do Jeon, o puxando para mais perto, enquanto seus beijos faziam estalinhos quando as bocas se separavam.
— Jeongguk, eu te amo de verdade. — o menor segurava a cabeça do outro, praticamente o obrigando a olhar no fundo de seus olhos —Será que você vai me amar um dia?
O mais novo se recusou a responder algo assim, até porque era uma resposta que ele próprio não podia se dar. Gostava de Yoongi, isso não negaria a ninguém, mas amar, amar era algo puro demais, ao qual não estava muito bem adaptado, não ainda, não naquelas condições.
Ele queria tanto ter algo... real.
E se Yoongi lutava tanto para se aceitar e ser feliz, por que ele não podia fazer o mesmo? Dizem que quando somos amados, o coração fica mais leve, e então temos um motivo a mais para continuar a viver. O sorriso branquinho com a gengiva exposta do Min era tão meigo, tão dócil e inocente, e ainda haviam centenas de detalhes no mesmo em que o Jeon poderia enumerar.
É, talvez ele pudesse responder para si mesmo, amar Yoongi era apenas uma questão de tempo e costume, onde Jeongguk o veria como Min Yoongi, e Min Yoongi o veria como Jeon Jeongguk.
— Isso nós saberemos com o tempo. — sorriu pequeno, selando seus lábios ao do menor rapidamente — Mas Yoongi, nós podemos tentar.
[...]
Na manhã seguinte, os dois pegaram o primeiro voo para Busan.
Jeongguk estava indo rever sua família depois de anos longe de casa, era um desejo seu e Yoongi não tinha como negar. Não era a primeira vez que viajariam juntos, mas daquela vez foi diferente, não houve nenhum disfarce, tanto Yoongi quanto Jeongguk aparecerem no aeroporto de cara limpa e mãos dadas.
O Min ainda se sentia incomodado com todos aqueles olhos o julgando como se estivesse a cometer a maior afronta do mundo, mas o sorriso e calmaria de Jeongguk o fazia acreditar que com o tempo, aquela sensação estranha de medo iria passar.
Quando o avião levantou voo, os olhos de Yoongi se prenderam na janela, sentindo a mão quente do Jeon segurar firme a sua, como daquela vez, as palavras do mais novo sempre circulando a sua cabeça “nós podemos tentar”. Ele faria de tudo para não desperdiçar aquela chance, a sua chance de dar um capítulo feliz para aquele livro que estava prestes a ser queimado.
Repousou sua cabeça no ombro alheio e fechou seus olhos, não era mais uma mentira.
A chegada em Busan foi calma, um Yoongi sonolento caminhava com os olhos praticamente fechados, sendo guiado pelo rapaz, que estava com um dos braços ao redor de seus ombros. Ainda era cedo, e o Jeon queria fazer aquilo antes que sua coragem se esvaísse, e sendo assim, os dois pegaram um táxi para a casa onde a família de Jeongguk morava. Já fazia tanto tempo que ele não colocava os seus pés lá, e sempre havia a chance dos mesmos terem se mudado.
Durante o carinho, ficou calado, apenas sentindo o carinho que Yoongi fazia nas costas de sua mão, de uma forma leve e lenta. Hora ou outro o olhava com um pequeno sorriso.
Sem graça talvez.
— Ela era marrom quando fui embora. — foi a primeira coisa dita pelo Jeon no momento em que o carro parou no destino, a velha ainda era muito bonita, agora em um tom azul, com o jardim bem mais arrumado do que antes, e uma linda caixa de correio vermelha com o nome da família pintado. Eles ainda viviam ali — Eu sempre quis que ela fosse azul.
Seu tom nostálgico dava agonia em alguns momentos, porém era suportável para ambos.
Yoongi ainda ficou pagando o motorista enquanto Jeongguk se aproximava da casa, tocando na baixa cerca de uma prova tão apreensiva como se a mesma fosse ferro quente. O Min parou ao seu lado, apenas parou, esperando pelo momento em que o mais novo fosse abrir o pequeno ferrolho da portinha da cerca.
Foram alguns minutos.
Respirando fundo, Jeongguk entrou no jardim, caminhando em passos lentos e curtos, e logo atrás dele Yoongi se limitava a ficar quieto e o apoiar de uma forma silenciosa. Se aquilo fosse um filme, a equipe de efeitos sonoros faria o barulho do coração do mais alto ecoar por toda parte.
Parou diante da porta, suspirando pesado antes de bater.
Bateu.
Mas não ouviu nenhuma resposta, nem das próximas três vezes. Não havia nenhum barulho na casa, como se todos estivessem dormindo, ou simplesmente não houvesse ninguém ali. Era frustrante, mas no fundo Jeongguk precisava admitir que estava torcendo para algo assim acontecer, se escondendo atrás de sua covardia, seu medo de ser rejeitado pela família... mais uma vez.
— Eles não estão aqui, sempre foram muito barulhentos. — seu tom era baixo e melancólico, bem difícil de ouvir e entender. Revirou seus bolsos, tirando uma pequena chave de dentro, e a encaixando na fechadura. Jeongguk sempre guardou a antiga chave de sua casa, e lhe fora uma surpresa descobrir que seus pais não haviam trocado as trancas das portas — Eles sempre foram tão descuidados.
Ao entrar na casa, ela parecia exatamente igual, exatamente no mesmo lugar. Eles só mudaram por fora. Entrar ali era como dar um passo para trás no tempo, se enxergar antes de sua vida mudar daquela maneira tão bruta. Era bom estar ali, mas ao mesmo tempo estar naquela casa era algo frio, onde tudo o que habitava se resumia em lembranças, e nenhuma expectativa de algo novo.
Afinal, tudo se resumia em vazio, um carpete com a mesma mancha de quando tinha 5 anos, e os fantasmas do que um dia fora seu lar.
— Isso era você? — as palavras de Yoongi o fizeram virar a cabeça rapidamente, o menor estava parado ao lado da parede, onde marcas de lápis a riscavam, com números ao seu lado.
Um sorriso pequeno lhe surgiu.
— Não, são do meu irmão. — ele soltou, em seguida apontando para a marca de segunda demão de tinta, que estava bem ao lado — As minhas ficavam bem aqui, mas eles fizeram questão de apaga-las.
Yoongi pode ver o rosto triste de Jeongguk, que o rapaz tentava a todo custo esconder. Nesse momento, ele queria ter dito algo bonito para o reconfortar, todavia, não era tão bom assim com coisas desse tipo.
O Jeon continuou a vasculhar a casa com seus olhos, como se quisesse juntar todas as memórias boas que ainda lhe restavam dali, em um clamor mudo de não odiar sua família, apesar dos pesares. Parou diante do toca-fitas antigo de seu pai, havia uma pequena quantidade de poeira ali, o tal toca-fitas que seu pai sempre fizera tanta questão de conservar em um bom estado.
Apertou um botão, ouvindo a voz do Bon Jovi ecoar pela casa. Seu pai sempre fora um grande fã, ao ponto da família já conhecer todas as letras de cor.
— Já era tradição chegar em casa e ouvir essa. — em uma risada fraca, o mais novo voltou a olhar as peças de casa, até parar diante da mesinha onde as fotos de família estavam.
E como o esperado, ele não estava mais em nenhuma delas. Agora uma nova foto de família habitava o centro da mesa, com seu pai, seu irmão e sua mãe segurando um bebê ainda muito pequeno, a data num canto da foto relava ter sido tirada no natal passado. Eles tiveram outro filho, eles também tiveram o recomeço deles.
Sem nenhum Jeongguk.
— Sabe, Yoongi, eu queria dizer que não me importo, mas eu estaria mentindo. — o mais novo colocou a foto de volta no lugar, um suspirou pesado escapou de seus lábios, lotado de frustrações. O Min o abraçou pela cintura tentando lhe passar alguma força, enquanto o Jeon colocava a mão por cima da sua, com uma certa tristeza no rosto, uma dor no coração, mas uma vontade imensa de passar uma borracha em tudo que o fazia se sentir tão m*l.
Virando-se para o Min, Jeongguk o abraçou forte, colocando sua cabeça por sobre a cabeça do mesmo, e se permitindo soltar uma lágrima, uma lágrima pesada e carregada de sentimentos ruins. Seu coração estava tão apertado, mas sua cabeça ainda estava no lugar certo. Precisava ser racional, sua vida necessitava de um recomeço. Pra falar a verdade, Jeongguk estava aos cacos.
E Yoongi totalmente disposto a juntar cada um deles, e tornar aquele garoto, que tanto se fazia de forte, inteiro novamente.
Seus corpos começaram a se balançar, e ao som de Always, ainda na velha fita do Bon Jovi, os dois começaram com aquilo que mais se parecia com uma dança lenta e completamente fora de ritmo. O rosto de Yoongi completamente afundado no rosto do maior, entre um passinho para cá, e outro para lá, naquela manhã tão nostálgica e melancólica, num outono tão laranja.
Tão sem graça quanto um final de filme romântico com um bonitão desconhecido, e uma garota sem sal.
— Yoongi, obrigado.
Ao fundo, a voz rouca dizia no meio daquela canção, um “e eu sei que quando eu morrer, você estará em minha mente, e eu te amarei... sempre”, e talvez esse sempre soasse como um exagero, mas assim como nos contos de fada, ninguém nunca sabe o que acontece depois do “felizes para sempre”.