Seu corpo doía para se mexer, mas a sensação de estar ali era magnifica, as lembranças da noite passada estavam cravadas em sua mente como se tivessem sido riscadas à ferro. Os raios da manhã iluminavam o quarto, havia esquecido de fechar as janelas na noite passada. Mas isso não tinha importância nenhuma naquele momento. Era perfeito, e seria perfeito enquanto tivesse os braços de Jeongguk para o aquecer.
Seus olhos demoraram para se acostumar com a luz da manhã, um vulto se formava em sua frente, aos poucos criando forma, uma forma apavorante e conhecida. A mulher parada na porta do quarto olhava para aquela cena como se assistisse a um filme de terror. E talvez fosse, para ela. Sua expressão era um mistério, e Yoongi só conseguiria deduzir que não era de agrado.
— Luhyun.
A mulher saiu pela mesma porta que havia entrado, o Min catou seu roupão no chão rapidamente e saiu ainda o vestindo, corria atrás da mulher de maneira apressada, quase tropeçando nos próprios pés. Gritava seu nome, mas ela continuava o ignorando.
Somente quando já estavam ao pé da escada que Yoongi conseguiu alcança-la, ela parecia muito irritada e à ponto de xingar, gritar ou simplesmente começar a bate-lo, pronta para descontar a raiva que sentiu ao olhar aquela cena, que aos seus olhos era grotesca. Yoongi queria falar alguma coisa, dizer que finalmente estava completo, falar para sua melhor amiga que havia encontrado seu real desejo. Mas ela não parecia ficar feliz.
— Fico feliz que tenha encontrado o que sempre quis. — aquele sorriso era o mais falso que já tinha visto em sua vida, e a voz era tão carregada de amargura que chegava a se embargar — Espero que tenham fodido muito na noite passada.
Era raiva. Aquela que um dia viu como melhor amiga agora o olhava com desprezo, com nojo. Ela deveria saber, ela o conhecia o suficiente para saber o que ele queria, saber o que ele sentia, e o que sua falta de desejo por ela significava. Mas por que se irritar tanto? Por que ela havia tido uma reação daquelas? Não fazia sentido, a Luhyun que conhecia, a Luhyun que amava não era assim.
— Luhyun, isso...
— Eu sabia que mais dia menos dia você iria começar a sair com homens, era inevitável. — ela continuou andando em direção à porta, Yoongi a seguia, conturbado e desolado — Só não esperava que fosse ser tão rápido, e que o traria para a nossa casa, dormiria com ele na nossa cama!
Luhyun bateu a porta indo embora, deixando Yoongi sozinho naquela sala, sozinho novamente, da mesma forma que o deixou antes. O Min se arrastou e deixou seu corpo cair sobre o sofá, abraçou os joelhos se pondo a chorar, chorar todas as lágrimas que já havia segurado. As lágrimas que queria ter chorado em cada rejeição que sofreu, as lágrimas que deveriam ter caído na primeira pancada que recebeu por ser... Por ser gay!
Não adiantava, se nem Luhyun conseguia entender, quem entenderia? Quem entenderia esse sentimento maldito que sentia por homens? Tudo seria ainda pior, não seriam apenas portas que se fechariam diante de si, tudo se tornaria em um imenso Tsunami, o engolindo e o afogando cada vez mais, até não restar mais nada, apenas sua dor e sua solidão.
Saiu antes de Jeongguk acordar, e ao ocupar a cadeira dura da sala de reuniões era possível sentir o pequeno incômodo que a noite passada havia lhe deixado de lembrança, era r**m ficar sentado ali, e o pior de tudo era ter que fingir que não havia nada errado. Taehyung estava lá, com aquele mesmo olhar felino, mordendo os lábios sugestivamente várias vezes. Ele sabia, ele já havia notado, nada passava despercebido por ele.
Quando a reunião acabou e todos os executivos saíram da sala, o Kim permaneceu ali, o encarando como quanto queria o deixar constrangido. Ele era insuportável, Yoongi o via como um demônio enviado para atormentar seus dias, e o pior de tudo era não poder se livrar dele, não só pelo Kim per conhecedor de seu segredo, mas também por ser um ótimo funcionário e precisar de seus serviços.
Yoongi ficou de pé enquanto arrumava seus papeis dentro da bolsa, tentava ignorar os olhares de Taehyung, mas isso ficava cada vez mais impossível. O mais alto passou a caminhar pela sala, até parar ao seu lado, suas mãos foram para seus ombros, o empurrando para baixo. O Min não conseguiu conter o gemido baixo de dor quando foi sentado com brutalidade na cadeira.
— O garoto o maltratou muito na noite passada, Sr. Min? — sussurrou em seu ouvido, com aquela maldita voz grossa que o dava arrepios na espinha — Eu soube que ele é muito bom na cama.
Não queria admitir naquele momento, e talvez nem entendesse, mas sentiu ciúmes. Só de imaginar quantas pessoas já haviam estado na cama com Jeongguk o deixava agoniado. Ele era seu, seu e de mais ninguém. As pessoas não tinham o direito de falar dele, de tocar em seu nome dessa maneira tão desonrosa. Taehyung não tinha o direito de agir daquela maneira, ele estava ultrapassando todos os limites que a decência humana deveria ter.
— A sua devassidão é agoniante, Taehyung. — ergueu-se da cadeira, finalmente criando coragem para enfrentar aquele homem tão sem escrúpulos, não suportaria mais a sua falta de decência ali — Vá para casa e controle o seu fogo.
Yoongi saiu da sala de reuniões deixando Taehyung sozinho. O Kim ainda encarou a porta por longos segundos, sorriu de lado, orgulhoso, havia conseguido irritar seu chefe, e isso era bom, Yoongi costumava guardar todas as suas reações para si mesmo, era bom ver que ele estava se libertando de dentro da bolha de contenção que havia se colocado por tanto tempo.
O menino Jeon estava mesmo fazendo um bom trabalho, e Taehyung se sentia orgulhoso por ter sido o estopim daquela história.
[...]
Jeongguk estava almoçando sozinho, aquela casa ficava tão vazia quando Yoongi não estava lá, nem mesmo as empregadas conseguiam o animar, por mais que conversassem com ele e lhe contassem histórias sobre como era a vida de Yoongi com Luhyun. No começo elas havia relutado em contar, mas depois de perceberem a mudança de humor do patrão, e como ele parecia confiar no rapaz, acabaram por contar alguns detalhes de sua vida.
Terminou sua refeição e agora ajudava a lavar a louça, elas haviam prometido contar sobre como havia sido o casamento de Yoongi e a vinda para a casa nova se ele ajudasse a limpar a cozinha. Tagarelavam sobre coisas aleatórias quando a imagem de alguém na porta os fez parar. Era ela, ela estava ali, parada na porta com uma expressão de superior, julgando todos com seus olhos.
— Saiam. — foi o que ela disse, todos passaram ao seu lado na porta, a mulher agarrou a manga da camisa do rapaz o fazendo parar — Você não.
Jeongguk deu dois passos para trás esperando ela dizer alguma coisa, a mulher suspirou.
— Sente-se querido.
Mesmo desconfiado, o Jeon ocupou uma das cadeiras da cozinha, não desviava seus olhos da mulher, quase como se esperasse que a qualquer momento ela fosse tirar uma faca da bolsa e o matar ali mesmo. Ela sorriu novamente, Jeongguk podia ver o quão falso aquele sorriso era.
— Tirei uma foto sua enquanto estava dormindo, desculpe, não resisti, você é muito bonito. — cínica, ela era extremamente cínica. Havia voltado depois que viu Yoongi ir sair, queria ver de perto com quem seu marido estava dormindo, e ficou surpresa ao ver que se tratava de alguém tão jovem — Mas vamos direto ao ponto, qual a sua relação com o meu marido?
— Ele não é mais o seu marido.
A mulher aparentou desconforto, remexeu-se na cadeira, aparentemente incomodada com a rispidez das palavras do rapaz, falando com uma certeza tão absoluta.
— A questão não é essa. — ela não tinha uma boa resposta naquele momento — Eu te fiz uma pergunta.
Uma pergunta que Jeongguk não saberia responder, a resposta verdadeira era “nenhuma, sou apenas um acompanhante de luxo que ele contratou”, mas muitos motivos o levavam a esconder isso, primeiro, o contrato de sigilo, que o obrigava a manter sua relação em segredo, e em segundo o fato de ambos estarem envolvidos demais para deixar Yoongi ser exposto daquela maneira.
Não sabia mais o que Yoongi representava para si naquele momento, só sabia que ele não era mais um simples cliente, que o Min estava impregnado em seus pensamentos como se alguém o tivesse desenhado em sua cabeça. Não, Yoongi era muito mais do que um cliente, ele era um amigo, um confidente, um amante de verdade.
— Olha aqui, garoto, eu não sei quem você é, e nem quero imaginar que tipo de coisas desonrosas você faz com o meu marido. — ela mexia na bolsa, procurava alguma coisa — Mas se você tem alguma consideração por ele, peço que saia da vida dele e o deixe em paz, Yoongi é um homem de negócios, e se algum dia o relacionamento de vocês cair na mídia, será o fim da carreira dele, está entendendo?
Não havia parado para pensar bem nesse detalhe, mesmo que Yoongi perdesse o próprio preconceito, ainda haveria o preconceito das outras pessoas, ele poderia perder muita coisa. Seus amigos, sua família, seus negócios, tudo seria afetado, e talvez Yoongi não estivesse pronto para suportar tudo isso. Odiaria ver a vida do Min se ruindo dessa forma. Ele era um garoto de programa, seria um escândalo ainda maior, todos cairiam matando.
— Não destrua a vida do Yoongi, o deixe em paz.
[...]
Já estava de noite quando Yoongi chegou, aparentava estar cansado, seus ombros se curvavam e ele bocejava. Quando abriu a porta do quarto, ver Jeongguk arrumando as malas o deixou ainda pior, olhar aquela cena era como ligar um interruptor que havia teimado em desligar, Jeongguk iria embora, e a hora havia chegado, infelizmente havia chegado, e isso partia seu coração em pequenos pedaços.
Droga! Ele estava apaixonado, apaixonado de verdade por aquele garoto, e não queria que ele fosse embora, não queria ficar longe dele nunca. Mas era covarde, era covarde demais para admitir isso, para pedir para ele ficar, para dizer que estava apaixonado, para ser sincero pelo menos uma vez na vida.
Mas que merda, Jeongguk! Por que tinha que ser assim? Por que tinha que se apaixonar tão fácil? Por que ele tinha que ser tão doce e apaixonável daquela maneira? Porque talvez, talvez se Jeongguk não fosse tão caloroso, tão bom, tão meigo... Se não fosse tão ele! As coisas teriam sido de outra maneira, e não se encontraria tão perdido quanto estava naquele momento.
O rapaz pôs a mala no chão, e só então percebeu que Yoongi estava parado na porta.
— Ah, olá, Sr. Min, achei que não voltaria mais esta noite. — ele estava exatamente da maneira que estava no dia que chegou, distante, meio frio, e o chamando daquela forma.
Aquilo partia o coração do Min ainda mais.
— O que está fazendo?
— Indo embora, já se passaram sete dias, lembra? Meu contrato acabou.
Havia ficado tão ocupado o dia todo que havia esquecido que Jeongguk iria embora naquela noite. Merda merda merda! Queria ter ficado mais tempo com ele, queria ter feito amor com ele outra vez, tê-lo beijado uma última vez. Não! Ele não podia ir embora agora, ainda precisava dele, precisava daquele maldito amor falso dele. Precisava de suas mentiras, precisava ser enganado mais uma vez.
O rapaz passou por ele arrastando a mala de metal, Yoongi teve que correr e se colocar entre ele e a porta, o impedindo de ir.
— Sr. Min, por favor, eu preciso ir.
Ele queria chorar, Yoongi não suportava mais aquela dor, era r**m demais, pior do que imaginou que seria. Não! Seu Jeongguk estava indo embora.
— Por favor, fique comigo só mais essa noite. — o Min se agarrou na camisa do mais novo, a amassando, estava desesperado.
Jeongguk sentia seu coração arder, não estava mais aguentando ver Yoongi daquela maneira. Era c***l demais ter que deixa-lo, mas não podia fazer nada, não podia ficar e deixa-lo ainda mais iludido, afoga-lo ainda mais naquela mentira, seria desumano tornar as coisas ainda piores.
Tinha que ir embora, empurra-lo para longe se fosse preciso.
— Não posso, Sr. Min, por favor, me solte.
Mas Yoongi o abraçou, afundando a cabeça em seu peito e aspirando seu cheiro de maneira necessitada. O Min lutava contra suas próprias, não queria chorar na frente dele. Jeongguk não retribuiu o abraço, pelo contrário, puxou seus braços tentando fazê-lo soltar. Yoongi o apertava mais forte, se recusando.
— Sr. Min, está tornando as coisas mais difíceis, por favor, pare com isso.
Todavia, era inútil, Yoongi não o soltou.
O Jeon perdeu a paciência, se ficasse ali mais dez segundos acabaria cedendo e ficando mais uma noite. Não podia, não podia mentir mais para ele, Yoongi precisava seguir sua vida, tentar se entender com outra pessoa, encontrar alguém que não fosse... não fosse um garoto de programa! E fosse feliz de verdade sem mentiras, sem ordens, sem precisar pagar por amor.
Soltou seus braços de maneira bruta e o empurrou contra a parede, Yoongi deslizou lentamente até o chão, seu coração doía bem mais do que suas costas naquele momento.
— Jeongguk, por favor, diga que me ama só mais uma vez. — implorou, a voz estava ficando grossa, ele iria chorar.
O rapaz o olhou, ficou em silêncio por longos segundos, parecia pensar. Não podia fazer aquilo com ele, não podia dizer que o amava, foi justamente aquela mentira que o afundou ainda mais, todas as vezes que disse que o amava estava alimentando ainda mais aquela ilusão que havia criado, piorando tudo, deixando Yoongi ainda mais cego de paixão. Não, não podia dizer que o amava.
— Desculpe, Sr. Min, mas eu não amo você.
A faca foi cravada em seu peito, Yoongi perdeu o ar, e então a primeira lágrima caiu, Jeongguk presenciou a primeira gota cair no chão e manchar o carpete. Estava acabado, a corrente foi quebrada, aquele era o fim daquela brincadeira de mau gosto vivida pelos dois.
Jeongguk passou pela porta, foi embora, deixando para trás um Yoongi que chorava no chão de seu quarto, sentindo cada pedacinho de seu coração ser esmagado por aquela frase:
“eu não amo você”.