Yoongi não tinha o hábito de beber, isso com certeza não era algo que combinava com ele, então o primeiro gole desceu rasgando, a bebida quente ardia em sua garganta, mas não era nada em comparação à ardência em seu coração, que mais parecia estar pegando fogo. Agora não mais saberia dizer se era de raiva ou paixão, só sabia queimava, e o deixava desconfortável.
Ele só queria fazer aquela dor parar, mas ela não parava, então ele bebia mais, arrastando para o seu quarto todas as garrafas que outrora enfeitavam o móvel da sala. E depois da terceira garrafa ele já não precisava mais de copos, e já não sabia exatamente o que estava ingerindo. Min Yoongi havia descido diretamente ao fundo do poço em apenas algumas horas.
Seu coração estava partido, e tentava agora colar os cacos com álcool.
Ligou o notebook indo diretamente para a pasta de fotos, abriu em uma foto de Jeongguk sorrindo durante a viagem que fizeram. Maldito sorriso, tão bonito que fazia o Min ficar parado apenas o admirando por longos segundos. Mas se afastou, passando a encarar a foto como se fosse um inimigo. Fazia gestos com os braços, típicos de um bêbado, abriu a boca várias vezes para falar alguma coisa, mas não dizia nada. Sons estranhos saíam de sua boca, ele parecia tonto.
— Você! — apontou para a tela do notebook, a garrafa balançando em sua mão e derrubando bebida para todos os lados — Você acha que pode fazer o que quiser comigo e depois ir embora?
A voz embargada pelo álcool, em sua cabeça, era como se Jeongguk estivesse bem ali em sua frente, e não apenas em uma foto. Levantou a garrafa, apontando novamente para a tela.
— Faz ideia do quanto fodeu com a minha cabeça? — perguntou para a imagem, não parava de se mexer e derramar bebida sobre o colchão, que já estava começando a ficar ensopado — Eu confiei em você, deixei você deitar na minha cama, eu deixei você me comer!
Jogou-se de costas sobre a cama, deitando os braços e terminando de derramar o restante da bebida que restava na garrafa sobre o colchão. Começou a rir olhando para o teto, rindo como raramente ria, sozinho naquele quarto escuro, era deprimente o ver naquele estado.
— A minha b***a ainda está ardendo.
Ele continuou a rir sozinho, olhando para o teto como se as imagens mais interessantes do mundo estivessem ali. Não havia nada, era tudo não vazio e escuro quanto seu coração, naquele momento. Ergueu-se da cama, voltou a encarar a imagem na tela do notebook, enquanto andava de um lado para o outro pelo quarto. Era como se brigasse com ele, ao mesmo tempo que brigava sozinho.
Apontou para a tela de forma acusadora, catou mais uma garrafa pela metade que estava jogada no chão, bebeu tudo de uma vez, até que estivesse vazio, fechou os olhos, iria começar a chorar de novo a qualquer momento. Suas reações mudavam, quanto mais bêbado ficava, mais sentido suas palavras e ações se tornavam, em um gole estava feliz, no outro estava triste.
E no terceiro queria morrer.
Sempre haveriam terceiros.
— Quer saber? — perguntou para o vazio — Eu não preciso da droga das suas mentiras! — a garrafa sempre balançando em mãos, derramando pelo chão, o Min continuava a apontar para a tela do notebook, como se aquela foto pudesse ouvi-lo — E daí se eu quiser me enganar? E daí se estou me afogando em mentiras? Eu posso comprar quantas mentiras eu quiser!
Arrastou a cadeira para a mesa, largou a garrafa, digitou algo nas pesquisas, indo novamente para o mesmo site em que havia contratado os serviços de Jeongguk. Em outras ocasiões, abrir aquela página seria nostálgico, mas naquele momento, a única coisa que se passava na cabeça de Yoongi, era comprar uma nova mentira, que lhe servisse de bandagem para tapar aquela ferida deixada por Jeongguk.
— Quem eu vou escolher dessa vez?
Foi a primeira vez que Yoongi olhou para aquela lista de pessoas como se fosse apenas o catálogo de uma revista. Estava bêbado e carente, ele queria alguém, mas nenhum deles ao menos se comparava ao que Jeongguk era. Nenhum deles, nenhum deles, aqueles homens não pareciam humanos como Jeongguk era, não tinham sorrisos tão calorosos e nem mesmo os olhos doces como Jeongguk.
Porque não importava o quanto procurasse, ninguém poderia substituir o homem por quem estava apaixonado. Bebeu mais um gole, tentava esquecer, mas quanto mais ele bebia, mais se lembrava, mais ainda os detalhes ficavam nítidos em sua mente. Cada um daqueles detalhes tão perfeitos.
Mas que merda! Odiava sentir aquilo, aquela maldita dor que só aumentava. Não era justo, Jeongguk havia saído ileso naquele tiroteio de emoções, e apenas ele parecia ter ficado tão machucado. Yoongi se sentia um fracassado, por ter se deixado levar tão fácil com aquela mentira. Se sabia desde o começo que ele iria embora, por que se deixou nutrir todos esses sentimentos?
Estava sufocado.
— Perfeito! — ele até bateu palmas e riu — Você se parece com ele, você pode ser meu novo Jeongguk. — olhava para a foto de uma rapaz, moreno e de olhos negros, a pele levemente bronzeada, a descrição informava sua altura, ele era tão alto quanto Jeongguk — Não, você tem que ser melhor que ele, JB.
Não demorou para preencher tudo, do jeito que conseguia, Yoongi estava tonto, e o mais difícil era lembrar a senha de seu cartão de crédito para poder fazer a transferência do valor. JB era um 4.3, um pouco abaixo do que Jeongguk é, e seu preço era um pouco menor, mas Yoongi não estava preocupado com isso naquele momento. Pagou um adicional para que ele viesse imediatamente, recendo sua localização e um relógio em contagem regressiva.
Olhou para os segundos se passando, os minutos diminuindo, estava ansioso para conhecer sua nova mentira e se afogar nas mentiras dele também. Não, não se deixaria apaixonar por outro homem, seu coração sempre seria de Jeongguk, mesmo que esse sempre só durasse até que outro ocupasse seu lugar.
Já era madrugada, tudo estava tão escuro, e nenhuma luz da casa estava acesa, a única coisa que iluminava ali era a luz da tela do notebook posto sobre a mesinha de canto. Bebeu mais enquanto esperava o tempo passar, ainda resmungando sozinho e falando coisas sem sentido nenhum, hora ou outra voltava a discutir com a foto de Jeongguk, dizendo para ele que iria esquecê-lo.
Mentindo novamente.
Faltando cerca de 10min. O localizador informou que ele já estava no prédio. Yoongi deixou a garrafa de bebida no chão e passou a se arrastar em passos lentos até a sala. Quase caiu da escada por não enxergar os degraus, e só quando estava perto da porta que se lembrou que só precisava bater palmas para acender a luz. Mas a luz irritava seus olhos, vermelhos e inchados. Piscou várias vezes tentando se acostumar, lacrimejava.
Ouviu a batida discreta na porta e a abriu. Ele era ainda mais alto que Jeongguk, jovem, porém com uma fisionomia mais madura, ele não carregava aquela mesma inocência que o Jeon, o ar que vinha de JB parecia pesado, quente, como se ele devorasse a todos apenas com os olhos. Aqueles olhos, olhos misteriosos, que carregavam de forma oculta um monte de absurdos.
Novas mentiras para serem contadas.
— Boa noite, Sr. Min, estou aqui para ser tudo o que quiser que eu seja.
Yoongi ficou calado, o encarava, analisando cada detalhe daquele homem. A bebida subia para a cabeça, suas não fazia sentido nenhum, estava tonto demais, sentia seu corpo formigar, como se quisesse ficar dormente. Suas pernas perdiam as forças, ele estava completamente perdido em meio ao que estava fazendo. Estava embaralhado, tudo em sua cabeça era bagunça.
Queria chorar.
— Você pode ser Jeon Jeongguk?
O rapaz meneou a cabeça para o lado esquerdo, mas sorriu logo em seguida, largou a mala em um canto da sala e tirou seu casaco, ainda olhando para Yoongi.
— Posso ser quem o senhor quiser, ter o nome que quiser, agir do jeito que quiser. — o sorriso gentil no rosto do moreno parecia tão forçado, tão falso, ele claramente não queria estar ali. Assim como Jeongguk não queria no dia que chegou — Posso ser tudo o que sempre quis.
Tudo o que Yoongi queria naquele momento era Jeongguk. E o engraçado de tudo aquilo era ter que mentir para poder passar por cima de outra mentira. E daí se o machucaria ainda mais? Gastaria até seu último centavo para ter pequenos momentos felizes. E daí se eram mentiras? Era da mentira que ele gostava, e se Jeongguk não estava mais disponível para mentir, pagaria pelas mentiras de outra pessoa.
Até que seu coração explodisse de dor.
Na visão de JB, era engraçado ver Yoongi com os braços estendidos pedindo por colo, o Min estava bêbado, completamente bêbado, deixando seu lado carente transparecer completamente. O rapaz o pegou nos braços, deixando o menor entrelaçar as pernas em sua cintura, como uma criança pedindo proteção. E mesmo sem saber exatamente para onde ir, o rapaz começou a subir as escadas, sentindo Yoongi o apertar um pouco mais forte e começar a beijar seu pescoço.
— Segunda porta.
Entrou no quarto do Min se deparando com toda aquela bagunça, várias garrafas jogadas no chão e o cheiro de álcool impregnado no carpete. Nem fechou a porta, sentou-se na cama com Yoongi ainda em seu colo, o Min começou a pular no colo do mesmo enquanto ria como uma criança em um parquinho de diversões. JB estava confuso, o comportamento do Min estava longe de ser aquilo que esperava.
O menor empurrou seu corpo para que ele caísse sobre o colchão, fazendo o cheiro da bebida derramada no colchão subir. Começou a beijar seu pescoço e tentar abrir sua camisa de forma apressada e desajeitada, arrancando alguns botões no processo. Parou o que estava fazendo, deixando as mãos sobre o peito do moreno, agora com parte da camisa aberta e amassada.
— Você tem que ser melhor que ele! — gritou, mesmo estando com o rosto tão perto — Seu corpo tem que ser mais quente, tem que me f***r melhor do que ele fodia, me amar mais do que ele dizia amar. Está me ouvindo? Minta pra mim, diga que me ama, diga que sou tudo na sua vida, e que vai ficar comigo pra sempre!
Havia começado a chorar novamente, deixando suas lágrimas cair sobre o peito do rapaz, que se encontrava ainda mais confuso, quase que sem reação, não podia sair de seu personagem, estava ali para mentir e atender todos os pedidos de seu cliente, ser quem ele queria que fosse. Mas aquele homem parecia tão destruído, tão abatido, que mentir para ele naquele momento era como puxar o pino de uma granada.
— Fala pra mim, fala que me ama! — irritado pela falta de reação do mais novo, o Min passou a bater em seu peito, queria descontar sua raiva, mas não conseguia machucar, estava tão fraco que nenhum de seus socos era capaz de machucar — Diz que me ama, por favor.
Mas ele não disse, não conseguia dizer. Seja lá quem esse tal de Jeongguk havia sido para aquele homem, ele não conseguia ser c***l como ele, e dizer que o amava o vendo naquele estado. No fundo do poço.
Segurou seus pulsos o fazendo parar, o puxou para que deitasse em seu peito, e o ouviu chorar e resmungar coisas sobre o Jeon por longos minutos, até que finalmente adormecesse.
[...]
Sua cabeça latejava, havia bebido demais e estava começando a se arrepender disso. Se revirou na cama a sentindo molhada, o cheiro da bebida ainda por toda parte. Sua cabeça doía tanto, e a luz do dia queimava seus olhos. Sentiu procurando por seus chinelos, queria levantar, mas estava tonto. A figura de um homem surgiu na porta, estranhou, não conseguia se lembrar dele.
— Quem é você? — perguntou, piscando os olhos enquanto tentava se acostumar, estava enjoado, sentia que vomitaria a qualquer momento — Por que está no meu quarto?
— Sou Im Jaebum, o senhor contratou meus serviços ontem à noite.
Yoongi arregalou os olhos, não se lembrava de nada.
— Mas não se preocupe, nós não fizemos nada, você só chorou e ficou falando sobre o quanto ama Jeon Jeongguk, e o quanto o odeia por ter ido embora. — o rapaz o olhava sério, com as mãos nos bolsos e um pequeno sorriso no rosto, ele era muito bonito, e os cabelos molhados o deixavam mais atraente. Mas para Yoongi, nada se comparava ao que Jeongguk era, e nenhuma beleza se comparava com a dele — Eu estou indo, peço desculpas, você terá seu dinheiro de volta, não posso ficar com você.
O Min meneou a cabeça, por mais que nem se lembrasse de tê-lo contratado, se sentia rejeitado ao ouvir aquilo, se nem alguém que estava sendo pago conseguia ficar ao seu lado. Quem ficaria? Se sentia meio perdido em toda aquela história, mesmo que tentasse se lembrar, a única imagem nítida em sua mente era a de Jeongguk indo embora após afirmar que não o amava.
Se sentia um lixo por ter se deixado afundar tanto.
— Não, você pode ficar com o dinheiro. — dinheiro não importava naquele momento — Mas por que está indo embora? Quer dizer, eu iria pedir para que fosse, mas...
— Eu sei quem o Mr.Rabbit é, quer dizer, nos tombamos algumas vezes em eventos que fomos contratados juntos, quando disse o nome dele não consegui me lembrar já que a maioria de nós não costume divulgar o nome verdadeiro, mas quando você me disse que era do Mr.Rabbit que estava falando, percebi que se tratava de alguém como eu.
Aquilo parecia uma esperança, e Yoongi não conseguia esconder o quanto estava feliz só em falar sobre ele, não queria se sentir assim, deveria sentir raiva nesse momento. Mas não conseguia, Jeongguk era importante demais, e aquele sentimento já estava grudado nas paredes mais profundas de seu coração, se tornando impossível de arrancar dali.
— Para pessoas como nós, se apaixonar é um crime. — o moreno tirou as mãos dos bolsos, caminhou até onde sua mala estava, havia a levado pra cima para poder tomar um banho e se trocar — Ele pode sentir o mesmo e ter medo do seu sentimento ser algo passageiro, e que no fim o único prejudicado seja ele — o rapaz segurou na alça da mala enquanto caminhava novamente para a porta, parou para olhar para o Min — Se o ama mesmo, Sr. Min, pare de ser um covarde e o procure.
Yoongi o olhou ir embora, em silêncio admitiu para si que ele estava certo, que aquele sentimento não era a simples paixão que imagina, e sim que realmente amava Jeon Jeongguk com todas as suas forças, e mesmo que fosse rejeitado outra vez, falaria a verdade.
Sem mais mentiras.
Sem mais personagens.