CAPITULO 6

1250 Words
LEILA HOFFMAN Louise é uma mulher incrível. Casada com o Don, confesso que achei que ela seria daquelas pessoas insuportáveis só por ostentar o título de esposa do chefe; no entanto, o oposto é a pura verdade: ela é inteligente, cativante e super divertida. — Leila, vou te levar para conhecer a Beatrice. Não liga para a loucura dela, no final você acaba se acostumando — comentou Louise enquanto dirigíamos até uma casa deslumbrante. Assim que chegamos, Beatrice nos recebeu de braços abertos. — Olá, meninas! Achei que iam demorar mais para chegar, mas já estou terminando de me arrumar. — Tudo bem, Lou. Só vim deixar a Leila e já vou voltar para casa, preciso terminar a montagem do quarto do bebê hoje ainda — avisou Louise. — Sem problemas, Lou, vai lá. Até mais tarde! — Beatrice bateu a porta do provador e logo partimos rumo ao shopping. Fizemos unhas, cabelo, depilação e tudo o que tínhamos direito. Eu nem me lembrava da última vez em que havia me divertido tanto, respirado leveza e me sentido humana. Compramos até um vestido novo para a balada daquela mesma noite. — Eu nunca pus os pés em uma balada na vida, então por favor não riam da minha cara se eu não souber dançar — confessei, rindo nervosamente. — Gata, o que você não souber, a gente te ensina na marra! — Beatrice respondeu piscando. — Olha, Leila, agora você faz parte da nossa família. Não é uma família normal, claro — afinal, o que se podia esperar do submundo da máfia? —, mas posso te garantir que somos o que há de melhor por aqui, e você vai perceber isso com o tempo. — Eu não tive muito convívio direto com a máfia, e isso eu devo agradecer ao meu pai, que me isolou desse meio. Porém, sempre vivi debaixo das regras implacáveis da organização e sabia perfeitamente o que uma mulher nascida nesse mundo precisava entender. Só que, quando me casei com o Otto, descobri o inferno particular em que a maioria de nós vive. Nos anos em que estive com ele, perdi as esperanças de ter uma vida de verdade. Parei de me importar com a minha aparência; para falar a verdade, aquilo virou um mecanismo inconsciente de defesa. Eu achava que, se o Otto não me achasse mais atraente, ele pararia de violentar o meu corpo. Com o tempo, até funcionou um pouco, mas olhar no espelho me dava uma vontade enorme de chorar. Até poucos meses atrás, ainda dava... Eu sei que ainda não recuperei nem cinquenta por cento do que era antes dele, mas agora estou confiante de que posso ter um destino diferente. Quer dizer... isso só depende do Don, né? — Olha, Leila, eu entendo perfeitamente pelo que você está passando. Acredite, eu vivo algo parecido, só que sem as agressões físicas... Acho que a maioria de nós está de alguma forma fardada a sofrer neste meio — Beatrice murmurou, e os olhos dela transmitiram uma tristeza tão profunda que me cortou o coração. Parecia que todas nós carregávamos o mesmo tipo de cicatriz invisível. Terminamos as compras e encontramos o Alessandro esperando no estacionamento. Ele me deixou de volta na cobertura do Klaus, despedi-me de Beatrice e subi. Antes mesmo de as portas do elevador se abrirem por completo, ouvi as risadas e as vozes animadas de Klaus e Saymon. Assim que pisei na sala, o menino disparou correndo na minha direção. — Mamãe, você chegou! Hoje o dia foi incrível! O tio Klaus me levou para tomar sorvete e depois me levou em uma loja de videogames gigante, e ele me deu um console novinho, mamãe! Ah, eu também ganhei uns carrinhos irados! — E você agradeceu por tudo direitinho, mocinho? — perguntei, erguendo uma sobrancelha. — Claro, mamãe! Porque um menino bonito que nem eu precisa ser super educado — respondeu ele com a maior empáfia do mundo. — Tem de ser educado — dissemos eu e Saymon em uníssono. — Muito bem — sorri, virando-me de relance para Klaus e gesticulando um obrigada silencioso com os lábios. — O Saymon vai ficar sob os cuidados da Jude esta noite — Klaus explicou, aproximando-se. — Ela é sobrinha da Marina, que trabalha com a tia Amélia desde que éramos crianças, então é uma pessoa de total confiança. Tenho alguns negócios para resolver na boate hoje, e o Enzo e o Caio vão levar a Beatrice e a Louise. Eu posso te levar também, claro... se você quiser ir, é lógico. — Quero sim! A Beatrice fez questão de me fazer comprar um vestido novo justamente para essa ocasião. — Ótimo, então fechado. Consegue ficar pronta até as dez? — Claro! Afinal, vamos para uma boate, não para um altar de casamento. Temos quatro horas inteiras ainda. — A Helena demorava uma eternidade para se arrumar. Ela é a única referência de mulher se arrumando que eu tenho na memória, me desculpe — Klaus comentou, e ambos acabamos rindo da lembrança. — Ela parecia ser uma pessoa incrível... — notei o brilho imediato nos olhos dele; um orgulho genuíno e doloroso ao mesmo tempo. — Incrível, Leila. Você tinha que ter conhecido a minha irmã. Extrovertida, inteligente... Eu nunca vi a Helena de mau humor ou com uma energia negativa. Era uma menina linda, que cativava tudo e a todos com um sorriso fácil. Mas era completamente maluca! Já tive que me meter em cada enrascada homérica para tirá-la de confusões... Olhando para trás, faria tudo exatamente igual. Como eu sinto falta da minha abelhinha... Não havia dias tristes ao lado dela. Sinto tanto a falta dela que, às vezes, chego a ouvir a sua voz ou a sentir o seu cheiro pela casa. Enfim, eu a perdi, mas a passagem dela por aqui foi linda e inesquecível. Ela teria adorado você, Leila. — Eu, com certeza, também teria gostado muito dela — respondi, tocada. A dor e a saudade estampadas no rosto de Klaus eram palpáveis, mas a forma com que ele falava da irmã era simplesmente invejável. Pensei comigo mesma que daria tudo para que alguém um dia me amasse a ponto de falar de mim com tamanho orgulho... Coloquei o Saymon para dormir e corri para o meu momento spa. Acabei me perdendo no tempo entre cremes e cuidados, e quando olhei no relógio, já passavam das nove e meia. Vesti um tubinho de cetim preto que ia até o meio das minhas coxas, uma bota de cano alto sem salto, uma jaqueta de couro e a bolsinha de lado. Na maquiagem, optei pelo clássico "menos é mais": gloss labial, um toque leve de blush, rímel generoso nos cílios e, para dar um toque de glow no olhar, um delineado gatinho bem fininho. Desci as escadas apressada e não vi Klaus na sala. Quando virei o corpo para voltar em direção à cozinha, dei de cara com ele parado na soleira. O jeito abrupto como ele me avaliou de cima a baixo me fez congelar no lugar e questionar se eu havia cometido um erro terrível na escolha do visual. Meu Deus... Será que exagerei na maquiagem? Será que o vestido é vulgar demais? Porque o olhar fixo que aquele homem está me lançando só pode indicar duas coisas: ou eu errei feio na produção, ou estou estonteantemente linda — e só isso explicaria o fato de o temido Klaus Petrov ter perdido completamente a fala.
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