CAPITULO 2

1207 Words
Leila Hoffman Até os dezoito anos, a minha vida seguia um curso perfeitamente normal. Éramos apenas eu e a minha avó dividindo o teto, e eu via meu pai poucas vezes ao ano — a última lembrança sólida que guardava dele remetia à festa do meu aniversário de quinze anos. Sou filha única do ex-chefe da guarda da máfia alemã. Minha mãe faleceu ao me dar à luz, e eu sabia que, como qualquer mulher nascida dentro daquele submundo, o meu destino inevitável seria um casamento vantajoso. O que eu jamais poderia prever era que meu pai pretendia me entregar justamente ao próximo capo... Apesar de pertencer à aristocracia da máfia, eu levava uma rotina de adolescente comum: frequentava o colégio, tinha amigas e cultivava pequenos segredos. A parte mais chata de tudo aquilo era ter que esconder minha realidade delas, sem poder ir a festas, encher a cara ou beijar na boca como toda adolescente tola costuma fazer aos dezesseis anos. Confesso que adorei o momento exato em que o ensino médio chegou ao fim, pois assim me livrei de ter que inventar tantas desculpas. No entanto, no dia em quecompletei dezoito anos, a casa onde eu vivera a vida inteira foi invadida. Homens armados me levaram à força, alegando que eu havia sido prometida em casamento ao capo Otto Hoffmann. Minha avó tentou intervir, desesperada, mas foi totalmente em vão. Quando vi Otto pela primeira vez, confesso que fiquei encantada, mas também profundamente intrigada. O que um homem do alto escalão da máfia faria questão de se casar comigo, filha de um simples chefe de guarda? O tempo, infelizmente, fez questão de responder a essa pergunta com fatos dolorosos. No início, eu enxergava Otto como um homem incompreendido. Sim, eu estava cega, permitindo-me ser fascinada por uma beleza fria que mascarava a verdadeira ruína. Tudo mudou no dia em que o desobedeci pela primeira vez... Eu estava radiante por ter conseguido ir a uma exposição de artes barrocas, minha grande paixão desde a infância. Naquele dia em particular, tive a honra de conversar com a minha maior inspiração no ramo artístico; trocamos tantas ideias fascinantes que perdi completamente a noção do tempo. Quando olhei para o relógio, já beirava as onze da noite. Despedi-me rapidamente e voltei para casa acompanhada por um segurança. Otto sempre soube onde eu estava; ele sempre sabia de tudo. Quando adentrei a residência, encontrei o ambiente mergulhado em uma penumbra sufocante, onde o único som perceptível era o eco seco dos meus saltos contra o piso de madeira. Ao passar pela sala de estar, vi Otto sentado no sofá, emanando uma aura pesada e intimidadora. — Essas são horas de uma mulher casada chegar em casa, Leila? Acho que estou te dando liberdade demais. — Ah, me desculpe, acabei perdendo a hora na exposição, o conteúdo estava fascinante... Mas ainda são onze horas, e você parece estar alcoolizado. É melhor ir deitar, querido. — Quem você pensa que é para me dar ordens, sua v***a? — O tom de voz dele explodiu em uma onda de fúria cega, fazendo o meu corpo inteiro tremer como se eu tivesse pisado em uma zona de guerra. E de fato havia entrado. — Não estou te dando ordens, Otto, apenas um conselho de quem se importa... — Naquele instante exato, eu compreendi, da pior maneira possível, que Otto não era incompreendido. Ele era completamente louco. Otto me arrastou escada acima pelos cabelos. Eu m*l conseguia me equilibrar sobre os saltos finos, torcendo os tornozelos repetidas vezes até alcançarmos o quarto. Mas a dor física dos tombos não foi absolutamente nada comparada à sessão de espancamento que sofri trancada naquele cômodo... Meu corpo parou de responder aos estímulos e, exausta de lutar em vão, entreguei-me por fim à escuridão. Daquele dia em diante, as surras tornaram-se parte da rotina, aplicadas sob qualquer pretexto, mesmo quando eu não era a culpada por nada. No quarto mês de casamento, descobri que estava grávida — uma gestação fruto de estupro e da violação sistemática do meu corpo. Mesmo sabendo que Saymon era o resultado de uma violência imperdoável, eu o amei intensamente desde o segundo em que soube da sua existência. Tentei escondê-lo de Otto o máximo que pude, mas, como já sabemos, é impossível ocultar uma gravidez para sempre. Quando ele descobriu, isolou-me completamente do mundo exterior, e a partir daquele momento o meu inferno pessoal tornou-se ainda mais insuportável. — Mamãe, amanhã nós vamos viajar para a Itália! — anunciou Saymon com os olhos brilhando de entusiasmo. — Quem foi que te disse isso, meu amor? — O tio Klaus, mamãe. — Tudo bem, Saymon. Agora sobe, a Jade já está te esperando para te arrumar para a escola. — Franzi o cenho, confusa. Eu não fazia ideia de que iríamos com ele para a Itália. Decidida a tirar a história a limpo, subi até o escritório de Klaus e bati duas vezes na porta. Eu raramente trocava mais do que duas palavras com ele; na verdade, quase não falava com ninguém na casa, exceto com a Jade, que me ajudava a cuidar de Saymon, e com a Dona Lia, a quem raramente via pelos corredores. — Pode entrar. — Ah, senhor... Só vim confirmar uma informação que o Saymon acabou de me passar. — Entre, Leila. E se for sobre a viagem, sim, vocês também vão conosco. Então, trate de arrumar as malas, pois partiremos amanhã à noite; preciso estar na Itália bem cedo. E, por favor, Leila, pare de agir como se eu fosse um perigo iminente para você e me chame apenas de Klaus. Não sou tão velho a ponto de merecer ser tratado por "senhor". — Ah, sim, me desculpe! Não foi minha intenção ofender, é pura força do hábito. Vou cuidar das minhas malas agora mesmo. — Virei-me tão depressa para sair da sala que acabei me esquecendo de abrir a porta direito, batendo de encontro a ela e desabando sentada no chão com o impacto. Meu Deus, que vergonha colossal! Comecei a me levantar apressada quando senti um par de mãos firmes e quentes envolvendo o meu quadril para me dar suporte. — Você está bem? Se machucou na queda? — Ah, eu estou ótima, obrigada, senh... Klaus, obrigada. — Saí do escritório em disparada, com o rosto ardendo, certa de que minhas bochechas estavam vermelhas como dois pimentões. Mas convenhamos, que raça de homem deslumbrante é esse, meu Deus? Desse jeito fica impossível manter a compostura. “Para, Leila! Ele é um mafioso. Todos os mafiosos são iguais, principalmente os mais atraídos.” É verdade, consciência, você tem razão. Já quebrei a cara gravemente uma vez na vida; não vou me deixar enfeitiçar por músculos definidos, uma pegada firme e um cheiro terrivelmente embriagante. Eu devo estar perdendo o juízo, não é possível que esteja tendo esse tipo de pensamento! “Ah, Leila, você é uma desavergonhada mesmo.” Cala a boca, consciência, quem comanda esta mente sou eu! Meu Deus do céu, eu estou completamente perdida. Será que não existe um mafioso feio neste mundo? Bom, pensando bem, é melhor nem sequer verbalizar essa pergunta, vai que ele decide me vender para algum velho barrigudo por insolência...
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