LEILA HOFFMAN.
Depois daquele encontro carregado de tensão com o Klaus, passei o resto do dia trancada no meu quarto. Só saí quando o Saymon voltou da escola; brincamos um pouco no jardim e, logo depois, fomos jantar. Após a refeição, coloquei-o na cama e fui deitar, mas acabei acordando no meio da noite com um pesadelo horrível e decidi ir nadar para tentar espairecer. Desde a morte de Otto, venho sendo assombrada por visões dele voltando para sequestrar o Saymon, um medo constante que tem roubado o meu sono por várias noites seguidas.
Estava nadando de um lado para o outro, completamente absorta nos meus pensamentos sombrios, quando ouvi passos abafados. Olhei por cima do ombro e vi Klaus espreitando atrás de uma das pilastras. A princípio, o instinto gritou que ele faria algo comigo, então relutei em sair da água. Mas logo imaginei que morrer afogada ali mesmo seria uma opção bem menos dolorosa, então decidi emergir. Vendo que ele continuava escondido me observando, resolvi que era melhor revelar que já sabia de sua presença.
— Precisa de algo, senhor? — perguntei, enquanto ele saía de trás da coluna. Por um momento, senti o ar ao meu redor se tornar denso, pesado.
— Bom, já que não precisa de nada, vou subir. Tenha uma boa noite, senhor... — virei-me para caminhar em direção à saída, mas foi aí que ele decidiu responder.
— Klaus. Me chame de Klaus, Leila. Eu não sou o seu dono. — Respirei fundo, sentindo o peito subir e descer, e virei-me para encarar aquelas esferas azuis que me fitavam como se pudessem ler cada recôndito da minha alma.
— Tudo bem, então... Precisa de algo, Klaus?
— Não, Leila, não preciso de nada. Apenas achei que alguém pudesse ter invadido a casa, por isso vim até aqui. — Eu já tinha dito que a voz desse homem é um verdadeiro pecado? Pelos anjos, que homem absurdamente gostoso!
“Leila, Leila, olha o perigo aí na sua frente...”
“Cala a boca, consciência intrometida! Eu sei muito bem que eles são perigosos, mas olhar e pensar não me põe em risco nenhum.”
— Não precisa se dar ao trabalho de se explicar, senh... Klaus, me desculpe. É que ainda preciso me adaptar a tudo isso. Bom, como não precisa de nada, já vou indo. Boa noite. — Eu não sei explicar o porquê, mas, no fundo, queria ter ficado um pouco mais perto dele, passado a mão por aqueles músculos definidos e sentido a textura da sua pele. Será que ela era tão macia quanto aparentava ser?
“Brinca mesmo, Leila. Macia deve ser a mão dele envolvida firmemente em volta do seu pescoço...”
“Cruzes, que consciência sádica você tem, Leila!”
Quando eu estava prestes a cruzar a porta de entrada da casa, ele me chamou de novo.
— Como sabia que eu estava aqui? Você ainda não tinha me visto. — Que tipo de pergunta era aquela?
— Nasci em meio a mafiosos, Klaus. E, além disso, passei cinco longos anos da minha vida convivendo sob o mesmo teto com um psicopata. Você realmente acha que eu conseguiria manter o Saymon são e salvo sem desenvolver um sexto sentido altamente apurado? Não é fácil, mas aprendi a antecipar o perigo milésimos de segundos antes de ter qualquer contato visual com ele...
— Sinto muito por tudo o que você foi forçada a passar. Ninguém neste mundo merece ser tratado daquela maneira.
— Você tem razão, mas, infelizmente, o Otto não tinha nada de bom para oferecer porque jamais aprendeu a ser bom. Sei que isso não justifica os seus atos, mas pelo menos ajuda a explicar... — Eu não estava defendendo-o, juro. Só que, infelizmente, era uma verdade nua e crua: o pai de Otto tinha sido um grande filho da p**a que jamais respeitou a própria esposa e criou o filho para ser uma mera máquina de vingança.
— Para mim, não existe absolutamente nada neste mundo capaz de justificar um homem agredir uma mulher. O fim que demos ao Otto foi até brando demais perto de tudo o que ele realmente merecia. — Lá no fundo, eu sentia uma ponta de pena, embora soubesse que ele merecia cada segundo daquele castigo. Eu não sou a favor da violência, mas a morte de Otto me trouxe um alívio imensurável.
— É...
— Siente pena dele?
— Sinto. Afinal de contas, até mesmo um monstro como o Otto merecia um pingo de compaixão em sua alma vazia. — Virei-me e fui direto para o meu quarto. Acho que Klaus concluiu que eu sentia algo além de mera pena por Otto, mas de jeito nenhum! Eu sentia pena porque ele poderia ter escolhido ser uma pessoa diferente, construído uma família de verdade e quebrado o ciclo terrível deixado pelo pai. Sinto pena da escolha errada que ele fez e que resultou em um fim que, a julgar por seus atos, deve ter sido doloroso...
Passei no quarto do Saymon para verificar se ele estava bem. Eu sabia que ele dormia em paz, mas precisava ter certeza absoluta; afinal, eu ainda não havia derrubado por completo a minha armadura de proteção.
De volta ao meu quarto, tomei um banho relaxante, passei meu hidratante favorito e sentei-me na penteadeira para secar o cabelo. Enquanto o secador zumbia, minha mente vagava para o futuro incerto e no destino que o Don me reservaria. Saymon seria o próximo capo da máfia alemã, mas eu ainda estava em idade fértil; se alguém se interessasse por mim, provavelmente seria forçada a casar novamente. Só de pensar nessa possibilidade, um frio na espinha me consumia. E se eu caísse nas garras de um novo Otto? E se ele me afastasse do meu filho? Eu jamais suportaria isso. O Saymon era o meu mundo inteiro; eu preferia mil vezes morrer a ter que viver longe dele.
Fui deitar já era bem tarde da noite, o que péssimo considerando que viajaríamos logo cedo na manhã seguinte. Mesmo sabendo que Klaus não parecia representar uma ameaça direta, eu não podia me dar ao luxo de baixar a guarda. Estávamos indo para um território totalmente novo, e no fim das contas, todos os homens daquele meio operavam sob as mesmas regras.
Acordei em um salto quando o despertador começou a tocar implacável. Levantei-me e tomei um banho gelado, na esperança de que o choque térmico acordasse o meu corpo, que parecia continuar dormindo.
Desci para a cozinha ainda na penumbra; o dia m*l havia clareado. Eu havia dormido menos de duas horas, o que resultou em uma dor de terrível na cabeça. E isso era péssimo, porque dormir em avião é uma tortura — a minha primeira experiência de viagem não havia deixado saudades. Cheguei à cozinha e encontrei Klaus sentado à mesa, tomando seu café.
— Bom dia. — Ele me olhou por cima da borda da xícara.
— Bom dia, Leila. Dormiu bem esta noite?
— Pouco, mas tudo bem. Vou tentar descansar um pouco durante o voo, se o Saymon permitir, é claro.
— No jato há um quarto privativo, Leila. Assim que alcançarmos altitude de cruzeiro, é só ir deitar e descansar. Deixe que do Saymon eu cuido. — Olhei para ele desconfiada por um segundo, mas logo suavizei a expressão diante daquela oferta inesperada.
— Você precisa relaxar sabia? Não vou fazer m*l nem a você e muito menos ao Saymon. Além de ele ser o futuro capo da Alemanha, é primo do Don... e não, não é só por isso que eu gosto do moleque, o garoto é simplesmente sensacional. — Abri um sorriso involuntário. O meu filho era, de fato, uma criança incrível, parecendo mentira que tivesse passado grande parte da vida trancado entre quatro paredes...
— Tudo bem, obrigada. — Ficamos nos encarando em um silêncio confortável até que a Dona Lia entrou na cozinha.
— Bom dia, Dona Leila. Aceita uma xícara de café fresquinho?
— Ah, bom dia, Lia! E por favor, me chame só de Leila, combinado?
— Tudo bem, minha menina. Vai querer o café?
— Sim, Lia, por favor. — Klaus terminou o seu café, levantou-se e saiu da cozinha. Trinta minutos depois, ele reapareceu carregando o Saymon nas costas, os dois rindo alto.
— Bom dia, mamãe! — o menino disparou, correndo para me dar um beijo. Notei que ele já estava perfeitamente vestido e com o cabelo penteado.
— Quem foi que vestiu você, mocinho?
— Ora, quem mais seria, mamãe? Eu já sou um grande menino! E o tio Klaus me ensinou a dar o nó no tênis agora há pouco; já consigo amarrá-los sozinho. — A Dona Lia caiu na gargalhada, e eu não pude deixar de rir junto com ela.
Já instalados dentro do jato privado, Saymon parecia veterano naquilo; estava super tranquilo, entretido com seu tablet assistindo a desenhos animados. Klaus sentou-se bem ao meu lado, concentrado na tela do celular. Quando o comissário avisou que íamos decolar, minhas mãos instantaneamente gelaram. Fechei os olhos com força e apertei os braços da poltrona até os nós dos dedos ficarem brancos. De repente, senti alguém cobrir a minha mão. Quando abri os olhos, vi que Klaus continuava olhando para o telefone, mas uma de suas mãos segurava a minha com uma delicadeza surpreendente.
Olha só, consciência... Você realmente tinha razão. A mão dele é incrivelmente macia. Quer saber? Acho que agora eu não me importaria nada se essa mesma mão estivesse firme no meu pescoço...