A frustração começava a se acumular como poeira invisível no canto da mente de Lana. Já fazia quase um mês desde que começara a enviar e-mails para agências e plataformas que aceitavam letras de músicas. Passava noites ajustando palavras, lapidando ideias e se alimentando de esperanças. E, em troca? Silêncio. Nem um “não, obrigado”. Apenas o eco das suas tentativas solitárias.
Naquela tarde, depois de uma breve escapada até a cafeteria próxima, voltou ao dormitório com uma xícara morna nas mãos e pensamentos mais frios do que gostaria. Tomou banho em silêncio, tentando ignorar o aperto no peito que teimava em crescer. Quando saiu do banheiro, envolta apenas na toalha, parou bruscamente ao ver alguém sentado em sua cadeira.
— Mas o que…?! — exclamou, apertando a toalha contra o corpo.
Era ele. Jae-Hyun.
Os olhos prateados de fios brancos e pretos levantaram lentamente do caderno sobre a mesa. Ele arregalou um pouco os olhos ao vê-la daquele jeito, depois sorriu, como se a situação tivesse algo de cômico.
— Me desculpa — disse ele, levantando as mãos, mas sem largar o caderno. — Eu… a porta estava destrancada. A Min-ji disse que sua colega de quarto era minha prima, e eu vim buscá-la pra ensaio. Ela me mandou esperar aqui.
— Mas você tá lendo minhas coisas! — Lana deu um passo, aflita, tentando pegar o caderno. — São rascunhos! Não é nada bom, por favor…
— Você escreveu isso? — ele perguntou, erguendo uma das folhas com olhos genuinamente curiosos. — Tipo… de verdade?
— Sim, mas… são só composições minhas — ela respondeu, finalmente tomando o caderno de volta. O coração batia tão forte que ela achou que a toalha pudesse cair junto.
Antes que mais alguma coisa fosse dita, a porta se abriu de repente.
— Ai, meu Deus! — exclamou Hye-rin, a colega de quarto, ao ver Lana daquele jeito, e Jae sentado como se fosse o quarto dele.
— O que você tá fazendo aqui?! — ela perguntou ao primo, empurrando ele com o ombro. — Não acredito que você ficou sozinho aqui com ela!
— Eu disse que você mandou eu esperar — ele riu, levantando.
Lana, ainda envergonhada, soltou:
— Espera… primo?
Hye-rin revirou os olhos com um suspiro.
— É, ele é meu primo. Por parte de mãe. Mas pouca gente aqui sabe. A família dele não quer que o envolvimento pessoal dele atrapalhe a imagem profissional.
Jae sorriu de lado, sem negar.
— E você… escreve, né? — ele voltou a olhar para Lana. — Você tem talento. Sério.
Ela o encarou com ceticismo, mas havia algo na maneira como ele falava… como se realmente tivesse lido com atenção. E acreditasse nela, mesmo quando ela mesma não conseguia.
— Obrigada… — disse ela, baixinho.
Naquela noite, as frustrações de Lana não desapareceram. Mas algo havia mudado. Um olhar, uma descoberta, e um elogio inesperado. Talvez o mundo das composições não estivesse tão distante quanto parecia. Ou talvez… tivesse acabado de bater à sua porta.
Lana vestiu-se às pressas, o rosto ainda queimando de vergonha. Do lado de fora do banheiro, podia ouvir a voz risonha de Jae comentando com Hye-rin sobre as anotações. A vergonha se misturava a um certo orgulho contido — ele tinha lido. E mais do que isso: elogiado.
Quando saiu, os dois ainda conversavam perto da janela. A luz do fim da tarde tingia o ambiente de um dourado suave, e por um instante, Lana desejou que aquela sensação durasse: um pouco de calor em meio ao frio que costumava carregá-la por dentro.
— Você tem estilo — comentou Jae, apontando para o caderno que agora repousava ao lado da cama. — Algumas letras são bem profundas. Outras são meio doces, tipo algo que eu cantaria.
Lana riu, envergonhada.
— Duvido muito. Você canta músicas estilosas. Eu escrevo coisa de adolescente sonhadora.
— É exatamente por isso que funciona — ele rebateu, olhando-a com sinceridade. — Todo mundo finge que superou essa fase, mas ninguém realmente supera.
Hye-rin revirou os olhos.
— Lá vem o poeta do pop.
— Tô falando sério — insistiu Jae. — Isso aqui tem alma.
Lana ficou em silêncio por um segundo. Era difícil receber elogios sinceros, especialmente quando vinha de alguém como ele — bonito, talentoso, cercado de pessoas perfeitas.
— Você… compraria uma letra minha? — arriscou ela, meio brincando, meio testando.
Jae arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Tá vendendo?
Ela hesitou. A verdade era que sim. Precisava do dinheiro. Mas tinha medo de parecer desesperada.
— Talvez — respondeu com um sorriso contido.
— Então me mostra mais. Quem sabe a gente não colabora?
Antes que ela pudesse responder, Hye-rin interveio:
— Ei! Colabora só se for profissionalmente, tá? Nada de “colaborações românticas”. Ela já tá cercada de confusões aqui.
Jae apenas riu, levantando as mãos em rendição.
— Relaxa, priminha. Eu sei me comportar. Bom… na maior parte do tempo.
Então ele consultou o relógio e virou-se para a prima:
— Bora, Hye? Minha mãe já mandou três mensagens. Se a gente se atrasar mais pro jantar, ela vai me deserdar.
— Já vou! — respondeu ela, pegando a bolsa. Antes de sair, virou-se para Lana com um sorriso cúmplice. — E sim… quase ninguém sabe que somos primos. Vamos manter assim, por enquanto. prefiro que ninguém saiba. A universidade inteira ia surtar, e eu perderia qualquer paz que ainda tenho aqui.
Lana assentiu, ainda um pouco atordoada com tudo.
— Mas por quê?
— Porque ele é o queridinho da faculdade — respondeu com uma careta. — Todo mundo quer estar por perto, sabe? Se souberem que a gente é da mesma família, vai virar um inferno. Já me basta lidar com os olhares quando ele aparece por aqui.
Ela sorriu, meio cansada, meio cúmplice.
— Então… conta com você pra guardar isso, tá?
Lana assentiu, compreensiva.
— A gente se vê — disse Jae, lançando-lhe um último olhar.
Lana os observou desaparecer no corredor, o coração ainda acelerado e a mente girando como um redemoinho silencioso. Pegou o caderno do colchão e o apertou contra o peito.
Talvez aquela fosse sua chance.
Ou o início de um caos silencioso.
Mas de alguma forma… ela estava disposta a arriscar.