OUTRAS BOCAS

1443 Words
Lana voltou para o dormitório com os ombros pesados. Apesar de algumas boas surpresas, o dia ainda carregava os resquícios de tensão. Tirou os sapatos na entrada, como era costume ali, e caminhou até o pequeno banheiro compartilhado. Deixou a água morna cair sobre seu corpo enquanto sua mente revivia cenas: os sorrisos polidos, os olhares tortos, o rosto bonito de Jae-Hyun, o jeito protetor de Min-ji. Ela se secou devagar, prendeu os cabelos ainda úmidos e vestiu uma roupa confortável. Depois, arrumou a cama, organizou seus cadernos, os livros, ligou o abajur de luz suave e começou a revisar algumas anotações da aula. Estava tentando manter a rotina sob controle — o que era um desafio naquele novo universo. A porta se abriu pouco depois das sete. — Annyeong! — cumprimentou a colega de quarto, sorridente, empurrando a mala com o pé. Lana olhou para ela e sorriu também. — Oi! Tudo bem? — Bem! E você? Como foi seu primeiro dia de aula? Fez alguma amizade? Lana pensou por um segundo. — Amizade… não exatamente. Mas conheci uma veterana que foi muito gentil comigo. Ela me fez companhia durante a aula e me defendeu de umas garotas meio… desagradáveis. A colega, de traços delicados e olhos atentos, arqueou uma sobrancelha. — Sério? Quem? — O nome dela é Min-ji. Alta, super bonita, cabelos castanhos longos… muito simpática. A menina parou no meio do movimento de abrir a mala. — Espera… você tá falando da Min-ji, do segundo ano de música? Lana assentiu. — Sim… por quê? A colega soltou um assobio baixo. — Uau. Como você conseguiu isso? — Consegui o quê? — Que ela falasse com você assim, do nada! A Min-ji é super popular aqui. Filha de empresários, linda, talentosa… tem até grupo de fãs nas redes sociais da faculdade. É tipo a “realeza universitária”. Lana deu um riso curto, surpresa. — Sério? Eu não fazia ideia. Ela parecia tão… normal. — É, mas não se engane. Ela é querida, mas meio inalcançável pra maioria. E tem aquele jeito carismático, parece que gosta de todo mundo… mas ela escolhe bem quem ela quer por perto. Lana franziu a testa, pensativa. — Eu realmente não entendi por que ela foi legal comigo. Só… aconteceu. A colega de quarto sentou na cama dela com um saquinho de snacks. — Aconteceu porque você deve ter chamado a atenção de alguma forma. Lana deu de ombros, tentando não pensar demais. — A propósito… ela disse que vai ver o ensaio de um garoto hoje. O Jae. A colega parou de mastigar. — Jae-Hyun? Lana assentiu. — Isso. Ela disse que são… namorados. A garota caiu na risada. — Namorados? Hahaha… Ai, essa Min-ji! Lana ficou confusa. — Não são? — Não. Ela queria que fossem. Ela vive colada nele, fazem duetos de vez em quando, ensaiam juntos, saem juntos… mas Jae nunca quis nada sério. E todo mundo sabe disso. Lana ficou em silêncio por um segundo. — Mas eles ficam? — De vez em quando, sim. Ele não é de se apegar. Quer focar na carreira, sabe? Agora que a banda deles tá começando a aparecer em festivais menores, ele virou ainda mais reservado. E, sinceramente… mesmo ela sendo perfeita aos olhos de todos, ele ainda mantém uma distância. Lana engoliu seco. — Entendi. A colega a observou por um momento e sorriu, levemente cúmplice. — Você gostou dele? Lana desviou o olhar, fingindo mexer nos cadernos. — Não sei… Ele só me chamou atenção. Mas, depois que ouvi aquilo… pensei que era melhor esquecer. Tem gente demais bonita por aqui pra perder tempo com alguém que nem olha pra mim. — Ele olhou? Lana hesitou, lembrando do olhar dele naquele momento breve no pátio. — Só por um segundo. — Bom, um segundo com Jae-Hyun já é mais do que muitas conseguem. Ele não é só bonito — ele é magnético. Mas vive no próprio mundo. E ninguém entra nele fácil. Lana suspirou. — Que ótimo. A colega de quarto se levantou, indo até o armário. — Relaxa. Se ele olhar pra você mais uma vez, já era. Aí nem a Min-ji segura. Lana deu uma risada curta. — Acho difícil. Mas… obrigada. — Por nada. E se quiser companhia pra ver esses ensaios algum dia, é só chamar. Vai que a gente vira fã da banda, né? Lana sorriu, tentando esconder a mistura de ansiedade, medo e curiosidade que se agitava dentro dela. Enquanto se deitava naquela noite, encarando o teto do dormitório, ela se perguntou se teria forças para enfrentar tudo aquilo: as diferenças, os julgamentos, a competição velada e, acima de tudo, um garoto que já vinha quebrado — e talvez quebrasse ela também, se ela deixasse o coração escapar. Mas já era tarde demais para evitar. Uma parte dela já estava presa no som que nem ouvira ainda. Um mês se passou desde o início das aulas. O outono se intensificava em Seul, e as folhas avermelhadas cobriam as calçadas como se a cidade estivesse sendo decorada por artistas invisíveis. Para Lana, os dias tinham ganhado ritmo: aula, tarefas, tentativas de adaptação, algumas mensagens trocadas com Min-ji — que sempre a chamava de “Lana do Brasil” — e raras interações com Jae-Hyun, quase todas através de olhares furtivos nos corredores. Naquela tarde, no entanto, o foco estava em outra coisa. Lana estava deitada na cama do dormitório, com o notebook apoiado nas pernas, em uma chamada de vídeo com os pais. A imagem era meio desfocada, como sempre, mas dava pra ver o fundo da casa simples no interior do Brasil. Uma cortina florida tremulava com o vento, e o pai usava um boné desbotado enquanto segurava um copo de suco. — Filha, você tá comendo direito? — perguntou a mãe, com o rosto encostado demais na câmera. — Tô, mãe. Aqui tem cantina, tem mercado, tá tudo certo — Lana respondeu, sorrindo. — E os coreanos são simpáticos? — perguntou o pai. — Aquele povo parece frio demais nos filme. Lana riu. — Tem de tudo, pai. Mas tô me virando. Fiz algumas conhecidas. — E tá precisando de dinheiro? — a mãe perguntou com um tom mais sério. — Se tiver, a gente vê um jeito. Lana engoliu seco, mantendo o sorriso. — Não precisa. Juro. Ainda tenho do que vocês mandaram. Os dois se entreolharam na tela com aquele ar de pais que não sabem fingir tranquilidade. Ela sabia que estavam preocupados, e com razão. — Tá bom… — o pai cedeu. — Mas qualquer coisa, qualquer mesmo, você fala. A gente se ajeita. — Eu sei. Amo vocês. — A gente te ama mais — disse a mãe. — Se cuida, minha menina guerreira. A ligação terminou. A tela escureceu. E, por um instante, o quarto ficou pequeno demais para o peso que apertava o peito de Lana. Ela deixou o notebook de lado, apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu o rosto com as mãos. Aquela conversa, por mais carinhosa, a fez lembrar de tudo o que eles tinham feito por ela. O empréstimo no banco rural. As noites em claro juntando papelada. Os conselhos da mãe, professora numa escola com chão de terra batida. O pai, acordando antes do sol para tirar leite das vacas e vender verduras na feira do povoado. Ela era filha única. E eles apostaram tudo nela. Respirou fundo e se levantou. Foi até a escrivaninha, onde havia algumas anotações e folhas rabiscadas. Puxou um caderno especial, com a capa gasta e páginas cheias de rascunhos. Lana não cantava. Nunca teve coragem. Mas desde os doze anos escrevia músicas como quem derramava a alma no papel. Frases soltas. Versos que gritavam sentimentos que ela não sabia dizer em voz alta. Harmonias que ela imaginava na cabeça, mesmo sem dominar todos os acordes. “Talvez eu não precise subir no palco”, pensou. “Mas posso colocar palavras na boca de quem brilha nele.” Era isso. Se conseguisse vender uma música, uma letra boa de verdade, talvez pudesse ajudar. Pagar uma parte da mensalidade. Tirar um pouco do peso dos ombros dos pais. E, se encontrasse um emprego meio período, melhor ainda. Assim, não precisaria pedir nada. Nem um centavo. Ela fechou o caderno com firmeza e olhou pela janela, onde as folhas laranjas dançavam no vento. “Se é pra estar aqui, vou dar tudo de mim.” A partir daquele dia, Lana não seria só a menina estrangeira com saudade de casa. Seria uma compositora determinada a fazer sua voz ser ouvida — mesmo que através de outras bocas.
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