O avião pousou em Seul às 6h42 da manhã.
Lana apertou os dedos contra a alça da mochila como se o mundo novo pudesse escapar a qualquer instante. O frio da primavera coreana cortava diferente do inverno do Brasil, e o céu, ainda cinzento, parecia acompanhar o nó em seu estômago.
Ela havia cruzado o mundo por um sonho — mas agora que estava ali, tudo parecia grande demais.
As primeiras horas foram um borrão de placas com letras que ela ainda não dominava, sorrisos contidos e funcionários que tentavam ajudá-la com inglês limitado. Mesmo tendo estudado a língua por anos, o sotaque rápido e as expressões locais testavam sua coragem a cada frase.
Foi só quando chegou ao dormitório da universidade que o impacto bateu de verdade.
O quarto era pequeno, minimalista. Tudo estava limpo e perfeitamente organizado — mas frio, sem alma. Ela largou as malas no canto, tirou o celular do modo avião e abriu a câmera frontal. Cabelos bagunçados, olheiras marcadas e um olhar que tentava parecer forte.
Sorriu. Forçado. E clicou.
Uma tentativa de registrar o começo. Ou talvez de convencer a si mesma de que estava bem.
— Lana Rocha? — uma voz feminina soou atrás da porta, suave, quase cantada.
Ao abrir, deparou-se com uma garota coreana de cabelo escuro preso num coque bagunçado e olhos curiosos.
— Annyeong! Eu sou a Min Ji! Sua colega de quarto! — disse em inglês, com entusiasmo.
Lana sorriu de verdade pela primeira vez no dia.
Min Ji era calorosa, falava rápido e adorava cultura ocidental. Em minutos, a fez se sentir menos uma estrangeira. Ajudou a guardar suas coisas, ofereceu um chá quente e fez um milhão de perguntas sobre o Brasil.
— Você precisa sair com a gente hoje à noite — insistiu Min Ji. — Tem apresentação ao vivo de algumas bandas da universidade. Uma delas é muito famosa aqui. Você vai amar. É o tipo de coisa que muda a sua semana.
Lana hesitou. Estava exausta. Mas alguma coisa naquela frase ecoou diferente.
“É o tipo de coisa que muda a sua semana.”
Ou sua vida, talvez.
...
O pequeno auditório improvisado estava cheio. Jovens riam, tiravam fotos, dançavam nos corredores. Luzes neon cruzavam o teto como trilhas de estrelas.
Lana m*l entendia o que diziam ao redor, mas a música… a música falava sua língua.
Foi quando a banda principal entrou que o tempo pareceu parar.
O vocalista caminhou até o microfone com uma confiança que beirava a arrogância. Era mais alto do que ela imaginava, com cabelo escuro levemente bagunçado e olhos intensos demais para quem acabara de subir no palco. Tatuagens discretas apareciam por baixo da manga da camisa.
Ele segurava o microfone como se fosse extensão de sua alma.
— Esse é o Jae-Hyun — cochichou Min Ji. — Ele é tipo… uma lenda por aqui. E perigoso.
A primeira nota soou. Forte. Vibrante.
E Lana sentiu, no fundo do peito, que algo dentro dela havia se mexido.
Ela não sabia o nome da música. Nem o do sentimento que começava a nascer.
Mas soube, naquele instante, que aquela noite seria o iníciog de algo que nem todos os diários do mundo poderiam conter.
A apresentação estava prestes a terminar quando Min Ji a puxou pelo braço, empolgada.
— Vem comigo! Eu conheço um dos rapazes da banda. Posso te apresentar. Só não grita, tá? Eles odeiam isso.
Lana hesitou, mas antes que pudesse recusar, foi arrastada para um corredor lateral do auditório. A movimentação por ali era intensa: estudantes tirando fotos, rindo, cochichando. No meio de tudo, ele.
Jae-Hyun estava encostado na parede, segurando uma garrafinha d’água. Agora sem os holofotes, parecia mais fechado — o olhar fixo em algum ponto indefinido, a expressão séria. Mesmo assim, chamava atenção como se carregasse um campo magnético.
— Jae! — Min Ji chamou, acenando. — Essa é minha colega de quarto, Lana. Do Brasil.
Ele olhou. Apenas olhou. Nenhum sorriso. Nenhum gesto de boas-vindas.
— Ah. Oi. — respondeu seco, em inglês, sem muita emoção.
Lana sorriu, sem graça, estendendo a mão.
— Lana. Prazer.
Ele a encarou por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse analisando se ela era real ou mais uma fã disfarçada. Não apertou sua mão, apenas assentiu com a cabeça.
— Brasil, né? Longo voo.
— É. E um pouco de turbulência também — ela disse, tentando quebrar o gelo com humor.
Ele não riu.
— Bem-vinda.
As palavras soaram mecânicas, quase como obrigação. Mas foi o olhar — frio, distante — que fez algo dentro dela murchar. Não era exatamente rude, mas havia ali uma barreira invisível. Uma postura de quem já se acostumou a manter o mundo longe.
— Você canta muito bem — arriscou ela, em voz baixa.
Ele apenas deu de ombros, como se o elogio fosse um peso.
— Obrigado.
Antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, duas garotas se aproximaram, empolgadas.
— Jae-Hyun! Uma foto, por favor! — disseram, em coreano, com os celulares em mãos.
Ele virou o rosto, não respondeu de imediato. Mas Lana percebeu, rápido, o olhar dele desviar novamente para ela — como se algo em sua presença tivesse feito o ambiente mudar de temperatura por um segundo.
Foi sutil. Um microsegundo.
Mas então, o momento se desfez.
— Ya! — uma voz mais alta ecoou do corredor.
Dois rapazes, ambos membros da banda, surgiram apressados. Um deles passou o braço por Jae-Hyun, rindo.
— Bora, hyung! O professor quer falar com você. De novo.
— Depois vocês tiram foto — disse o outro às garotas. — Ou nunca.
Todos riram. Jae-Hyun deu mais um olhar rápido para Lana. Quase… curioso. Mas não disse nada.
E então foi embora com os amigos, sumindo na confusão do corredor como se nunca tivesse estado ali.
Lana permaneceu parada por alguns instantes. O som do palco ainda vibrava nas paredes, mas dentro dela havia silêncio.
Um garoto arrogante. Ou talvez apenas… cansado de ser visto demais.
E mesmo sem palavras, ele tinha dito tudo: “Eu não estou disponível para você.”
Ou era isso que ele queria que todos acreditassem.
Ela voltou ao quarto naquela noite sem comentar nada com Min Ji. Mas antes de dormir, anotou no diário:
“Ele foi frio. Indiferente. Como se o mundo o tivesse cansado.
E ainda assim, alguma coisa nos olhos dele me fez querer olhar de novo.”