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1096 Words
📖 Capítulo 2 — Elis narrando Primeiro dia na Maré Sempre disseram que eu tinha coragem demais. Eu prefiro dizer que nunca tive medo de viver. Talvez porque, quando você cresce sem ninguém, aprende cedo que o mundo não vai pegar na sua mão. Ou você vai… Ou fica pra trás. Foi assim desde criança. Enquanto outras meninas voltavam pra casa depois da escola, eu voltava pro quarto dividido de um lar para crianças. Nunca conheci meus pais. Nunca soube por que fui deixada lá. Nunca apareceu uma tia distante. Um avô. Uma madrinha. Ninguém. Passei anos olhando outras crianças arrumarem as malas para irem embora com famílias que sorriam enquanto eu permanecia sentada na mesma cama, fingindo que aquilo não doía. No começo eu chorava. Depois parei. Aprendi que algumas dores não desaparecem. A gente só deixa de mostrar. Quando completei dezoito anos, ganhei uma mochila com algumas roupas, um abraço da coordenadora do abrigo e um: — Vai dar tudo certo, Elis. Ela acreditava. Eu ainda não. Saí sem dinheiro. Sem família. Sem sobrenome importante. Sem ninguém para ligar quando as coisas dessem errado. Mas tinha uma coisa que nunca me abandonou. Minha vontade de vencer. Trabalhei de tudo um pouco. Garçonete. Vendedora. Recepcionista. Promotora de eventos. Até descobrir, por acaso, que eu gostava de gravar vídeos. Começou como brincadeira. Depois virou renda. E, quando percebi, já tinha milhares de pessoas acompanhando minha rotina. Hoje… São quase dois milhões. Ainda acho estranho quando alguém me para na rua pedindo foto. Porque, dentro de mim, continuo sendo aquela menina que passava aniversários esperando alguém aparecer. Ninguém apareceu. Então eu construí minha própria história. Sozinha. — Elis! A voz do Heitor me tirou dos pensamentos. Olhei pela janela do carro. O Rio de Janeiro já tinha aquele cheiro característico de mar misturado com cidade grande. Sorri sem perceber. — Tá nervosa? — ele perguntou. Ri. — Eu? — Tu vai entrar na comunidade mais conhecida do Brasil. — E daí? Ele deu risada. — Tu realmente não tem medo de nada. Balancei a cabeça. — Medo eu tenho. Só não deixo ele mandar em mim. Heitor sorriu. — Gostei dessa. Peguei o celular que estava no banco ao lado. A tela acendeu. Mais de quatro mil mensagens. Notificações. Curtidas. Comentários. Respirei fundo. Era hora de trabalhar. Abri a câmera frontal. — Bom dia, meus amores! O sorriso apareceu automaticamente. — Hoje começa uma aventura completamente diferente de tudo que eu já vivi. Virei a câmera para a paisagem. — Eu cheguei ao Rio de Janeiro e fui convidada para participar de um projeto incrível. Heitor riu baixinho. — Não mostra muito ainda. Tampei parcialmente a lente. — Calma, jornalista. Olhei novamente para a câmera. — Durante os próximos dias eu vou mostrar para vocês um lugar que quase ninguém conhece de verdade. Não… Não tô falando do que aparece no jornal. Quero mostrar pessoas. Histórias. Comércio. Cultura. Vida. Porque todo lugar tem muito mais do que aquilo que mostram na televisão. Desliguei a gravação. Heitor cruzou os braços. — Tu fala bem. — Eu falo demais. Ele concordou. — Isso é verdade. Mostrei a língua. — Invejoso. Ele começou a rir. Eu gostava daquele jeito leve dele. A gente se conhecia há pouco tempo, mas parecia que fazia anos. A proposta do documentário tinha surgido há quase um mês. Quando ele me ligou dizendo que queria uma influenciadora para aproximar o público da realidade da Maré, aceitei sem pensar duas vezes. Era exatamente o tipo de conteúdo que eu gostava de produzir. Mostrar pessoas. Não números. Mostrar vidas. Não manchetes. O carro começou a diminuir a velocidade. Olhei pela janela. As ruas ficavam mais estreitas. Os comércios apareciam um ao lado do outro. Padaria. Salão. Mercadinho. Lanchonete. Música alta vindo de algum lugar. Crianças correndo descalças. Uma senhora varrendo a calçada enquanto conversava com a vizinha. Meu coração acelerou. Era lindo. Muito mais bonito do que eu imaginava. Peguei novamente o celular. — Gente… Olha isso. Apontei discretamente a câmera para a rua. — Isso aqui é vida. É completamente diferente do que a gente vê na televisão. As pessoas trabalhando. As crianças brincando. Os comerciantes abrindo as portas. Heitor olhou para mim. — Só cuidado. — Relaxa. Eu sei o que tô fazendo. Ele soltou um suspiro. — É justamente isso que me preocupa. Ri alto. — Você é muito dramático. Descemos do carro. O calor bateu imediatamente. Tirei os óculos escuros. Passei a mão no cabelo. Respirei fundo. — Que lugar incrível… Falei quase sem perceber. Não tinha luxo. Não tinha prédio espelhado. Mas tinha vida. Muita vida. Uma menina de aproximadamente oito anos passou correndo por mim. Tropeçou. Segurei ela antes que caísse. — Ei… Tá tudo bem? Ela sorriu. — Tá. Olhou para o celular na minha mão. — Você é famosa? Comecei a rir. — Um pouquinho. Ela arregalou os olhos. — Posso aparecer no vídeo? — Claro. Abaixei na altura dela. — Como você chama? — Sofia. — Então manda um beijo pra galera. Ela sorriu para a câmera. — Oi! Gravei poucos segundos. Depois desliguei. A mãe dela apareceu correndo. — Desculpa. Ela incomodou você? — De jeito nenhum. Ela é um amor. A mulher sorriu aliviada. Agradeceu. Foi embora. Fiquei olhando as duas se afastarem. Sorri sem perceber. Talvez fosse exatamente esse tipo de coisa que eu queria mostrar. Humanidade. Peguei novamente o celular. — Gente… Eu acabei de conhecer a Sofia. Olha isso… Às vezes a gente conhece lugares novos… Mas quem realmente faz um lugar especial são as pessoas. Desliguei. Heitor me encarou. — Tu faz amizade em cinco minutos. — Sempre fui assim. — Nem todo mundo merece tua confiança. Dei de ombros. — Até hoje eu prefiro acreditar nas pessoas. Ele sorriu de lado. — Espero que isso nunca mude. Olhei novamente para a comunidade. Meu coração dizia que aqueles dias mudariam minha vida. Só não imaginava o quanto. Foi então que um rapaz alto, vestido inteiramente de preto, caminhou em nossa direção. Ele parou diante de nós. Olhou primeiro para Heitor. Depois para mim. — Vocês são da equipe? Heitor assentiu. — Somos. — Meu nome é Léo. Estendi a mão. — Elis. Ele apertou minha mão rapidamente. — Prazer. Olhou para o celular que eu ainda segurava. Depois voltou a me encarar. — O chefe quer falar com todo mundo. Franzi a testa. — Chefe? Léo respondeu com naturalidade. — Ricardo. Meu olhar encontrou o de Heitor. Ele apenas respirou fundo. Como se já soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer.
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