# Capítulo 7
Pedro Alcântara Montenegro..
O isolamento é o ambiente mais puro para a consolidação do domínio. Na cidade, há ruídos: o trânsito, as rotinas, a ilusão de que se pode pedir ajuda a um estranho na rua. Mas aqui, na minha propriedade em Ilhabela, no topo de uma falésia virada para o Atlântico aberto, o único som constante é o do mar colidindo contra as rochas vinte metros abaixo.
O helicóptero levantou voo novamente, retornando ao continente. O barulho das hélices foi gradualmente substituído pelo farfalhar denso da mata e o rugido das ondas.
Laura permaneceu parada no heliponto de concreto. O vento forte do oceano bagunçava os cabelos castanhos dela, colando a camisa ao peito. Ela olhava para a mansão de linhas retas, vidro e aço escuro como se olhasse para um complexo de segurança máxima.
Ela é rápida. Já devia ter calculado que a única saída terrestre era uma estrada particular de dez quilômetros trancada por dois portões blindados.
— O ar aqui é mais limpo — disse, aproximando-me por trás. Não a toquei imediatamente; deixei que minha sombra a cobrisse primeiro. — A arquitetura foi projetada por um escritório dinamarquês. O vidro das fachadas suporta rajadas de vento de até duzentos quilômetros por hora. É indevassável.
— Uma fortaleza — a voz dela veio fria, cortada pelo vento. Ela se virou para me encarar. — Ou um cativeiro bem decorado.
— A diferença entre uma casa e um cativeiro é apenas quem tem a chave — respondi com um sorriso calmo. Segurei o cotovelo dela com a pressão exata para guiá-la, nem fraco demais para que pudesse se soltar, nem forte a ponto de deixar marcas imediatamente. — Venha. Vou lhe mostrar o seu posto de trabalho.
A mansão era dominada pelo silêncio. No piso inferior, o piso de ardósia escura refletia a luz natural que entrava pelas imensas paredes de vidro. Conduzi Laura até o subsolo técnico — uma sala climatizada e à prova de som, onde ficavam os servidores locais que espelhavam os dados sigilosos da holding.
— Toda a automação da casa passa por esta sala — expliquei, apontando para o rack central de luzes piscantes. — Câmeras, trancas biométricas, fornecimento de energia por geradores auxiliares. O engenheiro anterior deixou algumas falhas de latência nos logs de criptografia. Como a principal especialista de suporte que tenho agora, sua função nos próximos três dias é auditar esse sistema.
Ela encarou o painel de controle. Vi as pupilas dela dilatarem ligeiramente. O cérebro dela, treinado para encontrar brechas, começou a trabalhar no mesmo instante.
*Ela acha que pode usar o sistema para mandar uma mensagem de socorro*, pensei, sentindo um tremor de fascínio percorrer minha espinha.
Era adorável. Ela realmente acreditava que eu deixaria um terminal com acesso externo desprotegido. Cada linha de código que ela digitasse ali seria redirecionada para o meu monitor privado no quarto principal. Ela estaria trabalhando na própria gaiola, acreditando que procurava uma chave.
— E se eu me recusar? — ela perguntou, sem se virar.
Aproximei-me, colando o peito nas costas dela. Pousei as mãos na sua cintura, sentindo a rigidez imediata dos seus músculos. Desloquei o cabelo dela para o lado, expondo a nuca clara. Passei o nariz pela pele macia dali, inalando o cheiro de baunilha e suor leve.
— Você não vai se recusar, Laura — murmurei na pele sensível do pescoço dela, sentindo-a estremecer da cabeça aos pés. — Porque cada hora de trabalho eficiente seu aqui reduz um milhão de reais daquela dívida fictícia que atribuí a você. E garante que o seu irmão continue recebendo a bolsa de estudos sem interrupções.
Ela fechou os olhos e soltou o ar devagar, uma respiração pesada de derrota momentânea.
— Você pensa em tudo, não é?
— Eu não deixo espaço para o acaso — corrigi, virando-a de frente para mim e segurando o queixo dela com firmeza. — O jantar será servido às oito no terraço. Use o vestido que deixei sobre a cama do quarto principal.
— Do *seu* quarto? — o olhar dela faiscou.
— Não há outro quarto preparado, querida.
Laura Vasconcelos...
A sala de servidores no subsolo parecia o único lugar onde eu conseguia raciocinar sem a presença sufocante de Pedro.
Assim que a porta pesada de isolamento acústico se fechou, encostei as costas no painel frio e deixei o corpo escorregar até o chão. Pressionei as palmas das mãos contra os olhos. O pavor ameaçava me paralisar, mas o meu instinto de sobrevivência falava mais alto.
*Pense, Laura. Pense como uma programadora.*
Pedro era poderoso, podre de rico e calculista, mas nenhum sistema era 100% infalível. Toda arquitetura de dados tem uma vulnerabilidade, uma porta dos fundos (*backdoor*) deixada por engano ou por pressa.
Levantei-me, sentei na cadeira ergonômica e puxei o console principal. Os dedos voaram pelas teclas.
Iniciei a varredura de rede. A infraestrutura era impecável — criptografia de ponta a ponta, firewalls múltiplos. No entanto, percebi algo estranho nos pacotes de dados do roteador principal. Havia um túnel VPN direto para um IP residencial externo, não corporativo.
Não era um servidor da Holding Montenegro. Era um servidor privado, armazenado em algum lugar fora do Brasil.
Aprofundei a busca, ignorando a tarefa que ele me dera. Usando um script de varredura discreto, comecei a decodificar os cabeçalhos dos arquivos armazenados naquela partição oculta. Levou vinte minutos para que a primeira pasta fosse descompactada.
Quando os arquivos apareceram na tela, meu sangue virou gelo.
Não eram dados financeiros. Eran relatórios médicos antigos, certidões de internação em clínicas psiquiátricas privadas na Suíça e relatórios policiais datados de doze anos atrás.
Puxei o primeiro documento. Um laudo psiquiátrico com o timbre de um hospital em Zurique, datado de quando Pedro tinha vinte anos.
> *"Paciente: Pedro A. Montenegro.*
> *Diagnóstico: Transtorno de Personalidade Antissocial grave com traços narcisistas e obsessivos. Ausência total de empatia afetiva. Capacidade cognitiva acima da média utilizada para dissimulação e manipulação comportamental."*
>
Abaixo do laudo, havia um anexo de inquérito policial arquivado. A foto de uma mulher jovem — muito parecida comigo na estrutura óssea e nos cabelos escuros — anexada a um boletim de ocorrência de desaparecimento. O nome dela era Helena.
O documento trazia anotações à mão feitas por um detetive particular: *"Última localização confirmada: Propriedade da família Montenegro na Europa. Caso encerrado por intervenção de advogados da holding após acordo financeiro sigiloso com a família da vítima."*
Minhas mãos começaram a tremer tanto que m*l consegui segurar o mouse.
Ele já tinha feito isso antes. Eu não era a primeira garota que ele observou, cercou e tentou dominar. Mas a anterior... a anterior tinha desaparecido.
O som suave da porta do subsolo se abrindo fez meu coração disparar no peito.
Cortei a conexão da VPN em um comando rápido, fechando a janela do terminal e voltando para a tela padrão de auditoria de logs. O monitor piscou de volta para as linhas de código inofensivas bem no segundo em que os passos de Pedro ressoaram no piso de ardósia.
— Sete e quarenta, Laura — a voz dele veio fria, ecoando no espaço fechado. — Você ainda não subiu para se trocar.
Girei a cadeira devagar, tentando manter a expressão neutra que treinei a vida inteira para ter quando estava sob pressão. Mas o meu peito subia e descia rápido demais.
Ele estava encostado no batente da porta, já vestindo uma camisa social preta com os primeiros botões abertos, um copo de uísque na mão. Os olhos cinzentos dele me varreram de cima a baixo, identificando a tensão absoluta na minha postura.
— Você parece perturbada — ele disse, dando um passo lento na minha direção. — Encontrou algum erro grave no sistema?
— Nenhum erro — menti, a voz saindo mais firme do que eu esperava, embora por dentro eu estivesse gritando. — Apenas... a complexidade da rede. É mais avançada do que eu imaginava.
Pedro parou ao lado da minha cadeira. Ele se inclinou, apoiando uma das mãos no encosto e a outra na borda da mesa, me prendendo entre seus braços. O cheiro de uísque e perfume caro me envolveu.
— Você é uma péssima mentirosa quando está assustada, querida — ele sussurrou perto do meu ouvido. O olhar dele desceu para a tela do computador, depois voltou para o meu rosto. — Mas eu adoro quando seus olhos ficam escuros desse jeito. Suba. O jantar não vai esperar.
Ele me soltou e deu um passo para trás.
Levantei-me com as pernas bambas, caminhando em direção à saída. Eu sabia o segredo dele agora. Sei que ele é um monstro perigoso que já destruiu uma mulher antes. E o pior de tudo: percebi que quanto mais fundo eu entrava na mente dele, mais difícil seria sair viva daquela ilha.