# Capítulo 6
Pedro Alcântara Montenegro....
A rendição física é apenas a primeira camada de uma conquista real. Corpos cede ao peso da força, da dor ou do prazer imediato. A mente, porém, exige engenharia.
Na manhã de sábado, o céu sobre São Paulo estava cinzento, denso, prometendo tempestade. Olhei pela janela da minha suíte enquanto ajustava o relógio no pulso. No espelho, a imagem do homem impecável de sempre. Sem marcas, sem sinais de fraqueza.
No andar de baixo, na sala de estar do meu apartamento duplex nos Jardins, Laura estava sentada na ponta do sofá de couro claro.
Ela trazia as mãos sobre o colo, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a própria calça jeans. As duas malas pequenas que ela possuía no mundo estavam encostadas perto da porta. Ela não havia tocado no café nem no desjejum preparado pelo meu chef executivo.
— Você não comeu — comentei, descendo os últimos degraus da escada de mármore. O som dos meus sapatos ecoou suavemente pelo ambiente de pé-direito duplo.
Ela ergueu o rosto. As olheiras profundas e o olhar queimando em uma raiva contida deixavam claro que ela passara a noite em claro, repassando cada detalhe da noite anterior.
— Eu não quero a sua comida, Pedro — a voz dela era baixa, mas firme. A fragilidade de ontem à noite dera lugar a uma barreira de puro desprezo. — E eu não vou morar aqui. Você pode controlar a empresa, pode ter comprado o prédio onde eu morava, mas você não pode me manter trancada em uma gaiola de luxo. Isso é sequestro.
Caminhei devagar até a mesa de centro, pegando o controle do sistema integrado da casa.
— Sequestro implica retenção forçada contra a vontade, sem amparo legal — disse, a voz calma, sentando-me no poltrona à frente dela e cruzando as pernas. — Você é livre para passar por aquela porta a qualquer segundo, Laura. A porta está destrancada.
Ela franziu o cenho, o olhar analítico disparando em direção à saída.
— Qual é o truque? — perguntou, desconfiada.
— Não há truque. Mas há consequências — inclinei-me ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Se você cruzar aquela porta agora e decidir romper o seu contrato de trabalho, o departamento jurídico da Montenegro Holding executará a multa rescisória por quebra de sigilo de dados de alta segurança. Uma dívida de quatro milhões de reais no seu CPF.
Laura empalideceu. O ar sumiu dos seus pulmões.
— Isso é fraude. Eu nunca acessei dados confidenciais!
— Eu sou o dono do servidor, querida — sorri, um sorriso mínimo e desprovido de qualquer calor. — Os logs do sistema mostram o que eu determinar que eles mostrem. Além disso... seu irmão mais novo, o Lucas. Ele conseguiu a bolsa de estudos integral no Instituto de Tecnologia de Campinas esta semana, não foi? Um feito notável. Seria uma pena se a fundação mantenedora — da qual sou o principal doador — revisasse os critérios de concessão do benefício por conduta inadequada da família.
O choque no rosto dela foi absoluto. As pupilas dilataram. A boca se abriu em um arfar mudo.
Ali estava a beleza do controle absoluto: cortar todas as linhas de fuga antes mesmo que a presa pense em correr. Ela podia odiar o chão onde eu pisava, mas sabia que um único gesto meu destruiria tudo o que ela levou uma vida inteira para proteger.
— Você é um monstro — ela sussurrou, e pela primeira vez ouvi o tremor da derrota absoluta na sua voz.
— Eu sou o homem que detém as suas rédeas — corrigi, levantando-me e caminhando até ela. Segurei seu queixo com delicadeza, sentindo a pele fria sob meus dedos. — Agora, coma o seu desjejum. Às duas da tarde temos um voo para Ilhabela. Tenho uma propriedade lá e preciso de você ao meu lado para organizar a infraestrutura de segurança do meu servidor privado.
ela não se moveu. Não desviou o rosto. Apenas me encarou com o mesmo olhar afiado que me fascinara desde o primeiro segundo. Ela sabia que fora encurralada, mas a faísca dentro dela ainda não havia sido apagada.
E eu me deliciava com o processo de quebrar, peça por peça.
Laura Vasconcelos.....
O peso da chantagem de Pedro parecia uma âncora amarrada ao meu pescoço, puxando-me para o fundo de um oceano escuro.
O Lucas. Ele havia colocado o nome do meu irmão na equação. O meu irmão de dezenove anos, que ralei a vida inteira para conseguir uma oportunidade na faculdade dos sonhos dele. Pedro nem precisou erguer a voz para me mostrar o quanto a vida da minha família estava na palma da mão dele.
Olhei para a porta destrancada do apartamento. O sol lá fora parecia distante, irreal. A ilusão de liberdade que ele me ofereceu era a coisa mais c***l que já havia experimentado.
— Eu vou com você para essa viagem — disse, a voz rouca, sem soltar o queixo da mão dele. — Mas não pense que isso muda o que eu sei sobre você, Pedro. Você pode me chantagear, pode me forçar a deitar na sua cama, mas você nunca vai ter o que realmente quer.
— E o que é que eu quero, Laura? — ele perguntou, deslizando o polegar macio pela linha do meu maxilar, a voz perigosamente suave.
— Você quer que eu te adore. Quer que eu olhe para você da mesma forma que os idiotas no seu salão de festas olham. Quer que eu finja que você é humano. E isso... isso você nunca vai ter.
Por uma fração de segundo, vi a rigidez no travamento do maxilar dele. Apenas um microgesto, mas eu o peguei. Acertei no ponto cego do ego dele.
No entanto, em vez de se enfurecer, a expressão de Pedro se transformou em uma calma glacial. Ele se aproximou até que seu hálito morno roçasse meus lábios.
— Nós temos todo o tempo do mundo, querida — murmurou ele, dando um beijo lento e profundo na canto da minha boca antes de se afastar. — Vamos ver quanto tempo a sua resistência dura quando estivermos isolados na ilha.
Três horas depois, o som das hélices do helicóptero Sikorsky de Pedro cobria o barulho do vento enquanto sobrevoávamos o litoral paulista.
Eu olhava pela janela, vendo a imensidão azul do mar se estender até o horizonte. Ao meu lado, Pedro lia relatórios em seu tablet com a tranquilidade de quem estava apenas fazendo um passeio de rotina. A mão dele repousava sobre a minha coxa por cima do tecido do meu jeans, um toque possessivo, constante, lembrando-me a cada segundo de quem eu pertencia.
Quando o helicóptero começou a descer, vi a propriedade abaixo.
Era uma mansão moderna, de vidro e concreto, encravada no topo de um penhasco cercado por mata atlântica fechada e pelo mar revolto lá embaixo. Não havia vizinhos. Não havia estradas de acesso visíveis. Apenas uma praia privativa cercada por rochas afiadas.
Uma prisão perfeita disfarçada de paraíso tropical.
O helicóptero pousou na pista privativa. Pedro esperou que o piloto abrisse a porta e estendeu a mão para mim. Hesitei por um segundo, mas a firmeza do olhar dele me fez aceitar o toque.
A brisa salgada da praia atingiu meu rosto assim que pisei no heliponto. Mas junto com o cheiro do mar, veio a constatação gélida de que dali eu não tinha para onde correr.
— Bem-vinda à minha casa de praia, Laura — disse Pedro perto do meu ouvido, a mão descendo para a minha cintura, apertando-me contra o seu corpo firme. — Aqui, não há metrô, não há polícia, não há vizinhos. Apenas você, eu e o som das ondas.