capítulo 1

1250 Words
# Capítulo 1 Pedro Alcântara Montenegro... A perfeição é uma ciência exata. Requer controle, cálculo e uma disciplina que a maioria das pessoas é simplesmente incapaz de exercer. No salão principal do *Grand Hyatt*, cercado por lustres de cristal e pela elite financeira da cidade, eu era o centro das atenções. O terno sob medida assentava perfeitamente nos meus ombros de um metro e noventa; cada gesto meu, desde a forma como eu segurava a taça de cristal até o ângulo da minha cabeça ao ouvir um investidor medíocre, era milimetricamente executado. — O novo software de inteligência da Montenegro Holding é uma revolução, Pedro — dizia Eduardo Fontes, um homem cujo patrimônio era um décimo do meu, mas cujo ego ocupava a sala inteira. — O mercado nunca viu nada parecido. — O mercado só vê o que eu me permito mostrar, Eduardo — respondi, oferecendo um sorriso calmo e ensaiado. A voz suave, a postura impecável. Para todos ali, eu era o jovem bilionário prodígio, o filantropo reservado, o homem impecável. Eles olhavam para mim e viam poder, dinheiro e charme. Coitados. Não entendiam que nada disso me movia. Eu não acreditava em sorte, destino ou em conexões humanas profundas. Eu acreditava em **posse**. Em controle absoluto sobre o ambiente e sobre as pessoas que nele transitavam. Senti um pigarro de tédio na garganta, mas minha expressão não mudou um milímetro. Enquanto Eduardo continuava a tagarelar sobre projeções de lucros, meus olhos cinzentos varreram o perímetro do salão. Era um hábito meu: mapear saídas, identificar ameaças, catalogar fraquezas. Foi quando meu olhar travou na área técnica, no canto esquerdo da sala. Entre os monitores de controle e a equipe de suporte encarregada de manter o evento impecável, havia uma garota. Ela vestia um terno feminino simples, preto, sem adereços caros ou joias. Cabelos presos de forma prática, postura ereta. Mas não foi a simplicidade dela que me fez parar. Foi o olhar dela. Enquanto todas as mulheres naquele salão me devoravam com intenções óbvias — e todos os homens me encaravam com inveja —, ela não estava impressionada. Ela não olhava para as minhas roupas, para o meu relógio de seis dígitos ou para a minha posição. Ela olhava para a minha **face**. Quando Eduardo me interrompeu pela terceira vez com uma risada alta e vulgar, apertei a haste da taça com um milímetro a mais de força. Foi um microgesto, imperceptível para 99,9% da humanidade. Minha máscara social deu uma falha de meio segundo: meu olhar piscou em um ódio frio e absoluto antes que o sorriso falso voltasse ao lugar. Ninguém notou. Exceto ela. Eu vi o momento exato em que a garota na área técnica contraiu levemente os olhos. Ela notou a falha. Ela não viu o bilionário perfeito; ela viu a fera por trás dos olhos cinza. E, em vez de se deslumbrar, ela deu um passo sutil para trás, o queixo erguido em desconfiança analítica. Uma faísca queimou na minha espinha. Uma sensação rara, quente, violenta. Ela não me adorava. Ela me *estudava*. Voltei a atenção para o investidor à minha frente, mas minha mente já havia mudado de alvo. Descaradamente, mantive o foco do meu olhar na direção dela até que seus olhos encontrassem os meus à distância. Ela estremeceu. O peito dela subiu e desceu rapidamente sob a camisa branca. Ali mesmo, no meio do evento mais importante do ano, uma decisão fria e irreversível tomou conta do meu ser. Aquela garota pensava que podia me ver por dentro. Pensava que era esperta o bastante para notar minhas falhas. Ela não sabia, mas no instante em que me encarou daquele jeito, ela assinou a sua rendição. Eu iria descobrir quem ela era, onde morava, o que comia, o que temia. Eu tomaria cada pedaço da vida dela até que a única coisa que restasse em sua mente fosse a minha presença. Ela seria minha. Custasse o que custasse. Laura Vasconcelos...... Eventos de gala eram o tipo de lugar que me lembrava exatamente o meu lugar no mundo: o bastidor. Enquanto a elite de São Paulo bebia champanhe de milhares de reais, eu estava de pé há seis horas seguidas perto do rack de servidores móveis, monitorando as telas e garantindo que o painel de LED de trinta metros não apresentasse nenhuma falha durante a apresentação principal. O meu salário no final do mês m*l pagava o aluguel do meu apartamento pequeno e o conserto do carro velho, mas eu gostava do meu trabalho. Como técnica de suporte e análise de dados, eu lidava com lógica. Código não mente. Padrões não enganam. E humanos... bom, humanos mentem o tempo todo. — Meu Deus, Laura, você já viu um homem tão lindo na sua vida? — murmurou Beatriz, minha colega de equipe, ajustando o fone de ouvido enquanto olhava para o centro do salão. — O Pedro Alcântara Montenegro parece desenhado à mão. Se ele olhasse pra mim, eu esquecia até meu nome. — Ele é o dono do evento, Bia. Concentre-se nos servidores — respondi, sem tirar os olhos do monitor de sinal. Mas a verdade era que eu também estava olhando para ele. Não por atração, mas por puro incômodo. Desde que Pedro Montenegro havia entrado no salão, passei a observá-lo nas pausas entre um comando de sistema e outro. Ele tinha 1,90 m, um terno impecável e uma aparência que parecia saída de uma revista. No entanto, havia algo terrivelmente errado com ele. Analisei a linguagem corporal dele como se analisasse uma linha de código corrompida. A postura dele era ereta demais. O sorriso surgia com uma precisão matemática toda vez que alguém importante se aproximava. Mas os olhos cinzas permaneciam mortos, frios, totalmente desprovidos de calor. Ele não sorria com o rosto; ele *executava* o ato de sorrir. Era uma atuação perfeita, um teatro ensaiado à exaustão na frente do espelho para enganar trouxas. De repente, um dos homens mais velhos deu um tapinha no ombro dele, interrompendo o que Pedro dizia. Aconteceu em uma fração de segundo. O sorriso de Pedro desapareceu. Os maxilares dele se travaram e os olhos cinzentos se estreitaram em uma expressão de desprezo e raiva tão visceral que meu sangue congelou. Foi o vislumbre de um predador prestes a rasgar a garganta da presa. Mas, antes que o homem notasse, a máscara de Pedro se recompôs, impecável, polida, falsa. Um arrepio frio subiu pela minha espinha. Instintivamente, dei um passo para trás, quase me chocando contra a mesa de som. *Aquele homem é um perigo*, pensei. *Um monstro vestindo um terno de grife.* Cometi o erro fatal de não desviar o olhar a tempo. Lá do centro do salão, como se tivesse sentido o meu julgamento no ar, Pedro Montenegro girou a cabeça devagar. Os olhos cinzas dele perfuraram a multidão e cravaram-se diretamente em mim. O ar sumiu dos meus pulmões. Não havia barulho no salão, não havia música, não havia mais ninguém. Apenas o olhar pesado, sombrio e calculista daquele bilionário fixado em mim. Ele não parecia zangado por eu tê-lo pego no flagra; ele parecia... fascinado. Como um gato olhando para um rato que acabou de cair na gaiola. Desviei o rosto rapidamente, o coração batendo descontrolado contra as minhas costelas, e fingi digitar no teclado do sistema. Minhas mãos estavam tremendo. Eu não sabia quem ele era no fundo, mas uma coisa era certa: eu precisava terminar o meu turno e sumir daquele prédio o mais rápido possível.
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